Formalizada cedência do Bom Sucesso

Câmara do Porto e Mercado Urbano assinaram contrato de cedência do direito de superfície. Empresa tem 90 dias para entregar o projecto para o mercado, que incluirá hotel e escritórios

aA Câmara do Porto e a empresa Mercado Urbano - Gestão Imobiliária, S.A. assinaram, ontem, o contrato de transferência do direito de superfície do Mercado do Bom Sucesso. O momento foi classificado pelo vereador Sampaio Pimentel, que conduziu o processo, como "particularmente feliz e importante para a câmara, uma vez que será um passo decisivo para a concretização de um compromisso que o executivo tinha para com a cidade". As negociações com os comerciantes já podem começar e têm de estar concluídas em quatro meses.

Começou a contar ontem o prazo de 120 dias para que a autarquia entregue à empresa subsidiária da Eusébios & Filhos, S.A. o mercado. Nesse mesmo prazo, a empresa deverá avaliar junto dos comerciantes quem quer ficar e quem prefere ser indemnizado e sair. No prazo de três meses, a Mercado Urbano terá que entregar no município o projecto urbanístico previsto para o Bom Sucesso, mas o conceito global já é conhecido e, apesar de Sampaio Pimentel admitir "uma ou outra alteração" em sede de projecto final, a função tripartida do espaço deverá manter-se, com uma redução considerável da área de mercado.

O Bom Sucesso manterá apenas 44 dos cerca de 140 pontos de venda, na zona central do piso térreo do edifício. Esta zona, dedicada a "um mercado tradicional de qualidade, de produtos regionais e de quinta", poderá ter um horário de funcionamento diferente do do resto da estrutura. No interior, vão nascer também até 23 lojas vocacionadas para "um segmento mais elevado de consumidores", oferecendo "um mercado tradicional de qualidade, moda mais exclusiva e complementar à existente na zona contígua, restauração e bares em esplanada". Os 16 espaços comerciais do exterior deverão manter-se.

No interior do mercado vão ainda ser construídas duas estruturas que albergarão, respectivamente, um hotel com 83 quartos e uma zona de escritórios/serviços. José Moura, da Eusébios, admitiu que a empresa vai recorrer a "vários parceiros" para levar o projecto avante. "Já fizemos vários contactos com diversos parceiros, na área financeira, na exploração e investimento de hotelaria, na gestão de um edifício de escritórios. Não somos experts nestas áreas. Nada obsta a que existam vários parceiros", disse.

Após a entrega do projecto, a câmara tem entre nove meses a um ano para emitir o alvará de construção. As obras terão de iniciar-se até 20 dias após a emissão desse alvará, devendo ficar concluídas em 18 meses.

O Bom Sucesso terá de encerrar 30 dias antes do início das obras, passando os comerciantes que lá permaneçam para um mercado provisório, cuja localização está ainda a ser estudada. Sampaio Pimentel estima que, a cumprirem-se os prazos, o Bom Sucesso esteja pronto "no último trimestre de 2013".

Ao mesmo tempo que o contrato era assinado, os comerciantes do Mercado do Bom Sucesso continuavam o seu dia de trabalho, com muitas dúvidas quanto ao seu futuro. "Eu ainda estou na pré-reforma. Se for para casa agora, adoeço", comentava a florista Maria Arménia Pinto. Tem 62 anos e passou os últimos 58 no mercado. "Concordo com a reabilitação e quero continuar a trabalhar num mercado tradicional, que foi o que nos prometeram", dizia.

Que o mercado necessita de reabilitação todos concordam, mas há comerciantes que criticam a forma como a Câmara do Porto conduziu este processo. Jaime Amorim, 63 anos, é talhante no Mercado do Bom Sucesso desde os 22 e planeia ficar, se o deixarem. O que não significa que goste do projecto de remodelação, muito pelo contrário: "É uma boa porcaria. Concordo com as obras, mas um hotel? Não faz sentido. Isto nasceu para ser um mercado. Fazer umas lojas, umas esplanadas, espaços de lazer é uma coisa, mas hotel para quê? Com tantos hotéis à nossa volta..." Jaime Amorim receia que a câmara pretenda acabar com o mercado tradicional. "Eles querem-nos a patinar, e vão conseguir. Ainda não nos explicaram as condições para ficar, mas se for como num shopping, só poderemos vender "embalados, e isso não é um talho nem é mercado tradicional."

Paula Moreira tem 39 anos e vende fruta no mercado desde que se lembra. Com dois filhos pequenos, deixar o mercado não é uma opção. Mas também está desconfiada. "Para mim, este projecto foi a maneira que a câmara encontrou de nos pôr todos daqui para fora." Tem pena que não se reconheça o valor do antigo e avisa: "Se o plano for fazer disto um shopping, ninguém vai querer ficar."

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