Nestes dias, na Beira Baixa, todos os caminhos vão dar ao Boom, passando por montes e vales pouco dados ao frenesim. Mas, além do festival, é neste cruzar de gerações e culturas que se faz a festa.
Nos primeiros anos tinha medo. Os cabelos eram muito estranhos e alguns até cheiravam mal. Mas, desde então, percebemos que eram simplesmente diferentes", diz o sr. Manuel, 66 anos. Em Idanha-a-Velha, com apenas 80 habitantes, a invasão de milhares de estrangeiros e outros tantos portugueses que ali arribam para o Boom já não mete medo. Muito antes pelo contrário. O vale enche-se de encantamento.
A cada dois anos, entre a velha e a nova Idanha, na Herdade da Granja, distrito de Castelo Branco, decorre o camaleão Boom Festival. Este ano, já na sua nona edição, entre hoje e 4 de Agosto, pessoas de todo o mundo voltam a reunir-se para uma semana de "alinhamento com a natureza".
Na região, é fácil perceber quando "é ano de Boom ou não". Na semana que antecede a abertura, por vezes até mais cedo, começam a chegar os primeiros festivaleiros. Vêm de transportes públicos ou em carrinhas, quase sempre em grupos e por ali ficam, cirandando pelas ruas e veredas.
Fazem das vilas e aldeias as suas casas. E quem lá mora não se importa. Refrescam-se nas fontes públicas, passam uns dias nas ruas, ora à espera de boleia de outros boomers ora aguardando amigos. Quando é preciso, pernoitam na rua, nas quintas, nos parques ou na zona histórica. E todos lhes abrem as portas.
Os que preferem adiantar caminho, fazem-se à estrada a pé. De mochila às costas, percorrem as bermas da estrada com o polegar no ar, com ou sem um cartão que diga "boom" ou "Idanha".
Pelas Idanhas
Os 80 habitantes da aldeia de Idanha-a-Velha estão pouco habituados à confusão. São poucos, idosos, e a participação cívica é feita, muitas vezes, de forma colectiva, votando em conjunto, de braço no ar.
Só são precisos dois minutos para percorrer a pé a velha Idanha. Plantada dentro e fora de um pequeno forte medieval, é fácil encontrar os moradores. Todos acorrem sempre ao mesmo lugar: a Liga dos Amigos de Idanha-a-Velha - o único café da aldeia.
Apesar de ser uma aldeia pequena, ainda há quem venha tomar o seu café de tractor. O sr. Manuel, 66 anos, sentado à sombra, em frente ao café, fala das velhas rotinas.
"Isto é muito sossegado o ano todo. Em alguns fins-de-semana, aparecem turistas, mas o resto do ano somos só nós [habitantes da aldeia]", sublinha, enquanto afugenta as moscas.
Contudo, nos anos de Boom, a clientela é outra. O pequeno largo em frente ao café, durante os dias do festival, tem sempre muitos "jovens diferentes."
É ele que diz que antes até tinham medo. Agora, já percebem que tudo não passa de "diferença".
E a cada dois anos, os "jovens diferentes" passam a fazer parte da etnografia das Idanhas. "Sentam-se no chão da praça a comer e a beber. Não incomodam ninguém e são sempre muito educados", dizem os habitantes sobre os Boomers.
"Eles às vezes durante a noite infiltram-se nos celeiros dos animais. Já por uma ou duas vezes, pela manhã ia ordenhar os animais e lá estavam eles. Acordam sempre cheios de medo que eu os expulse", disse o sr. Augusto em tom de brincadeira.
Passados mais de dez anos desde a primeira edição, já é o sr. Augusto que lhes oferece o espaço.
"Pela manhã quando vou ao celeiro, ainda me querem ajudar a ordenhar os animais. Dá-me gosto vê-los aqui na quinta. Gostam mesmo do campo", acrescentou.
O certo é que, numa zona onde a densidade populacional é reduzida, um evento como o Boom Festival acarreta significativas alterações nas dinâmicas locais. Quase de um dia para o outro, a região recebe 20 a 25 mil novas pessoas.
Se, por um lado, é frequente que nos minimercados da zona esgotem, é notório um aumento significativo dos preços. "Se há quinze dias custava um euro, na altura do Boom pode ir até ao 1,80", diz Maria de Lurdes, habitante de Idanha-a-Nova.
A sra. Graça diz que gosta de estar sentada "à porta" da sua quinta, no Verão. "Vejo-os a passarem aqui a pé todos contentes. Alguns vêm-me pedir água e eu deixo-os ir encher os jericas ao poço. Afinal, não me custa nada". Mas, para os seus 72 anos, ainda há práticas difíceis de aceitar, mesmo que já tenham passado 16 anos desde que a primeira "invasão" teve lugar.
"Já os apanhei a tomarem banho nus nos ribeiros. Os jovens contam que acontece o mesmo no festival. Onde já se viu tal coisa?", interroga a sra. Graça em tom de indignação.
Já os vendedores de fruta locais só têm a agradecer tanta clientela. "Quem vai para lá costuma parar aqui para comprar fruta, gostam muito da melancia e é mais barata que lá dentro do festival", sublinha Beatriz Santos, uma das vendedoras.
"Se no início as pessoas [em Idanha-a-Nova] tinham reservas quanto ao Boom e às pessoas, agora é um produto assumidamente da Idanha. Todos os negócios lucram directamente ou indirectamente com o festival", diz Armindo Jacinto, vice-presidente da Câmara de Idanha-a-Nova.
