"As lesões de Nélson e Naide devem-se à falta de condições em Portugal"

Depois de ter participado em 12 Jogos Olímpicos entre 1948 e 2000 e a uma semana do início dos Jogos de Londres 2012, Moniz Pereira é, aos 92 anos, um espectador amargurado com o atletismo. Mas não com a vida

Foi o chumbo a Álgebra Superior e a Geometria Descritiva que o impediu de entrar para a Escola do Exército. Pôde dedicar-se ao atletismo. "Foi estudar para palhaço", dizia-lhe o pai, e ser treinador no Sporting. Foi o responsável pela profissionalização da modalidade, forjou campeões como Carlos Lopes, Fernando Mamede, Francis Obikwelu ou Naide Gomes. É o "pai" da primeira medalha de ouro portuguesa em Jogos Olímpicos. É assim que, aos 92 anos, Moniz Pereira olha para trás, para o passado. Para o futuro, Londres 2012, deixa o recado: "Podia haver mais medalhas se houvesse condições, as lesões de Naide e de Évora são fruto da falta de uma pista coberta."

O "Sr. Atletismo" participou em 12 Jogos Olímpicos, em mais de 50 anos de olimpíadas. Recebe-nos na sua casa, em Alvalade, Lisboa, um canto cheio de memórias. O escritório tem um armário que corre ao longo da parede, com gavetas, aí está a sua vida em fascículos - de Londres (1948) a Londres (2012). A outra parte, doou-a ao Museu do Desporto, recentemente inaugurado, com uma sala com o seu nome. A entrevista terminou como terminam todas, ao piano.

Ainda se considera "maluco", quando nos anos 70 disse que o seu sonho era ter um atleta campeão olímpico?

Foi o que me chamaram. Quando acabei o curso no INEF [Instituto Nacional de Educação Física], fui para o Sporting, em 1945. E aí perguntaram-me qual era o meu objectivo e eu disse que gostaria muito de ter um atleta treinado por mim a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos... Disseram-me que era maluco. "Não temos pessoas para poderem ser campeãs do mundo", responderam, mas quem sabe isso sou eu. Ainda guardo essa irreverência, agora fora do atletismo. Não posso ir treinar para a chuva senão morro.

Demorou 39 anos até provar que tinha razão...

Consegui aquilo que toda a gente disse que era impossível. Claro que quando o Carlos Lopes ganhou nos Jogos Los Angeles, em 1984, chorei que nem uma Madalena. Foi um momento muito especial para mim ao vê-lo cortar [a meta]. E depois durante o hino também, foi difícil impedir as lágrimas. Eu tive sorte, é verdade, mas a sorte dá muito trabalho. Basta ser uma palavra feminina para não vir ter connosco. É preciso procurar por ela.

Em Montréal, oitos anos antes, em 1976, Carlos Lopes esteve perto. Ficou-se pela prata nos 10 mil metros. Sentiu alguma frustração?

Que nada! A nossa participação foi um sucesso. Para além de trazermos uma medalha, ninguém foi eliminado à primeira. Ninguém esperava tão bons resultados.

Ainda está convencido que o finlandês que ganhou ao Lopes estava dopado?

Estou absolutamente convencido disso. O Lars Viren estava dopado. E no final foi o Carlos Lopes a ir ao controlo, eram as regras na altura. Ainda tentei falar com a organização, deram-me razão mas disseram-me que era por sorteio e desisti. Foi a última vez que assim foi. Duas semanas depois fui com o Carlos Lopes ao meeting na Escócia e ele venceu o Lars Viren numa prova de duas milhas. O Lopes foi quarto e o finlandês oitavo, a 60 metros de distância.

E o Mamede, é a sua grande desilusão enquanto treinador?

Foi uma pena, porque foi um atleta único, nunca vi ninguém assim. Mas tinha um grave problema de ordem psicológica. Durante mais de dois anos ganhou os meetings todos em que participou, mas chegava às grandes provas, Mundiais e Jogos Olímpicos, falhava. Começava a queixar-se com dores e a dizer que não era capaz... Estava mais bem preparado que o Lopes, mas o dia chegava e fraquejava. Ao fim da primeira volta já era último. No final, perguntaram-me se ele tinha acabado como atleta e eu disse para esperarem pelo próximo meeting da Suíça. Chegou lá e ganhou. Era cabeça.

