Opinião

O murchar das palmeiras

Controlar e assegurar a sanidade dos materiais de propagação e monitorizar e erradicar as doenças não é possível sem recursos técnicos adequados.

Nos últimos tempos, em especial quem vive nas cidades tem sido surpreendido com a mortalidade de muitas palmeiras, que subitamente desaparecem das praças e das ruas da cidade, ou dos jardins de algum vizinho.

Alguns terão mesmo respondido com mágoa a um mandado irrefutável, sendo obrigados a abater palmeiras agonizantes que ornamentavam há muitos anos os seus jardins.

De uma forma ou de outra, percebemos que há um problema grave com as palmeiras, e a própria imprensa tem feito divulgação das ocorrências e da doença que as afecta. Neste caso, o flagelo fica a dever-se à voracidade de um insecto não originário da Europa (Rhynchophorus ferrugineus), que ataca um vasto leque de palmeiras, as quais tipicamente usamos para ornamentar as avenidas e jardins de muitas cidades do país.

Este insecto já está presente em todos os países mediterrânicos e ameaça condenar a esmagadora maioria das palmeiras nesta região. A gravidade e o potencial de expansão desta doença determina que as palmeiras importadas de países terceiros afectados devem ficar em quarentena, para que as autoridades possam actuar, detectando eventuais sinais precoces da doença.

Este é um procedimento normal na prevenção da disseminação de doenças e está naturalmente previsto para as plantas. Todavia, controlar e assegurar a sanidade dos materiais de propagação e monitorizar e erradicar as doenças não é possível sem recursos técnicos adequados.

Sendo a eficácia da praga quase garantida, e tendo em conta a escassez de meios de que dispomos, pode admitir-se que se trata de uma situação de algum modo fora de controle, pois está muito dependente do conhecimento e  vigilância das pessoas e da pronta actuação das autoridades com responsabilidade nestas áreas.

Embora de natureza distinta, destaco uma outra praga que se disseminou recentemente no país, com grave impacto económico, e que a maioria dos portugueses acompanhou: a do nemátode-da-madeira-do-pinheiro ou murchidão-dos-pinheiros. Esta última deve-se à actuação da espécie Bursaphelenchus xylophilus, levando à morte do pinheiro num intervalo de poucas semanas ou meses. Os sintomas traduzem-se no rápido amarelecimento das agulhas, até atingirem uma cor vermelho-acastanhada, bem como uma súbita redução da produção de resina. A propagação do nemátode e a infecção de novas árvores depende de um insecto-vector.

Recordo estas duas situações de calamidade associadas à mortalidade de espécies vegetais, sendo uma espécie de interesse ornamental e uma espécie florestal com forte impacto económico, mas podia citar muitas outras, em particular as doenças que nunca deixam de ameaçar sectores vitais da nossa economia, como a fruticultura nacional ou mesmo o importante sector do vinho.

Ao fazê-lo, tenho dois propósitos: por um lado, manifestar a preocupação que tenho com a perda de recursos e competências do Estado para monitorizar e resolver situações fitossanitárias que são cada vez mais complexas, entre outras coisas, porque as causas também o são, e, por outro, chamar a atenção para a necessidade de pensar os ecossistemas e as espécies seleccionadas em meio urbano, não apenas pela sua expressão estética ou por conveniência de momento, mas também na perspectiva de se evitarem espécies mais susceptíveis às pragas, o que acontecerá mais facilmente quando a escolha se sustenta numa importação pouco cuidadosa de espécies exóticas, tantas vezes desadequadas aos espaços que as acolhem.
 
 

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