Saída de La Féria do Rivoli pode vir a ser uma segunda oportunidade para a cultura

Partidos não desistem de obter explicações e vão voltar a questionar Rui Rio. Vereador da Cultura de Gaia, Mário Dorminsky, vai assegurar duas semanas de programação do Rivoli

O anúncio de que o produtor Filipe La Féria está de saída do Rivoli-Teatro Municipal não causou qualquer surpresa, seja entre a oposição a Rui Rio na Câmara do Porto, seja entre aqueles que se opuseram à cedência do equipamento à empresa Todos ao Palco. "É o que se esperava. Prova-se que são necessários capitais públicos e um investimento forte para que haja cultura ou entretenimento na cidade. E prova-se que Rui Rio estava errado, que fez asneira e matou o Rivoli ao entregá-lo a La Féria", considera Ricardo Alves, um dos rostos da Rivolição, o movimento que, em 2006, ocupou pacificamente a sala de espectáculos para contestar a sua entrega ao produtor lisboeta.

Quatro anos volvidos, Filipe La Féria prepara-se para abandonar o Rivoli, deixando atrás de si um rasto de dívidas, "apesar de ter beneficiado de um subsídio municipal de setecentos mil euros anuais", diz o vereador do PCP na Câmara do Porto, Rui Sá, que ainda não conseguiu que a Câmara do Porto apresentasse as contas relativas ao contrato com a Todos ao Palco. Sá vai voltar a solicitar que o assunto seja tratado no executivo municipal, mas considera também que o abandono de Filipe La Féria "é a demonstração do fracasso da solução de Rui Rio para o Rivoli".

Correia Fernandes, vereador do PS, vai também insistir para que a maioria PSD/CDS forneça as contas relativas à passagem de La Féria pelo Rivoli e espera que a situação agora criada permita "caminhar no sentido de que a sala municipal não se transforme em algo que está disponível para tudo e mais alguma coisa".

O fracasso do projecto da Todos ao Palco, diz Correia Fernandes, "pode ser uma nova oportunidade" para o Rivoli. "Ficou demonstrado que a sala não tem num projecto cultural, o que se lamenta em absoluto, tendo em conta que a câmara tem duas instituições dedicadas a esta área, a empresa Porto Lazer e a Fundação Ciência e Desenvolvimento [que gere o Teatro do Campo Alegre]. Mas o Rivoli tem que ter um projecto e tem que estar aberto a espectáculos que não são da esfera comercial, mesmo a espectáculos experimentais e de vanguarda que possam encontra ali um espaço de acolhimento com um mínimo de condições", disse o vereador.

"A câmara perdeu a oportunidade de ter uma política cultural. Agora fico à espera para ver. A única coisa decente que Rui Rio podia fazer era reactivar a Culturporto [entidade que geria o Rivoli antes de La Féria e cuja extinção foi considerada ilegal pelos tribunais], mas a câmara pode, pelo menos, fazer alguma coisa pela cultura, que não se limite ao entretenimento bacoco e à mera ocupação de tempos livres, e que forme públicos", considerou Ricardo Alves.

Confrontado com a informação prestada pela Câmara do Porto à agência Lusa, segundo a qual não há ainda nada previsto para a utilização do Rivoli, Correia Fernandes alertou para o perigo de a sala de espectáculos ficar vazia e sem utilização, como sucedeu com o Palácio de Cristal.

A programação da sala poderá passar, no imediato, pelo vereador da Cultura da Câmara de Gaia e director do Fantasporto, Mário Dorminsky. Enquanto presidente da cooperativa Cinema Novo, Dorminsky vai organizar, em Fevereiro, duas semanas de programação cultural no Rivoli, com concertos e espectáculos de humor. A informação foi ontem adiantada à agência Lusa pelo próprio vereador gaiense, o qual admitiu que gostaria de "ficar mais tempo" enquanto responsável pela programação da sala.

O programa Noites do Rivoli terá surgido, segundo Dorminsky, por proposta da Câmara do Porto. Decorrerá entre 3 e 20 de Fevereiro, será uma espécie de pré-Fantasporto e incluirá "dois concertos dos Moonspell" e actuações de Herman José. O PÚBLICO tentou confirmar esta informação junto da autarquia portuense, mas não obteve qualquer reacção até ao final da tarde de ontem.

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