Lince ibérico, o mais ameaçado dos felinos, fotografado em Milfontes

Avistamento do animal, proveniente de Espanha, é considerado como um sinal "muito positivo".

Um línce-ibérico (Lynx pardinus), uma espécie em sério risco de extinção, foi fotografado no domingo passado numa zona de caça associativa em Vila Nova de Milfontes, a mais de 250 quilómetros do local onde tinha sido avistado pela última vez. Chama-se Hongo, nasceu em Espanha mas está em Portugal.

Já tinha sido avistado uma primeira vez, a 8 de Maio. Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), nesse dia foram capturadas imagens deste lince-ibérico durante a noite, por uma máquina fotográfica activada por movimento, instalada num cevadouro para javalis. O passo seguinte foi montar uma estratégia para monitorizar o local e perceber de que animal se tratava.

Desde então, o terreno foi monitorizado e foram montadas novas câmaras, com o apoio da equipa espanhola  da Junta de Andaluzia, que coordena o projecto de conservação LIFE Iberlince, e utilizando equipamento da Iberlinx, a plataforma portuguesa de conservação do lince-ibérico.

No domingo passado, 26 de Maio, o animal foi novamente fotografado mas desta vez em pleno dia, perto das 10h da manhã. A imagem mostra o padrão da pelagem que, nesta espécie, é como uma impressão digital. O lince é Hongo, um macho nascido em Aznalcázar, perto de Sevilha (Espanha) em 2011. Faz parte da população de linces do Parque Nacional de Doñana, no Sul de Espanha, onde tinha sido avistado pela última vez a 16 de Outubro de 2012.

Apesar de, à nascença, lhe ter sido colocado um colar emissor VHF, este já não está a funcionar, provavelmente por falta de pilha. "Não conseguimos saber o caminho que ele fez até Milfontes, já foi uma sorte termos uma fotografia diurna", diz Lurdes Carvalho, coordenadora nacional do Plano de Acção para a Conservação do Lince Ibérico em Portugal. A imagem mostra que Hongo "aparenta boa condição física" e o ICNF acredita que ele terá encontrado naquela zona condições para se manter.

"A zona do Cercal do Alentejo [próxima de Milfontes] é uma área histórica para o lince, temos várias referências da presença do lince na serra", esclarece. A principal fonte de alimento da espécie é o coelho-bravo, que existe com fartura naquela zona.

Primeiro avistamento em três anos
Não se via um lince em terreno português desde 2010, altura em que outro exemplar, Caribú, libertado em Doñana, se deslocou até à zona de Moura-Barrancos, mais junto à fronteira com a Extremadura espanhola. Esta é a principal zona de Portugal seleccionada para a reintrodução da espécie.

Com Caribú, a experiência foi diferente - e teve um final trágico. O animal foi avistado em Janeiro, passou três dias naquela região, e foi depois capturado, para substituição do emissor. Depois de ter sido libertado novamente em Doñana, regressou a Moura-Barrancos em Abril. "Conseguimos ver que percorreu uma média de sete a 20 quilómetros por noite", recorda Lurdes Carvalho. Porém, o animal acabou por ser encontrado morto em Setembro desse ano, em Doñana.

Agora, o avistamento de Hongo é um sinal "muito positivo", sublinha Lurdes Carvalho. "Significa que a matriz da paisagem se mantém e que eles encontram alimento".

O lince-ibérico é a espécie de felino mais ameaçada do mundo, classificada como criticamente em perigo de extinção na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Estima-se que existam hoje menos de 150 linces-ibéricos, uma espécie que só existe na Península Ibérica. 

Em Portugal estão em curso vários projectos com vista à conservação da espécie. Visam, por um lado, a recuperação do habitat natural do lince e reintrodução dos animais que estão na base da sua alimentação, sobretudo o coelho-bravo. É o caso do projecto de Moura-Barrancos.

Por outro lado, está a fazer-se a conservação ex-situ, no Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro para o Lince-Ibérico, na Herdade das Santinhas, em Silves. Neste centro, inaugurado em Maio de 2009, nasceram este ano 17 crias saudáveis que, juntamente com as outras 17 que sobreviveram na época passada, estão a ser preparadas para a libertação na natureza.

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