Opinião

Deixa arder!

Pretender retirar o fogo dos nossos sistemas naturais e produtivos está muito para lá das nossas capacidades

Começo uma série de artigos sobre o fogo e a paisagem, de que este é o primeiro. Há muitas opções que podemos tomar para a gestão do fogo, mas nenhuma das realizáveis inclui a violação das regras básicas que gerem os processos que lhes estão na origem.

As razões pelas quais Portugal é campeão de fogos são as mesmas pelas quais é o maior produtor de cortiça do mundo (e de pinhão). As condições de solo e clima que temos, que favorecem o sobreiro, são as mesmas que favorecem a existência de fogos.

E as mesmas razões que impedem a Espanha (e os outros países do mundo) de nos ultrapassarem como produtores de cortiça impedem-nos de ter um desempenho semelhante ao desses países na gestão do fogo.

Estas condições sempre existiram, mas o pastoreio intensivo, a roça do mato para o estrume e o uso de lenha para cozinha e aquecimento, processos generalizados até ao início dos anos sessenta do século XX, implicavam um regime de fogos muito frequentes mas muito pouco intensos. O desaparecimento ou redução destes três processos de gestão dos matos faz com que os combustíveis se acumulem.

A forma de lidar com este problema depende em primeiro lugar dos objectivos que se estabeleçam. Trabalho em dois projectos que têm duas abordagens totalmente opostas em relação ao fogo: a Associação Transumância e Natureza, de que sou neste momento director-geral (fica feita a declaração de interesses), tem uma postura de não gestão alinhada com o projecto Rewilding Europe, defendendo a supressão do fogo; a Associação Aguiar Floresta, pelo contrário, tem uma postura de intensificação da gestão para obter melhores resultados na gestão do fogo.

Os dois projectos estão essencialmente certos na sua abordagem ao fogo, visando objectivos diferentes. No primeiro caso pretende-se que os processos naturais sejam dominantes em paisagens que perderam competitividade, criando as bases para uma economia da biodiversidade assente na diferenciação. No segundo caso pretende-se que o fogo não constitua um problema irresolúvel para a produção florestal diversificada.

Um terceiro modelo de gestão do problema é função dos objectivos específicos de produção de rolaria de eucalipto para abastecimento da indústria (também trabalho para uma das celuloses, marginalmente). Os eucaliptais intensivos geridos pelas celuloses, onde são gastos cerca de quatro milhões de euros anuais em silvicultura preventiva, são ilhas de baixa probabilidade de fogo numa paisagem de elevada probabilidade de fogo.

Procurar transpor o modelo de silvicultura intensiva do eucalipto para todo o território não só teria consequências negativas brutais do ponto de vista da biodiversidade e outras componentes ambientais, como custaria seguramente muito mais que os cerca de 120 milhões de euros anuais que se obtêm partindo do princípio de que os custos dessa silvicultura preventiva seriam uniformes, e eram aplicados, em todo o território.

Fixemos pois o ponto de partida do artigo seguinte da série: gerir o fogo pressupõe que se saiba exactamente o que se pretende obter do território.

Em qualquer caso pretender retirar o fogo dos nossos sistemas naturais e produtivos está muito para lá das nossas capacidades. É como pretender decidir quando chove ou faz sol em vez de comprar um chapéu e um guarda-chuva.

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