Mais de 100 crianças, entre as cerca de 1750 que frequentam os jardins-de-infância e escolas do 1.º ciclo da rede pública no concelho de Alenquer, foram afectadas com alguma gravidade pela intoxicação alimentar verificada na sexta-feira, após os almoços servidos nos estabelecimentos de ensino.
A constatação é do próprio presidente da câmara de Alenquer, que sabe que 81 daquelas crianças foram assistidas em serviços de saúde de cariz público, mas que mais algumas dezenas foram conduzidas pelos pais a unidades privadas.
Cerca de 30 pais e encarregados de educação estiveram, na manhã desta segunda-feira, na sessão camarária alenquerense exigindo explicações e medidas da autarquia. Um grupo de uma dezena de pais do Centro Escolar do Carregado insistiu mesmo na “suspensão” do contrato com a firma que, desde o passado dia 12, fornece cerca de 1750 almoços diários nas escolas do concelho.
O presidente da autarquia, o socialista Jorge Riso, admitiu que, com uma situação desta gravidade, houve uma “quebra da confiança” que a câmara depositava nesta empresa, mas vincou que, só depois de serem conhecidos os resultados das análises à comida e as razões da sua deterioração é que a edilidade poderá tomar outras decisões. Caso se confirmem responsabilidades da empresa, o autarca diz que a câmara deverá rescindir o contrato e contactar o segundo classificado do concurso para que passe a prestar este serviço. Se não se confirmarem, a autarquia promete estar ainda mais atenta para exigir o cumprimento do que está previsto no caderno de encargos.
Em causa está um contrato para todo o ano lectivo, que envolve um montante total da ordem dos 500 mil euros e o fornecimento de cerca de 1750 almoços diários. O contrato com o anterior fornecedor expirou no Verão e a autarquia lançou um novo concurso, em que a empresa vencedora apresentou um preço 86 cêntimos inferior ao praticado no ano lectivo 2011/2012 (de 2, 28 euros para 1, 42). E esta foi uma das questões mais vincadas pelos pais, temendo que esta redução de preço correspondesse a refeições de pior qualidade.
“Acredito que a câmara tenha que poupar custos, mas as crianças não podem ser prejudicadas, nem na quantidade, nem qualidade da comida”, frisou Isabel Oliveira, uma das mães presentes. “Não tem nada a ver com os custos. Um dos critérios do concurso era o preço, mas a qualidade nunca foi posta em segundo plano”, reagiu Jorge Riso, salientando que esta é uma das acusações que mais lhe custa ouvir e que sabe que na região Oeste há câmaras que pagam 1, 09 euros por almoço e não tiveram qualquer problema deste género.
Depois, Vera Ramalho observou que, na semana passada, a sua filha esteve três dias em casa com uma gastroenterite viral e que já havia várias queixas em relação à comida fornecida nas últimas semanas. José Manuel Catarino, vereador da CDU, acrescentou que um relatório elaborado pelos serviços camarários no dia 16 (respeitante à primeira semana de fornecimento desta firma) já aludia a 20 queixas de escolas por escassez de comida, dez por falta de salada, algumas pelo fornecimento de pêras “parecidas com cerejas” e uma por refeições servidas frias. Nuno Coelho, vereador social-democrata, estranhou que estas refeições cheguem ao Centro Escolar do Carregado logo às 9h30 da manhã e disse que ouviu conversas de pais que receavam que estes almoços fossem confeccionados na véspera. Jorge Riso garantiu que não é assim, que as refeições são cozinhadas na própria manhã, mas reconheceu que não será boa solução entregá-las às 9h30, para serem consumidas depois do meio-dia.
O autarca esteve na sexta-feira no hospital de campanha instalado na primária da Pocariça (uma das mais afectadas, com 23 crianças assistidas) e reuniu, na manhã seguinte, com os pais do agrupamento desta área. Hoje, terça-feira, reúne com os diferentes agrupamentos e directores escolares e considera que há que tomar medidas porque nem todas as escolas reagiram da melhor forma e muitos pais só foram alertados horas depois do sucedido.
O edil sabe que foram assistidas 23 crianças no hospital de campanha, 50 no Hospital de Vila Franca, sete no Hospital de Torres Vedras e uma no D. Estefânia, em Lisboa. “O número há-de ser superior às 100 crianças afectadas, os serviços vão também fazer o levantamento de todas as situações”, prosseguiu, considerando que a empresa fornecedora deverá suportar os custos de assistência, porque estará previsto no caderno de encargos que tem a responsabilidade por estas situações. Dez crianças foram internadas no hospital vila-franquense, mas tiveram todas alta no fim-de-semana.
As análises solicitadas ao Instituto Ricardo Jorge deverão ter resultados dentro de cinco a seis dias e na sequência disso, a autarquia promete tomar decisões. “Lamento profundamente o sucedido que foi, de facto, grave em termos de dimensão e de consequências. Mas nós temos regras de concursos públicos que temos de cumprir. Se a câmara pudesse fazer de outra forma nem abria este novo concurso, porque estava a ser bem servida. Não podemos contratar quem queremos, temos que contratar quem ganha os concursos”, justificou Jorge Riso, salientando que esta empresa está certificada e fornece hospitais e escolas de todo o país.
Muitos pais dizem que, nestas condições, não querem que os seus filhos comam as refeições fornecidas na escola. Jorge Riso explicou que, por precaução, esta segunda-feira, foi servida a chamada ementa de dieta.

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