Sesimbra depois de Conceição Silva

A arquitectura turística de qualidade nasceu em Sesimbra, nos anos 60, pela mão de Conceição Silva. Agora que se discute a sua eventual classificação, a Ordem dos Arquitectos decidiu organizar uma visita guiada ao hotel e aldeamentos que o arquitecto fez construir na vila. Luís Maio (texto) e Daniel Rocha (fotos) foram admirar a excelência dessas obras e as atrocidades que cresceram em volta

Começou com um alerta lançado pelo Observa, um grupo de cidadãos de Sesimbra. Em Outubro de 2008, organizaram uma série de manifestações destinadas a promover a herança local do arquitecto Conceição Silva (1922-1982). Da sua autoria são o Hotel do Mar, o Bloco do Moinho e o Bloco do Porto de Abrigo, três obras emblemáticas de Sesimbra e, mais em geral, da arquitectura turística de Portugal.

A campanha visava accionar mecanismos legais de defesa dos edifícios em causa, nomeadamente a sua classificação como património municipal por Sesimbra e como património nacional pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR). Nenhuma das pretensões veio entretanto a ser atendida, o que levou o arquitecto Rui Passos, principal dinamizador da acção, a declarar ameaçados esses ícones sesimbrenses. Ameaçados porque, na ausência de classificação, as obras em causa são susceptíveis de serem afectadas por novas intervenções urbanísticas. O que, como já vamos ver, está longe de ser uma hipótese remota.

A suspeita trouxe pelo menos dois benefícios. Chamou à atenção, por um lado, para a obra de Conceição Silva, considerado pelos especialistas como referência fundamental na cena cultural portuguesa da segunda metade do século XX - mas que tem andado bastante esquecido, ao ponto de não haver sequer uma página que lhe faça justiça na internet. Por outro lado encorajou a Ordem dos Arquitectos (Secção Regional Sul), a organizar uma visita guiada à sua obra sesimbrense, seguida de um debate com a participação de Augusto Pólvora, presidente da Câmara Municipal de Sesimbra e um dos principais visados pela referida campanha.

O passeio, que decorreu no passado dia 13 de Março, foi ultra concorrido, registando 60 inscrições - quase um recorde no ciclo de passeios organizados pela Ordem dos Arquitectos. Mas a prevista celebração resvalou para uma acesa e por vezes mesmo virulenta discussão sobre as consequências sórdidas do turismo e da especulação imobiliária que gravita na sua esfera. Valeu a pena, foi por vezes mesmo empolgante, ver arquitectos a desancar na má qualidade e no excesso de construção à beira-mar, na incompetência e na impunidade com que se devassam jóias naturais e mesmo obras monumentais construídas em solo português há menos de meio século. Os responsáveis da edilidade nunca terão ouvido tanta gente - credenciada e com argumentos consistentes - declarar que Sesimbra é feia e que nunca mais lá voltarão a passar férias.

Do Moinho ao Abrigo

Filas de pequenas caixas brancas, escalonadas em degraus a partir de um moinho tradicional, tudo empoleirado na ladeira a nascente, um pouco acima do centro histórico da vila. É assim o Bloco do Moinho, primeira etapa da visita, mas não certamente a primeira intervenção de Conceição Silva em Sesimbra. Há uma única monografia do arquitecto, datada da exposição que lhe dedicou a Sociedade Nacional de Belas Artes em 1987. Indica a data de 1965 como comum a este bloco e ao outro do Abrigo, o que resulta pouco provável - o do Moinho parece decididamente mais antigo -, mas pelo menos confirma que os dois são posteriores a 1963, ano de inauguração do Hotel do Mar.

O texto introdutório da monografia foi na altura assinado por Michel Toussaint, que se prestou a rever as notas e a guiar o passeio pela Sesimbra de Conceição Silva. À entrada do Bloco do Mar, Michel começou por vincar a novidade que este projecto constituiu em Portugal, destacando-se como uma das primeiras expressões nacionais de uma tipologia arquitectónica que então despontava um pouco por toda a Europa do Sul: o aldeamento turístico moderno, conjugado com certo ideal de comunidade e de rusticidade, que Conceição Silva primeiro experimentou em Sesimbra e depois desenvolveu na Balaia, Algarve.

Empreendimento de escala modesta e concepção relativamente simples, o Bloco do Mar integra cinco dezenas de apartamentos. Mas não sofreu alterações de fundo em quase meio século, encontrando-se hoje em notável estado de conservação, o que o torna perfeito para uma introdução a Conceição Silva. As portas que se abriram para a excursão matinal puderam ilustrar a inovação que na altura representou, nomeadamente nas salas comuns com cozinha integrada, sintomáticas de um modo de estar informal, próprio das férias, que viria a contaminar os hábitos de vida nos próprios centros urbanos.

