Opinião

A TSU e a caça

A discussão da TSU seguiu, de muito perto, a discussão que existe sempre sobre os efeitos da caça na conservação das espécies.

Para o senso comum, é evidente que se os bichos morrem caçados ou atropelados isso é um problema para a conservação das espécies.

Imaginemos uma reserva de caça bem gerida, em que os seus gestores se empenham em garantir um habitat óptimo e a disponibilidade de alimento e água ideais para as espécies que são caçadas. Naturalmente, essa reserva terá uma elevada produtividade e muitos bichos serão aí caçados.

Agora imaginemos uma reserva de caça mal gerida, com baixa produtividade. Muito menos bichos serão caçados.

Qual das duas porá em maior risco a conservação das espécies caçadas?

Provavelmente a segunda, a tal onde se caçam menos bichos.

É que a conservação das espécies não depende do número de bichos que morrem, depende essencialmente do saldo entre os que morrem e os que nascem, ou seja do número dos que sobrevivem, o que depende de processos muito mais complexos do que a mera contabilização das mortes de indivíduos.

O que mais incomoda as pessoas na proposta da TSU é a transferência descarada de recursos dos trabalhadores para as empresas. Se, como acontece frequentemente, a inflação for maior do que o aumento dos ordenados, também se dá uma transferência de recursos dos trabalhadores para as empresas. Se o ordenado subiu, mas os preços subiram ainda mais, vai ser preciso entregar mais dinheiro às empresas para obter o mesmo.

Só que nesta circunstância ninguém se revolta contra a transferência de recursos, no máximo resmunga contra o custo de vida porque a transferência é muito menos visível.

Na mortalidade das espécies o problema é o mesmo: porque a caça, o atropelamento, o embate numa eólica são realidades cruas, facilmente visíveis e emocionalmente fortes, toda a gente lhes atribui um peso que na realidade é muito menor do que realidades invisíveis, mas bem mais importantes para a conservação das espécies, como a fome ou as doenças.

Em processos complexos como estes, sejam eles a TSU ou a conservação das espécies, o mínimo que se espera dos jornais é que não se limitem a reproduzir o senso comum, ligando directamente às emoções e ao combate político (quer diga respeito à TSU, quer diga respeito à caça), mas que, pelo contrário, façam um esforço sério de intermediação racional, pondo em destaque os processos mais importantes, especialmente quando coincidem com a maior invisibilidade.

Em muitas situações é o que procurarei fazer aqui, sabendo que isso me leva a afastar-me do senso comum, dizendo que a caça não é muito importante para a conservação das espécies, em quase todas as situações, ou que o eucalipto não é nenhum problema ambiental maior do que o pinheiro-bravo.

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