Entre ânforas e cerâmicas escondia-se parte de uma embarcação romana

Peça foi encontrada em Lisboa, num fundeadouro usado pelo menos entre os séculos I a.C. e V d.C.

A peça de madeira identificada como fazendo parte de uma embarcação romana tem 8,5m de comprimento, mas foi agora seccionada em cinco troços - só um será preservadoÂnforas e peças de cerâmica descobertas no local Enric Vives-Rubio

É um achado de extrema raridade aquele que os arqueólogos fizeram na Praça D. Luís I, em Lisboa: a madeira com cerca de 8,5 metros de comprimento que tinha sido encontrada entre meia centena de ânforas e algumas peças de cerâmica é parte de uma embarcação romana que terá navegado no Atlântico.

Esta peça de madeira foi descoberta durante a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, junto à Avenida 24 de Julho, no interior de uma área que os arqueólogos já tinham identificado como tendo sido um fundeadouro (um local de ancoragem de embarcações) pelo menos entre os séculos I a.C. e V d.C. Desde cedo, os técnicos perceberam que se tratava de uma peça náutica, mas só investigações subsequentes permitiram determinar que o vestígio em causa era parte de um navio e não de uma estrutura portuária, hipótese que tinha sido igualmente equacionada.

"Estamos na presença de uma peça inequivocamente naval, de uma embarcação romana", afirmou ao PÚBLICO o coordenador dos trabalhos, que estão a ser desenvolvidos pela empresa ERA-Arqueologia em colaboração com o Centro de História de Além-Mar, da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores. Alexandre Sarrazola explicou, durante uma visita às escavações, que esta seria "uma peça para fazer a ligação das tábuas do forro e destas à quilha", "num tipo de construção shell first [em que o barco começa a ser construído pelo casco]". Quanto à dimensão do navio, aquilo que se pode dizer por enquanto é que, a julgar pelo comprimento da madeira descoberta, teria "dimensões consideráveis".

"Este não é um achado isolado. Foi registado num contexto, de fundeadouro, que do ponto de vista histórico é exclusivamente romano", sublinha o arqueólogo. Esse facto contribui aliás para tornar esta descoberta única, já que num outro caso registado em 2002 no estuário do rio Arade, no Algarve, foi também encontrado um pedaço de uma embarcação romana (com cerca de 35 centímetros de comprimento) mas de forma isolada, fora de qualquer contexto arqueológico.

De 2002 a 2003 foram ainda descobertas, desta vez no rio Lima, em Viana do Castelo, duas pirogas monóxilas (esculpidas num único tronco). Os resultados da datação feita a amostras dessas embarcações permitiram concluir que seriam do século II a.C.

Cristóvão Fonseca, investigador do Centro de História de Além-Mar, explica que o rio Arade e o rio Lima são os únicos dois casos documentados em Portugal de descoberta de embarcações, ou parte delas, que se supõe serem da época romana. O arqueólogo destaca a importância do achado agora feito na Praça D. Luís I: "É a primeira madeira de navio encontrada em contexto que podemos dizer que é romana. No Mediterrâneo há barcos inteiros, mas no Atlântico este é um dado muito importante. Não se conhece mais nada com estas características na faixa atlântica."

"É um achado de extrema raridade, para não dizer único", afirma também Alexandre Sarrazola, acrescentando que estamos na presença de "um elemento fundamental no contributo para a narrativa da história de Lisboa no que concerne à sua vocação marítima milenar". "É um achado de grande importância", atesta a directora do Departamento dos Bens Culturais da Direcção-Geral do Património Cultural, Catarina Coelho, destacando que se trata de algo "único no nosso território".

Os trabalhos arqueológicos na Praça D. Luís I, que se prolongaram por quase dois anos e estão agora a terminar, permitiram revelar, além do fundeadouro romano e dos vestígios nele encontrados, uma grade de maré do século XVII (para reparação naval ou lançamento de embarcações) e restos de outras estruturas, como uma escadaria e um paredão do Forte de S. Paulo (século XVII), parte do cais da Casa da Moeda (século XVIII) e fornalhas da Fundição do Arsenal Real (século XIX).

Só um troço será preservado

Os técnicos da empresa ERA-Arqueologia tinham, segundo o arqueólogo Alexandre Sarrazola, recomendado que a madeira  encontrada na Praça D. Luís I fosse integralmente conservada, dada a sua "inequívoca importância patrimonial e científica". Mas a decisão da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), ontem transmitida ao PÚBLICO, foi outra: só um dos cinco troços em que foi seccionada a peça que pertenceu a uma embarcação romana será preservado.

A directora do Departamento dos Bens Culturais da DGPC explicou que essa decisão foi tomada atendendo ao "muito mau estado de conservação" da madeira, que esteve submersa e depois envolta em lama, e que foi atacada pelo teredo, um molusco subaquático. "Isto não implica que todo o registo da peça não esteja já feito", sublinha Catarina Coelho, acrescentando que foram recolhidas várias amostras da madeira, por exemplo para a realização de análises que permitam fazer a sua datação.

"A nossa expectativa é conseguirmos tratar dela o melhor possível para que no futuro tenha condições para ser exposta, com toda a informação produzida no âmbito da sua recolha", diz a dirigente da DGPC, adiantando que até lá a peça ficará armazenada nas instalações da Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática no Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, num tanque já preparado para o efeito.

Também o coordenador dos trabalhos arqueológicos na Praça D. Luís I defende a musealização deste achado. "Consideramos que esta peça, acompanhada da sua explicação, tem um interesse museográfico inegável", diz Alexandre Sarrazola.

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