Foi radical na maneira de abordar o desporto, principalmente o atletismo, em Portugal. Dizia que os atletas portugueses tinham tanto potencial como os outros, só não tinham as mesmas condições e horas de trabalho.

O Governo português pediu um plano de preparação olímpica nos anos 70. O Melo de Carvalho tinha sido meu aluno e aceitou as minhas condições. Fui muito claro e disse-lhe que precisava de mais horas de treino, porque os nossos atletas não podiam treinar quando saíam do trabalho quando os outros treinavam a tempo inteiro. Tínhamos de treinar de manhã à noite. Os atletas, em vez de entrarem às 9h para o trabalho, entravam às 11h e essas duas horas eram pagas pelo Estado. Foi uma grande revolução.

Na altura foi criticado, chamaram-lhe despesista, acusaram-no de viver às custas do dinheiro do povo.

É verdade. Houve um jornal que escreveu em título "Moniz Pereira está no Algarve a gastar o dinheiro do povo". Liguei para o jornal e pedi para falar com o jornalista. Desculpou-se quando lhe perguntei se o Carlos Lopes era algum duque ou o Fernando Mamede um conde. Não disse, mas fez pior, escreveu. Depois da prata do Lopes em Montréal estava à espera dele no aeroporto, mas ele já tinha morrido...

Hoje os atletas conseguem viver só do atletismo?

Não... É muito difícil. Só para alguns e muito poucos. Também não têm condições. Não temos mais medalhas por causa disso. Estas lesões da Naide [Gomes] e do Nélson [Évora] são fruto disso. Queremos treinar no Inverno e não temos uma pista coberta. Claro que há lesões.

Também se queixa do seu clube, o Sporting...

Claro que me queixo. O atletismo deu mais títulos e nome ao clube do que o futebol e, no entanto, só pensam no futebol. Quando foi a construção do novo estádio prometeram uma pista, ia acompanhando as obras e não via nada. Até que percebi ­- um estádio novo sem pista. Temos de andar a treinar em vários sítios, nem pavilhão há... É difícil manter dezenas de modalidades sem infra-estruturas. Além de que tem um orçamento maior para o futsal do que para o atletismo. Onde já se viu jogar futebol fechado numa casa!

Não foi só a profissionalização do atletismo, também impôs um novo ritmo de treino aos atletas, pouco usual para altura.

Eu consegui realmente as tais coisas impossíveis e estou bastante satisfeito. Conheci de perto Zatopek [Emil Zatopek, o checo campeão olímpico dos 10 mil, em 1948, e dos 5 mil, 10 mil e maratona, em 1952], estive com ele em Londres e em Helsínquia e depois ao longo dos anos [morreu em 2000]. E o treino dele era à chuva, ao sol, manhã, tarde ou à noite, quando desse. Se uma pessoa for para o treino fazer aquilo porque é obrigado não dá resultado nenhum. Normalmente os treinadores fazem umas leis muito rígidas que depois quebram. O treino era às 9h. Às 9h03 um deles entrava e dizia-lhe que com aqueles três minutos já tínhamos dado uma volta à pista. O método é muito importante, por isso os ardinas, ali ao Bairro Alto, quando criaram um clube, chegaram a ganhar corridas ao Sporting e ao Benfica, devido ao seu "treino" matutino e vespertino [risos].

Deixou o atletismo, agora é espectador. Vai ver estes Jogos?

Vou a todos os campeonatos nacionais e aponto os resultados [aponta para uma série de cadernos nas prateleiras, com todos os resultados escritos à mão desde 1942, alguns têm o seu nome na prova de salto em comprimento]. Vou seguir com atenção os portugueses.

Agora é mais a música [fez toda a entrevista sentado ao piano]?

Tocava para os meus atletas em estágio, para os descontrair. Se estou aqui [no escritório] e oiço uma música na rádio [estava sintonizado na Rádio Amália] venho [para o piano] e consigo tocar. A minha mulher diz que eu adivinho as notas. Comecei a escrever músicas, às vezes a tocar e muito raramente a cantar. Fiz 137 músicas.

Diz que não é velho, é antigo.

O meu pai fez-me sócio do Sporting, sou o sócio número dois. Sou sócio antes do Gago Coutinho e o Sacadura Cabral terem atravessado o Atlântico. Entrei em 1922. Se isto não é antigo é o quê? [Despede-se com um sorriso largo e abre o piano].

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