Opinião

Barreiro, Boticas, biodiversidade

A notícia de criação de uma área protegida no concelho do Barreiro surpreende a maioria das pessoas. Para muitos, o Barreiro é um concelho industrial decadente a que só vai quem tem alguma coisa específica para lá fazer.

O jornal Rostos, do Barreiro, desenvolve uma iniciativa, com os restantes jornais do concelho, para escolher o rosto do ano. O de 2012 – Nuno Banza – foi designado pelo seu trabalho na criação da Reserva Natural Local do Sapal do Rio Coina e Mata Nacional da Machada.

Trabalhei profissionalmente na criação desta Reserva Natural – fica feita a declaração de interesses – e fui chamando a atenção para o potencial da criação da área protegida para a imagem do concelho.

A notícia de criação de uma área protegida no concelho do Barreiro surpreende a maioria das pessoas. Para muitos, o Barreiro é um concelho industrial decadente a que só vai quem tem alguma coisa específica para lá fazer. Muita gente desconhece o papel fundamental da ribeira das naus do Barreiro nas descobertas, a sua importância logística estratégica e até os elementos manuelinos da igreja de Palhais.

O que conhecem do Barreiro é o gigante industrial construído no ponto de articulação do transporte marítimo e ferroviário, para levar fertilidade a um Alentejo à míngua de matéria orgânica.

A baixa produtividade primária do Alentejo não aguenta o sistema de pastoreio de percurso usado nas serras do Norte e Centro que permite a acumulação de estrume. Áreas agrícolas relativamente pequenas garantem assim elevadas produções, à custa do regadio e da estrumação.

O caminho-de-ferro e a CUF responderam ao problema da baixa fertilidade do Alentejo, e o Barreiro, o centro nevrálgico deste processo, cresce como poucas localidades em Portugal durante o século XX, obscurecendo o resto do seu território, onde se inclui a Mata da Machada e o sapal do Coina.

A criação da área protegida é um elemento novo, que relembra que o Barreiro é muito mais do que um centro industrial decadente e que se tem reinventado de há anos para cá. Note-se como todos já ouvimos falar do Gerês, de Montezinho, do Alvão ou do Marão, mas temos mais dificuldade em saber onde é a Padrela, a Cabreira ou mesmo a serra do Barroso.

Tal como acontece com o Barreiro, aparentemente, só quem tem alguma coisa específica para lá fazer é que vai a Boticas ou Ribeira de Pena. E no entanto as Alturas do Barroso têm paisagens de cortar a respiração, tão interessantes como muitas no Gerês. O que as distingue é essencialmente estarem ou não integradas em Áreas Protegidas.

Para os que ainda hoje falam das políticas de conservação da natureza como entraves ao desenvolvimento, eu gostaria de lembrar um dos mosteiros que, com o fim das ordens religiosas no século XIX, foram a hasta pública.

Numa atitude inteligente, do ponto de vista do desenvolvimento económico, um desses mosteiros foi arrematado para aproveitamento da pedra em novas construções. Felizmente, um fundamentalista do património impediu que o Mosteiro da Batalha fosse reciclado em pedreira e ainda hoje desempenhe um papel económico do maior relevo.

O tempo se encarregará de tornar igualmente estranha a ideia de que as Áreas Protegidas prejudicam as pessoas e o desenvolvimento económico.

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