Empresa americana aposta na fartura de terra, água e temperaturas elevadas para converter região alentejana no grande produtor europeu desta cultura subtropical, que já se produz no Ribatejo.
A multinacional americana PepsiCo aponta como meta até 2015 a plantação, na área sob influência do regadio de Alqueva e nas regiões espanholas da Extremadura e Andaluzia, de 6600 hectares de culturas de amendoim.
Em 2012 já foram plantados 1800 ha (300 em Portugal, na região do Ribatejo), 1100 em Vegas del Guadiana (Extremadura) e 400 divididos por Cáceres, Sevilha, Córdoba e Cádis. A empresa americana quer tornar-se auto-suficiente na cultura do amendoim na Europa. A Matutano é a sua marca mais conhecida. A experiência começou há dois anos, quando especialistas dos Estados Unidos propuseram a agricultores de Vegas del Guadiana (Extremadura espanhola) se queriam plantar amendoins. O objectivo passa por cultivar 10.000 ha desta cultura subtropical na Península Ibérica durante cinco anos.
A área sob influência do Alqueva oferece as condições requeridas. "Tem fartura de terra, água e sol", factores determinantes para obter elevados índices de produção, destacou um dirigente da Torriba, organização de produtores de hortofrutícolas de Almeirim, que foi contactada pela PepsiCo para incentivar agricultores portugueses a produzir amendoins. Em 2010 realizaram-se os primeiros ensaios numa área de seis ha, que se revelaram promissores, e em 2011 a área de cultivo já ocupou cerca de 311 ha.
Alternativas agrícolas
Na sequência destes resultados a Torriba contactou a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA). O seu presidente, João Basto, acolheu bem a proposta por entender que é preciso "intensificar a procura de novas alternativas agrícolas" nos cerca de 60 mil hectares de regadio que se encontram infra-estruturados com sistemas de rega e em condições de serem cultivados.
O projecto Cultura do Amendoim foi apresentado nas instalações da EDIA, em Beja, para incentivar agricultores alentejanos da área do Alqueva a produzirem o fruto seco para a multinacional americana. Inês Vinagre, especialista portuguesa neste tipo de cultura, frisou que a "grande vantagem" é que a PepsiCo "garante o escoamento do produto". Nestas condições, o agricultor, quando decide semear, já sabe quem vai ficar com a produção e o preço de venda.
O amendoim é uma cultura que "requer calor, bons solos e água", precisamente o que a região de Alqueva tem condições para oferecer, explica a técnica da Torriba, dando conta de um pormenor curioso: a planta não precisa de fertilização. Com efeito, como as raízes do amendoim se projectam até dois metros de profundidade, esta particularidade permite que a planta encontre os nutrientes necessários ao seu crescimento e ainda deixa no solo percentagens de azoto em condições de valorizar culturas de milho ou de centeio.
Além disso, só necessita de duas regas por semana, em detrimento das regas diárias, que dificilmente penetram em profundidade. O importante é garantir que a humidade chegue a toda a planta. Nos Estados Unidos da América, no estado do Texas, a cultura do amendoim é garantida com rega por aspersão. Em alternativa, o agricultor opta pela cultura de sequeiro, que é indutora das microtoxinas que surgem associadas a "surtos de seca extrema".
Um agricultor presente na apresentação da cultura quis saber se a rega gota-a-gota se podia adequar ao amendoim. Inês Vinagre disse ter dúvidas que a produção funcione em terrenos arenosos, mas adiantou que na região de Badajoz, em 90% das plantações de amendoim, os agricultores recorrem à rega gota-a-gota. No entanto, a técnica mais adequada à região do Alqueva "precisa de ser melhor estudada", notou a especialista, assinalando outra das grandes vantagens que a cultura do amendoim oferece: é totalmente mecanizada.
Trata-se de uma cultura que pode ser rentável em terrenos argilosos. Uma das características que concorre para a viabilização da cultura reside no tipo de solo, que tem de ser permeável para permitir que a planta lance os seus espigões - onde virá a germinar o fruto (amendoim) - no interior da terra e a uma profundidade suficiente para o desenvolvimento das raízes. E neste particular há no Alqueva solos argilosos, com boas texturas e em condições de garantir produções rentáveis.
Inês Vinagre esclareceu que uma produção até três toneladas/ha "cobre" o investimento realizado na cultura - 2250 euros/ha. Mas na região do Alqueva admite-se uma produção média de 4,5 toneladas/ha, valores que pode atingir, nalguns casos, as cinco e até as seis toneladas por hectare.

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