Novas metas para a Matemática são desactualizadas, dizem investigadores

Será que as novas metas se pretendem afirmar como um novo programa, pergunta a SPIEM Foto: Pedro Cunha

A Sociedade Portuguesa de Investigação em Educação Matemática (SPIEM) estranha a proposta de novas metas curriculares para o ensino básico quando existem metas de aprendizagem “actuais”, em fase de experimentação e cujos resultados não foram ainda avaliados. Os investigadores acusam mesmo o novo documento de estar desactualizado.

“As metas curriculares propostas constituem-se como um corpo de indicações não articuladas nem fundamentadas, desactualizadas e formuladas com linguagem nem sempre adequada, clara e/ou rigorosa”, escreve a SPIEM num comunicado.

E os investigadores dão alguns exemplos: as novas metas reduzem a Matemática a “aspectos mais técnicos” como a resolução de problemas ou a teoria de conjuntos no 1.º ciclo. Neste último caso, a “sua pertinência [tem sido] contestada pelos resultados recentes da investigação”. As metas deixam de fora “conteúdos fundamentais estruturantes da competência matemática (por exemplo, pensamento algébrico no 1.º ciclo, processo de investigação estatística, etc.)”.

A SPIEM questiona ainda porque se chama este documento “metas curriculares” quando o anterior se intitulava “metas de aprendizagem”. “Será que se pretende afirmar como um novo programa?”, pergunta. É que, “ao contrário do que afirma, [o texto] não privilegia os elementos essenciais que constam do programa em vigor, condição essencial para a existência de metas”, lamenta.

“Países com níveis elevados de sucesso em Matemática têm reconhecido que um investimento continuado e consistente no desenvolvimento curricular é um factor chave para esse sucesso”. Não é esse o caminho que o Ministério da Educação e Ciência está a trilhar quando propõe novas metas, existindo outras tão recentes.

A SPIEM teme que estas alterações venham a dificultar a evolução que os estudantes portugueses têm vindo a revelar em estudos internacionais como o PISA.

Depois dos autores das metas de aprendizagem e dos programas actualmente em vigor terem vindo a público contestar o documento, é a vez da SPIEM.

Miguel Abreu, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), tem uma opinião diferente. Considera que as metas curriculares propostas pelo ministério “contribuirão decisivamente para uma melhoria sustentada” das aprendizagens, disse ao PÚBLICO. Em resposta às críticas feitas pelos autores do programa de Matemática em vigor no ensino básico, contrapõe que este “é tão vago que é difícil dizer o que lá está verdadeiramente”. “É um documento pouco concreto e pouco objectivo”, acrescentou.

A SPM está a elaborar um parecer sobre as metas propostas para matemática. O documento está em discussão pública até dia 23.

Notícia actualizada às 14h55, foram acrescentadas declarações de Miguel Abreu.

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