Um inferno "com fogos a saltarem como os diabos"

Bombeiros declararam fogo incontrolável na Camacha, na Madeira, onde há pessoas presas nas casas.

“Isto parece um inferno com as chamas a saltar de um lado para outro como os diabos". A situação na Madeira era assim descrita por Manuela Abreu quando, na companhia de familiares, socorria uma vizinha, a Dona Ana, como identificou, que teve de abandonar a casa, parcialmente atingida pelas chamas, no caminho municipal dos Salgados, na Campanha.

“Agora está pior no Rochão”. “Estão a pedir reforços nas Águas Mansas”, eram os pedidos de auxílio trocados pelos bombeiros que, desde o início da manha, não tiveram mãos a medir para responder a tanta solicitação, exaustos, depois de uma longa noite a debelar o grande incêndio, de suspeita origem criminosa, no Palheiro Ferreiro, a noroeste do Funchal.

Entre ordens e contraordens, os bombeiros e trabalhadores municipais, num voluntarismo a compensar as falhas de coordenação, contavam com o apoio de populares e elementos da Cruz Vermelha. Baldes e mangueiras domésticas, resolvendo a falta de agulhetas dos bombeiros, vão irrigando áreas circundantes às residências para evitar a propagação de chamas.

Apoiado por dois jovens membros daquele movimento, Manuel, um sexagenário vizinho da Dona Ana, e igualmente morador solitário, teve de abandonar a sua residência no caminho dos Salgados. Pára e anda, com dificuldade na respiração, por, sem mobilidade no seu quarto, ter inalado fumos das labaredas que consumiram acácias e eucaliptos e destruíram, parcialmente, algumas casas.

“Vamos, vamos”. Desta vez o SOS vem do norte de Gaula. “Está num caos”, dizem. O vento intenso, por vezes com rajadas em direções opostas, não facilita o combate dos fogos e torna imprevisível o sentido da sua propagação.

Rapidamente as labaredas estendem-se, serra baixo, de uma altitude próxima dos 900 metros nas Águas Mansa, na Camacha, até à zona do Porto Novo, no litoral do mesmo concelho de Santa Cruz. E, por algum tempo, provocou a interdição da circulação automóvel na via rápida entre o Funchal e o aeroporto, onde, no momento mais crítico dos incêndios, também foram suspensas as operações de aterragem e descolagem de aviões, devido às nuvens de fumo.

Depois de várias horas sob fogo, bem vivo, que provocou imagens dantescas e impressionantes gestos de solidariedade e altruísmo entre moradores, Gaula ficou mais calma. Coberta de cinzas. Em silêncio sepulcral. “Nunca tinha visto tamanha destruição”, diz Élvio Sousa, presidente da junta de freguesia, onde os utentes do lar de idosos tiveram de ser evacuados.

Carbonizada, de cima a baixo, com casas e campos de cultivo devorados pelas chamas, a freguesia foi sendo abandonada pelos seus habitantes. Mas alguns resistiram, “Tenho toda a minha vida”, justifica Francisco Freitas que com seus parentes vai lançando água para o telhado e paredes da moradia, cerca por chamas.

Muitos gauleses desalojados foram, após triagem e primeiros socorros prestados no pavilhão da escola de Santa Cruz, transportados para os centro de acolhimento de desalojados provisoriamente instalado centro de socorros náuticos, junto ao aeroporto e na escola local e de Machico. “Será que o diabo do fogo poupou a minha casinha”, diz, entre choro e lagrimas, Helena Cruz, ate há pouco radicada na Venezuela. “Vim de um inferno, para meter-me noutro”.

Por agora, o “diabo do fogo” continua nas Aguas Mansas e no Rochao, freguesia da Camacha, nas Carreiras, e, a oeste da ilha da Madeira, nas Achadas da Cruz e Fajâ da Ovelha. “Estas são as situações mais complicadas”, confirmou o presidente do governo, Alberto João Jardim que, no balanço sobre os incêndios, atribuiu a um “milagre de Nossa Senhora do Monte” não haver mais casas destruídas pelas chamas. “Que Deus que nos ajude nesta noite”, pediu.

Notícia corrigida às 11h05 de 20 de Julho. Corrige nome do presidente da Junta de Freguesia de Gaula

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