Já o Bloco de Abrigo, situado a poente, no extremo oposto da vila, é um empreendimento com outra escala, que integra 120 apartamentos debruçados sobre o porto. E se o Bloco do Mar assentava na repetição de pequenas moradias individualizadas, aqui há já uma lógica de sobreposição de apartamentos em altura. Diferentes sob vários aspectos, os dois aldeamentos assinados por Conceição Silva em Sesimbra partilham de alguns traços essenciais, em particular do sistema de acesso, que em ambos os casos se faz por galerias. Alternativas aos acessos verticais (escadas, elevadores), as galerias foram pensadas como espaços de convívio, expediente pouco comum na habitação urbana da mesma época.

Tem tudo a ver com a chamada Revisão Crítica do Movimento Moderno, de que Conceição Silva foi embaixador em Portugal. Ou seja, estes são projectos que, sem porem em causa os princípios racionais da arquitectura moderna, fizeram questão em adaptá-los às condições locais. Nesse sentido constituem uma segura valorização da vila e é preciso dizer que o arquitecto não apenas deixou obra, mas também um projecto de crescimento turístico para Sesimbra.

Muito à frente do seu tempo, Conceição Silva propunha que a ocupação turística se desenvolvesse para poente, de modo a preservar a vila histórica e a relação com a sua extraordinária envolvente natural. Ou seja, ele previa e desejava que o turismo viesse alterar Sesimbra, mas que por isso mesmo deveria produzir uma arquitectura com princípios. É hoje bem evidente até que ponto ele tinha razão, mas também até que ponto as suas advertências caíram em saco roto.

O hotel visionário

Chegados ao Hotel do Mar, primeira obra de vulto de Conceição Silva e principal ícone de arquitectura de Sesimbra, fomos informados que a presente unidade hoteleira é substancialmente diferente daquela que ele inicialmente planeou. Quando foi inaugurado, em 1963, o hotel era um edifício esculpido na colina, discreto e singular, apenas rematado no topo com uma pérgula, de forma que mal se via da estrada. Um ano depois surgiu uma piscina a céu aberto, aos pés do prédio original, sobre a qual foi construído um segundo conjunto de quartos, também em socalcos, recuados em relação à marginal.

Mas houve ainda uma terceira fase de construção no Hotel do Mar, muito posterior (1989), já não da autoria de Conceição Silva, mas do seu antigo associado Maurício Vasconcelos (1925-97), que com ele colaborou no Aparthotel de Quarteira, em 1964, e no Hotel da Balaia, em 65. Esta ampliação é uma história muito diferente, sobretudo no que respeita à presença bem mais acentuada das novas construções na encosta, que de algum modo contraria o espírito de integração na paisagem que norteou o projecto inicial. Nada poderia tornar essa diferença mais evidente que o visionamento de ...E Era O Mar, exibido da parte da tarde da visita guiada, no Cineteatro João Mota, na baixa de Sesimbra.

A história do filme e da sua recuperação davam outro filme, resumido antes da projecção pelo seu autor João Fonseca e Costa. Pois em 1966, Conceição Silva encomendou-lhe um documentário publicitário sobre o Hotel do Mar, desses que na altura passavam nas salas antes da projecção dos filmes. Naquela que haveria de ser a sua estreia como realizador, Fonseca e Costa decidiu prestar justiça ao arquitecto numa sucessão de imagens sem palavras, antes acompanhadas pelas variações sinfónicas de César Frank. Foi (e ainda é) uma ousadia, na altura mal recebida pelo dono do hotel que pagou a "publicidade" sem legendas. O filme desapareceu de circulação e o próprio cineasta nunca mais lhe pôs os olhos em cima, até que a Cinemateca desencantou milagrosamente uma cópia, mesmo a tempo do passeio em honra da Sesimbra de Conceição Silva.

O que ...E Era O Mar mostra de forma heterodoxa, mas exemplar, é toda a beleza natural e cândido pitoresco da Sesimbra em que o arquitecto se inspirou e onde tão harmoniosamente inscreveu o seu Hotel do Mar. Subentendido: essa Sesimbra idílica não existe mais, tudo já não passa de uma fita de outros tempos. E, por este andar, nem sequer a integridade da obra de Conceição Silva está minimamente garantida, como se pode testemunhar logo no passeio da manhã. Em plena marginal, colado a nascente ao Hotel do Mar, está em construção aceleradíssima (como que para evitar a classificação) uma nova unidade hoteleira. Este edifício, disseram-no vários arquitectos em presença, está autenticamente a emparedar a obra de Conceição Silva e a diminuir a qualidade da estadia naquela unidade hoteleira.

