Documentário será a história do Aleixo contada por quem acredita que havia outras saídas para o problema.
O documentário há-de começar pelo fim, ainda que, neste caso, ninguém saiba quando é que ele chegará a este bairro municipal do Porto. Também não há prazos para a conclusão do projecto. David Baltazar, o produtor que teve a ideia do filme, não traça deadlines. Prefere desenhar uma meta, suave: "Estará acabado quando sentirmos que as pessoas que têm uma relação afectiva com o Aleixo se revêem nele."
A narrativa de O Dia do Pó, em que a realizadora Isabel Dias Martins está a trabalhar há dois anos, vai arrancar com a demolição do bairro. Se será com a implosão da torre 5, em 2011, ou da torre 4, esta manhã, ou das torres 3 ou 2, ainda sem data marcada, não sabe. A realizadora não acredita é vir a assistir tão cedo à implosão da torre 1.
É neste edifício que o título deixa de significar apenas as poeiras e entulho a que os explosivos estão a reduzir os prédios, para sugerir também o pó que se trafica na torre 1 - e que cobre, como anátema, todo o bairro. A Câmara do Porto, que sempre apresentou o tráfico de droga como o argumento principal para demolir o Aleixo, vai entregar os terrenos a um fundo imobiliário, para ali construir habitação de luxo, com vista privilegiada para a foz do Douro. O fundo trataria de realojar a população em casas do centro histórico, a reabilitar para o efeito.
Isabel Dias Martins não acredita na solução em curso e promete evidenciar as contradições dos argumentos que a sustentam: mais de metade dos cerca de mil moradores iniciais foram realojados em bairros camarários. As tais casas do centro histórico só agora estão em obras e, segundo a própria câmara, só haverá 30 fogos prontos no final do Verão.
Por outro lado, sublinha a realizadora, nem as centenas de polícias presentes na implosão de 2011 intervieram para impedir que o "supermercado de droga" da torre 1 continuasse a funcionar nesse dia. "E alguns traficantes que moravam noutras torres já foram realojados", acrescenta. A câmara explicou anteontem que não ainda demoliu a torre 1, porque não quer realojar pessoas que, defende, já nem deveriam ocupar uma habitação municipal, por a usarem para actividades ilícitas.
Se não é por causa da droga, é por causa do valor dos terrenos que o Aleixo vai abaixo, conclui David Baltazar: "São os mais valiosos do Porto." Já se percebeu que O Dia do Pó não há-de ser neutro. "Também tenho coração e sangue cá dentro, envolvo-me", assume Isabel Dias Martins.
O documentário repartir-se-á por três espaços físicos e sociais: dentro das casas, com as mulheres como protagonistas; dentro bairro, com os homens e as crianças em destaque; e fora do bairro, com testemunhos de arquitectos e outras pessoas em posição de terem uma visão contextualizada do problema. Cada um destes três conjuntos de espaços/personagens terá luz e enquadramentos próprios, revela a realizadora.
Quer Isabel Dias Martins, quer David Baltazar sublinham este dado: o Aleixo foi uma experiência de habitação social bem-intencionada, mas correu mal. Há mais de 30 anos, foi uma forma de realojar gente que vivia em condições miseráveis na Sé e na Ribeira em habitações que a promoviam. "Uma catapulta social", ilustra o dono da Filmes Domino. A construção social em altura, hoje tida como um erro, era então um luxo e as vistas de rio e mar acomodavam melhor quem trabalhara sobretudo na pesca e na actividade portuária.
As condutas nos apartamentos para lançar o lixo doméstico para depósitos comuns - um anacronismo insalubre - eram algo que David Baltazar, de 47 anos, só conhecia dos prédios da próspera Avenida da Boavista, onde como "privilegiado" viveu até aos 17, muito antes de montar escritório junto ao Aleixo. Mas ninguém ensinou aquela população desfavorecida a conduzir o carro que lhe puseram nas mãos, ao instalá-la aqui. O fim do trabalho ligado ao rio, o boom da heroína dos anos 80, e a própria arquitectura e disposição do bairro ajudaram a transformá-lo num gueto. Até escola o bairro tinha, para onde não vinham crianças de fora, acrescenta Isabel Dias Martins.
Ainda assim, O Dia do Pó pretende deixar claro que a maior parte dos habitantes do Aleixo não é marginal. As vizinhas que olham umas pelas outras e deixam a porta do apartamento aberta, os pais que ralham com os filhos por não fazerem os deveres, as conversas nas idas ao pão são manifestações de vidas normais e de convivência antiga, de gente que foi realojada aqui e teve filhos que tiveram filhos aqui, exemplificam David e Isabel.
Se esta gente fosse reinstalada nos locais de origem prometidos - ou mesmo num novo bairro, no Aleixo -, se as relações sociais não fossem cortadas de forma violenta, o documentário produzido pelas Filmes Domino/Terratreme não existiria ou seria muito diferente. Assim, há-de mesmo fazer-se, garante Isabel Dias Martins. Nem que a candidatura aos apoios do Instituto do Cinema e Audiovisual dê em nada.

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