A pedido dos organizadores do Boom, um grupo de alunos do mestrado de Gestão Cultural no ISCTE realizou um estudo de impacto económico do festival no município. As conclusões apontam para que sejam geradas receitas de 15 milhões de euros para a zona envolvente.
"Mesmo não sendo um estudo certificado, é inegável que este festival tem um grande impacto económico numa zona tão desertificada", sublinhou Artur Mendes.
É o que diz Idália, dona de um pequeno restaurante de comida da "terra", que não se queixa nem por um instante das "mil línguas enroladas" que aparecem, muito pelo contrário, conta que "são os que pagam melhor, mesmo os com aspecto de sem-abrigo."
Recorda "um casal estrangeiro, já de idade, que apareceu para almoçar a cheirarem muito mal".
"Por momentos pensei que não ia receber o pagamento, mas quando foi a altura de pagar, sacaram de um molho das notas dos maiores que eu já vi. E olhe que eu tenho um restaurante e lido com dinheiro", enfatiza.
Das mais de 200 empresas que colaboram com o festival, a organização confirmou que 152 pertencem ao distrito de Castelo Branco.
Fazem-se amizades
Joana Margarida é uma jovem de Castelo Branco, e, tal como a maioria da população, partilha o fascínio pelo festival Boom e já tem histórias que ela descreve como "bem ao estilo Boombásticas."
Em 2010, Joana conheceu Manu e Piton, dois jovens franceses, um mecânico e um agricultor, que rumaram a Portugal com esperança de conseguir entrar no festival mas sem comprar o bilhete.
Na noite em que conheceram a albicastrense estavam à procura de um sítio para dormir ao relento na cidade. Joana indicou-lhes um ou dois sítios mais tranquilos e, durante o resto da noite, os franceses e o grupo de amigos de Joana foram um só.
A confiança cresceu entre estes até então desconhecidos, a ponto dos franceses tudo depositarem nas mãos dos portugueses. E no carro da Joana ficou o que possuíam para que pudessem dormir mais descansados na rua e de manhã explorar a cidade livres do peso às costas.
Joana acedeu, deu-lhes o número de telemóvel e ficaram de se encontrar no dia seguinte. Manu e Piton não tinham telemóveis consigo, para "viver a experiência do festival mais intensamente", mas no dia seguinte lá se encontraram para a devolução das mochilas.
Joana acabou mesmo por se oferecer para levá-los até à entrada do festival. Manu e Piton não tinham bilhete, mas tudo o que queriam era chegar às proximidades do Boom na esperança de conseguir encontrar maneira de entrar pelas vedações ou, se fosse preciso, construir uma jangada e remar pela barragem até às margens da herdade da Granja.
Joana não sabe se conseguiram ou não entrar no recinto, mas lembra com carinho aqueles dois dias que passaram juntos e o facto de nesse tempo só os ter visto comer passas de figo.
Está é só mais uma de muitas histórias de encontros, confianças construídas num trocar de olhares, e fugazes amizades que o Boom fomenta na região.
Histórias com reis
E ainda há os mitos. Um deles passou-se no Boom de 2010 e envolve a realeza. Alegadamente, um dos jovens da família do rei da Jordânia terá vindo de propósito a Portugal para passar a semana no Boom Festival.
Mito ou não, o interessante é que há uma série de pormenores que tornam a história muito completa. Um albicastrense conta no café como ouviu dizer que o tal "Jordão" voou até Portugal de jacto privado, tendo à sua chegada um motorista num carro de alta cilindrada para o levar até Castelo Branco.
Aí, um outro motorista aguardava o membro da realeza para lhe passar a chave de uma carrinha pão-de-forma. O rapaz da Jordânia terá pago uma suite num hotel da cidade para a semana toda, da qual só usufruiu no primeiro dia para tomar um banho e mudar para roupas "ao estilo do Boom". Com o visual adequado, rumou até ao festival ao volante da carrinha sem que nada revelasse a suas origens.
De acordo com a organização do Boom Festival, esta história pode ter um fundo de verdade. Alfredo Vasconcelos não pode confirmar a identidade mas adiantou que tem clientes "muito importantes" a virem tanto do Médio Oriente, Estados Unidos da América e outros sítios.
À espera de milhares
Uma coisa é certa. A organização do festival conta que a edição de 2012 seja um sucesso: até à terceira semana de Julho, já tinham sido vendidos 20 mil bilhetes, o que representa um aumento de 20% face aos números da última edição. E, sublinhou Artur Mendes, "ainda falta na conta os bilhetes vendidos à porta, nos dias do festival".
O Boom é um festival "plantado" em Portugal, mas as suas raízes alastram-se um pouco por todo o mundo. Reflexo disso é o facto de 85% dos bilhetes terem sido vendidos para fora de portas, com "boomers" de 102 nacionalidades diferentes já confirmados.
Mais de 800 artistas de diferentes estilos preparam-se para passar pelas margens da barragem Marechal Carmona.
É esta multidisciplinaridade que leva a organização a afirmar que "não existe um perfil do público do festival". "Seja pela cultura, workshops ou ambiente, todos procuram algo diferente", disse Artur Mendes, outro membro da organização do festival. "Quem vem ao Boom, não procura artistas, mas sim uma experiência. O divertimento só pelo divertimento não tem valor."

Comentários