O produto não é novo. O embrulho, sim. A Junta de Matosinhos apresenta segunda-feira uma mochila escolar com um localizador de GPS dissimulado, que permite aos pais perceberem se os filhos se desviam das suas rotas normais. O autarca António Parada explica que esta "inovação" é fruto de uma parceria com a empresa Agaffashion, que produz a mochila, e a Inosat, que em 2009 começou a comercializar o Child Locator, uma pequena caixa, com um chip, com os mesmos objectivos do novo produto.
Esta é a segunda incursão da junta liderada por António Parada na área da segurança de pessoas. Em Março, esta autarquia incentivou as mesmas duas empresas a apresentarem um produto para ajudar a localizar doentes de Alzheimer e idosos que vivem sozinhos. O Wallet Locater mais não é do que uma carteira com um localizador embutido, que está a ser comercializado ao preço de 399 euros. Através da parceria, a Junta garantiu algumas unidades para oferecer e propôs-se criar uma base de dados, com informações do doente e a sua fotografia, o que facilitará a sua identificação, no caso de sair de casa sem a carteira.
Tal como acontece com a carteira, a mochila escolar permite que os familiares (pais, no caso) acompanhem, à distância de um computador ou de um telemóvel, os movimentos de quem leva consigo o localizador. O produto, que não é mais do que uma nova versão do Child Locator já comercializado, por 359 euros, pela Inosat, desde 2009 - seguindo uma tendência mundial - estará dissimulado no saco. "Os pais só dizem aos filhos se quiserem", assinalou ao PÚBLICO Luís Martins, da empresa de marroquinaria que o produz, a Gaffashion, de Viana do Castelo.
A ideia é que os pais possam estabelecer, numa conta online - gratuita -, um perímetro a partir do qual pretendem ser avisados, via SMS, com a informação de que a criança se desviou do percurso. Este tipo de controlo, oferecido por várias empresas noutros países, não escapa à polémica. Quando foi apresentado, António Osório, investigador do Instituto de Estudos da Criança, da Universidade do Minho, alertou para o "sentimento de culpa que estas tecnologias podem criar nos pais" que não tenham dinheiro para as adquirir. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, contactar Tiago Borges, da Inosat, no sentido de perceber a recepção do mercado ao Child Locator. Que é apenas um de uma família de produtos nesta área. A mesma empresa, sediada na Maia, produz soluções para a localização de veículos particulares, gestão de frotas, qualquer tipo de objectos pessoais e até animais de estimação.
E o que leva uma junta a envolver-se neste negócio dos localizadores por GPS? António Parada explica que o seu objectivo, detectados determinados problemas sociais na sua freguesia, é ajudar a encontrar soluções. E, tal como aconteceu com os doentes de Alzheimer, nota que a questão do desaparecimento de crianças é uma preocupação dos pais, de Matosinhos e não só. "Isto é uma solução que estamos a dar para o país", insiste o autarca socialista.
Chip "não previne raptos"
Na terça-feira, Parada terá a seu lado a presidente da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas, Patrícia Cipriano. O autarca adianta que quem quiser comprar a mochila através desta associação estará a apoiar os seus objectivos. Entretanto, a própria Junta de Matosinhos terá direito a algumas unidades, que pretende entregar a casos "comprovados" de crianças de famílias necessitadas e que, por diversos motivos, como uma doença, por exemplo, "precisem deste tipo de controlo". Na apresentação, duas mochilas serão oferecidas a dois menores carenciadas à guarda da Obra do Padre Grilo.
"Estamos a ajudar as pessoas e a apoiar a indústria portuguesa", vincou o autarca, que garante querer apenas encontrar um mecanismo para "tranquilizar" os pais. Em 2009, a Inosat, então pela voz de David Pinheiro, seguia a mesma linha, sublinhando que "o objectivo é mesmo proporcionar paz de espírito aos pais" e ressalvando que a empresa "nunca "vendeu" a ideia de que o Child Locator é capaz de ajudar a prevenir um rapto". Apesar disso, reconhecia que "há pais que o compram com esse intuito". Nessa altura, Alexandra Simões, da Linha SOS Criança, alertava para a necessidade de os pais não confiarem demasiado na tecnologia, aliviando a vigilância que normalmente exercem sobre os filhos.

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