Arquivo da Sé de Aveiro procura apoios para restaurar espólio

Há livros no Arquivo da Sé que permitem chegar à genealogia de muitas famílias de Aveiro, razão pela qual merecem ser preservados ADRIANO MIRANDA

Durante anos, o espólio da paróquia aveirense esteve um pouco esquecido, sujeito até a inundações. Nos últimos meses tem sido feito um esforço para inverter a situação.

Um dos "tesouros" mais valiosos, até por ser o documento mais antigo, é um pergaminho da Confraria de Nossa da Graça, do ano de 1506, mas há muitos mais documentos relevantes "escondidos" no Arquivo da Sé de Aveiro. São cerca de 350 unidades - livros e maços de documentos -, que incluem, entre outros, os arquivos da paróquia da Glória e da paróquia de S. Miguel - esta última foi a antecessora da actual paróquia e única matriz de Aveiro até 1570, cuja igreja foi demolida em 1835. Todo este espólio encontra-se "fragilizado" e carece de apoios para que possa ganhar a dignidade que merece. É que estão em causa fundos valiosos para o estudo da região e das suas instituições.

Hugo Calão, técnico de Inventário e Património ao serviço do Arquivo da Sé de Aveiro, destaca os arquivos paroquiais, em especial os livros do rol de confessados, que não foram abrangidos pela incorporação obrigatória nos arquivos regionais, mas também os das confrarias e irmandades de fiéis. Segundo explica este técnico, "os livros de rol de confessados são uma fonte informativa privilegiada para a história da família, com interesse para estudos migratórios e de genealogia, já que ali encontramos os nomes completos dos indivíduos membros da família, apresentados hierarquicamente por cabeça de casal, mulher, filhos, expostos e criados, com indicação de idades e profissões".

Os fundos das confrarias e irmandades também assumem, segundo Hugo Calão, uma especial relevância, uma vez que apresentam informação de receita e despesa, e designadamente de pagamentos feitos a artistas, que permitem identificar com precisão a origem, autor e época de obras de arte que enriqueceram os templos."É muito importante em termos de história da arte", sublinha.

Perante tamanha importância, o que poderá, então, ter levado a que estes documentos e livros chegassem a um estado frágil? "Estava mal acondicionado. Sofreu, inclusive, duas inundações, durante 15 anos", conta Hugo Calão. Agora, urge lutar contra o tempo, mas faltam verbas à paróquia, por si só, para salvaguardar e recuperar algumas das obras que ali se guardam.

De acordo com o técnico de Inventário e Património da paróquia, o orçamento para acudir aos exemplares considerados prioritários e com maior urgência de salvaguarda (um total de 49 livros) ronda os 70 mil euros. Mas para já, a prioridade é outra: é necessário proceder à organização, tratamento e disponibilização do arquivo. Para dar esse primeiro passo, foram fotografados todos os fundos e apresentadas candidaturas à Fundação Gulbenkian e à União dos Arquivos Ibero-Americanos (ADAI), com sede em Madrid, com vista a angariar verbas que possam financiar essa primeira missão.

Particulares doam livro

Neste momento, a paróquia ainda aguarda resposta a estas candidaturas. Só depois os responsáveis pela paróquia poderão avançar para o passo seguinte, condicionados, contudo, a esta altura, pelo pagamento da mais recente aquisição para a Sé de Aveiro, um órgão de tubos (ver caixa). A confirmar-se este sonho de recuperar e restaurar o espólio do Arquivo da Sé de Aveiro, será possível vir "pensar em torná-lo acessível ao público", estima o técnico, que coloca este objectivo como a prioridade final, garantida a salvaguarda dos documentos.

O arquivo acaba de ser enriquecido com uma doação de particulares, que foi recebida com muito agrado na paróquia. Trata-se de um livro do início do século XVIII, que foi encontrado numa quinta particular, na zona de Requeixo, em Aveiro. "É um livro do extinto Convento de São Domingos, instituição que esteve precisamente aqui onde é, actualmente, a Sé de Aveiro", revela Hugo Calão, ao mesmo tempo que evidencia que "só se conhecem três livros de entradas para a ordem dominicana no país".

Em paz com a história

Para além das várias dezenas de livros e documentos, o Arquivo da Sé de Aveiro dispõe ainda de algum espólio fotográfico, nomeadamente, "fotografias do período antes das obras de requalificação da sé", destaca ainda o técnico de inventário de património.

O responsável pela paróquia da Glória-Sé, padre Fausto Araújo de Oliveira, orgulha-se do trabalho que tem vindo a ser feito, nos últimos meses, no arquivo. "Gosto de ter a casa arrumada e o arrumar as coisas significa que estamos em paz com a história, que salvaguardamos a memória", destacou o pároco. Fausto Araújo de Oliveira reconhece que ainda há muito trabalho para fazer, notando também que "tudo o que se tem feito tem sido a expensas da paróquia", mas acredita num desfecho final positivo.

Novo órgão de tubos em Julho

O mais tardar em Julho, o novo órgão de tubos da sé já deverá começar a emitir as primeiras notas. Construído na Hungria, pelo mestre organeiro Áttila Budavari, o imponente instrumento começa já a ganhar forma numa lateral do altar principal da sé.

Este novo órgão, que custou cerca de 250 mil euros - montante para o qual estão ainda a ser recolhidos apoios e mecenas -, tem 31 registos (1883 tubos, de madeira e metal). Segundo referiu o responsável pela paróquia, padre Fausto Araújo de Oliveira, há ainda intenção de pôr o antigo órgão, de 1754, a tocar.

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