Já se vê que o debate sequente à projecção do filme não poderia ser pacífico. Michel Toussaint começou por recordar que "quando o Hotel do Mar foi construído era um exemplo de excelência. Ficou na memória de toda a gente, mas não foi propriamente seguido. Sesimbra evoluiu entre o turismo desqualificado e a suburbanização da própria vila - os modelos do subúrbio lisboeta estenderam-se a Sesimbra e era isso que ele queria evitar".Razões para não classificar

A classificação do Hotel do Mar e do Bloco do Moinho como imóveis de interesse municipal foi primeiro sugerida pelos deputados do Bloco de Esquerda eleitos em Sesimbra. Daí resultou uma moção aprovada por unanimidade, em assembleia municipal de Novembro de 2007. No entanto, o executivo sesimbrense acabou por não viabilizar nenhuma das classificações, por razões que viriam a ser expostas no debate por Augusto Pólvora, presidente da câmara eleito pela CDU e ele próprio arquitecto.

No que respeita ao Hotel do Mar "tem havido uma grande resistência da parte da administração do hotel em relação à figura da classificação - o que eles me dizem é que não lhes passa pela cabeça fazerem alterações de fundo no hotel, mas admitem querer fazer transformações ao nível dos interiores, por exemplo das casas de banho nos quartos. Naturalmente, a câmara não é insensível a esta resistência. Enquanto arquitecto teria o maior gosto que o edifício fosse classificado, mas enquanto presidente da câmara tenho de ponderar uma série de coisas. Por outro lado tenho a certeza que enquanto eu for presidente não haverá alterações naquele edifício".

Quanto à nova unidade hoteleira em construção, que se diz estar a emparedar o Hotel do Mar, Augusto Pólvora fez notar que se trata de um projecto que esteve em hasta pública e que não surgiram vozes discordantes na altura. "Tinha o objectivo de, com esse edifício, fazer um empreendimento turístico, na perspectiva de criar mais postos de trabalho, mas também de criar uma solução para o estacionamento, uma vez que aquele edifício terá um parque de 300 lugares abertos ao público - e Sesimbra tem um claro problema de estacionamento".

Já em relação ao Bloco do Mar, o presidente da Câmara de Sesimbra considera que a classificação seria penalizadora do ponto de vista financeiro para os cofres da edilidade, além de injusta para os sesimbrenses. Isto porque, a verificar-se, os proprietários do condomínio em causa seriam dispensados de pagar o Imposto Municipal sobre Imóveis, para o que na maior parte são segundas habitações.

Há, em contrapartida, outra circunstância que não foi mencionada, mas parece tão ou mais decisiva do indeferimento: a classificação do Bloco do Mar viria complicar, ou mesmo inviabilizar, parte dos ambiciosos projectos de reordenamento previstos para a Avenida do Mar, eixo principal da vila de Sesimbra. Estes sim, a avançarem, correm o risco de asfixiar a visibilidade da obra de Conceição Silva.

Sesimbra é feia?

Mais vozes surgiram a defender a filosofia de construir para criar postos de trabalho e estacionamento e, de modo geral, para reforçar a política do actual executivo. Mas o que mais surpreendeu no debate foi a quantidade e qualidade das intervenções discordantes, na maior parte assumidas por arquitectos sem emblema partidário. A começar pela própria mesa, onde Susana Lobo, especialista em arquitectura turística, não se conseguiu conter mais e interrompeu Augusto Pólvora para o contrariar: "Fala tanto da preservação do Hotel do Mar, quando neste momento estão a construir ao lado esse edifício que rebenta completamente a escala da vila (...) Sesimbra até há 15 anos atrás mantinha algum do seu carácter e qualidade urbana que neste momento não tem - e eu deixei de passar férias em Sesimbra por causa disso. Acho incrível o senhor estar a ter esse discurso quando foi sob a sua direcção que se aprovou aquele projecto, que destrói a paisagem, essa paisagem de que o Hotel do Mar justamente participa".

Pouco demorou, na verdade, para que o debate evoluísse do estado de conservação da obra de Conceição Silva para o da própria mancha urbana de Sesimbra. Retemos, como uma espécie de síntese crítica, a declaração de princípios da arquitecta Maria Manuel de Almeida: "Claro que estou muito preocupada com o Hotel do Mar - aliás, não tenciono ir lá mais. Mas estou mais preocupada com Sesimbra. Cada vez que venho aqui tenho um desgosto. Porque, cada vez que venho, Sesimbra está mais feia, mais degradada, mais descaracterizada, mais caótica (...) A vila foi destruída não sei em nome de quê - acho que é tanto incompetência dos profissionais que assinaram os projectos que aqui se construíram, como da autarquia que deixou fazer, como ainda da população que elegeu estes autarcas e permitiu que isso acontecesse. A culpa é de todos e agora é já um bocado tarde para voltar atrás. Já não me lembro de ninguém que venha fazer turismo em Sesimbra, a não ser que venha ao engano (...) A mim [Sesimbra] parece-me o Camboja". Um abaixo-assinado a favor da classificação das obras de Conceição Silva circula na internet com o número 3777.

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