"Erro informático" pôs livro para adultos de Alice Vieira em lista para alunos de sete anos

A escritora manifestou a sua indignação no Facebook Enric Vives-Rubio

O comissário do Plano Nacional de Leitura (PNL), Fernando Pinto do Amaral, disse esta terça-feira ao PÚBLICO que a inclusão de um livro de poesia para adultos, de Alice Vieira, na lista de obras aconselhadas a crianças do segundo ano do ensino básico “resultou de um erro informático”, que diz lamentar “muito” e que “já foi corrigido”.

A escritora Alice Vieira reagiu às explicações do comissário do PNL dizendo que lhe “custa um bocadinho a acreditar” que a inclusão de um livro seu de poesia para adultos numa lista de obras recomendadas para crianças de sete anos “resulte de um erro informático” e pede “mais rigor” por parte da comissão.

“Do ponto de vista pessoal não quero mais nada – se o comissário já disse que o livro seria retirado da lista está tudo bem. Mas nessa história de ser um erro informático ou um engano no momento de inserção na lista custa-me um bocadinho a acreditar. Afinal, também escrevo livros para crianças e o título – O Que Dói às Aves – pode ter dado origem à confusão de quem o aconselhou sem o abrir. Lá deve ter achado que falava de passarinhos”, ironizou Alice Vieira, em declarações ao PÚBLICO.

A polémica foi lançada na madrugada desta terça-feira pela escritora, que na sua página do Facebook escreveu que gostaria de saber “quem são os energúmenos que escolhem os livros para o Plano Nacional de Leitura”. Mais tarde, em declarações à TSF, Alice Vieira voltou a comentar o facto de a obra O Que Dói às Aves ser aconselhada a “meninos de sete anos”, manifestando o seu espanto por “no PNL terem escolhido um livro sem o abrir”.

Depois de saber que já tinha sido retirado da lista, a escritora disse esperar que “o incidente tenha servido para que haja mais rigor por parte da comissão do PNL”: “Este é um erro crasso, mas poderá haver outros”, alertou.

O livro foi retirado apenas esta terça-feira da lista que está na Internet. Isto, apesar de o comissário do PNL admitir que "tem uma vaga ideia, agora, de que o erro já havia sido notificado há tempos e de que tinha sido imediatamente corrigido".

Em declarações ao PÚBLICO, Pinto do Amaral considerou que "este não é um caso que justifique a abertura de inquérito para apuramento de responsabilidades" e disse-se convencido de que “o engano” não terá tido consequências. "Qualquer pai ou professor que pegasse no livro se aperceberia de imediato que havia um engano”, justificou.

Alice Vieira diz que “é mentira”. “Vou muitas vezes às escolas e já me deparei com professoras e professores que põem meninos do 5.º ano a ler poemas que escrevo para adultos, deste e outros livros. Fico furiosa”, afirmou a escritora.

Obra para alunos das Novas Oportunidades

Por se encontrar fora do país, em trabalho, Fernando Pinto do Amaral disse não poder pronunciar-se “sobre os termos em que Alice Vieira comentou” a situação, mas que compreendia a sua estranheza. “O que não entendo é que se faça uma tempestade à volta disto – trata-se de uma polémica desnecessária, na medida em que o erro já foi corrigido”, insistiu.

Fernando Pinto do Amaral afirmou não poder "garantir que não haja outros enganos" e agradeceu a quem os detecte “que os aponte, para que possam ser igualmente corrigidos".

Em resposta a questões colocadas pelo PÚBLICO, o Ministério da Educação e Ciência, através do gabinete de imprensa, informa que "a obra tinha sido seleccionada para integrar a lista de sugestões de leitura de nível de dificuldade III (o mais elevado) para alunos dos Centros Novas Oportunidades". "No entanto, por lapso, foi incluído nas obras recomendadas para alunos do 2.º ano de escolaridade", acrescenta, informando que ele "será ainda hoje introduzido na lista correcta".

Os Centros Novas Oportunidades destinam-se a adultos e deixarão de existir no fim de Dezembro. Segundo o comissário, as listas foram actualizadas pela última vez "em Junho ou Julho", o que não significa que o "erro" tenha sido cometido nessa altura.

Notícia actualizada às14h13. Acrescentada reacção da escritora

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