Desculpas de mau cobrador

Já toda a gente percebeu - inclusive os incansáveis movimentos que organizaram os protestos que terminaram esta semana - que a cobrança de portagens nas Scut é uma indesejável e inevitável factura; que a oposição fez o que lhe era pedido e que argumentou contra a sua introdução em três auto-estradas do Norte do país; e que o PS foi previsível: ficou ambivalente, entre o silêncio comprometido de uns e a contestação assumida de outros. Compreende-se. Os socialistas não estão bem com a sua consciência.

Só assim se poderá entender a proposta avançada pelos independentes socialistas na Câmara do Porto e logo secundada pelo líder da distrital, Renato Sampaio. A saber: a sede do Sistema de Identificação Electrónica dos Veículos, vulgo SIEV, deve estar localizada no Porto e não em Lisboa. É óbvio que é um absurdo, tão característico da organização administrativa do país, que uma empresa do Estado, seja ela qual for, se sedie em Lisboa, como prevêem os seus estatutos com toda a naturalidade, só pelo simples facto de ser estatal. E diga-se que a empresa até já tem órgãos sociais desde Julho do ano passado, e que até já pagou salários a um ex-assessor do secretário de Estado das Obras Públicas, o que só acentua o burlesco destas auto-estradas que passaram de gratuitas a portajadas devido aos problemas de tesouraria do Estado.

Mas reivindicar para o Porto a sede do organismo que vai gerir as receitas das portagens em três Scut, já a partir do próximo dia 1 de Julho, é de uma insignificância que nada consola. É um mal menor que serve para criar dois ou três postos de trabalho num escritório apertado, como explicaria o secretário de Estados dos Transportes, Correia da Fonseca, segundo o qual a sede da empresa é um assunto sem importância suficiente para ser discutido.

Em suma, o que esta reivindicação socialista revela é desculpa de mau cobrador. Tomem lá o dinheiro; dêem-nos um escritório. A influência do PS-Porto na governação do país, pelo menos nas questões mais elementares para a vida de quem aqui habita, é ilusória e praticamente nula. E assim continuará a ser.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues