Refundar o Estado e contrariar a narrativa de direita são bons exemplos do que é fazer política. Não me perguntem o que são, tenho dúvidas que alguém saiba, são frases, que ditas com convicção e em determinado contexto aparentam uma preocupação e uma imagem de quem conhece bem o que deve ser feito. O discurso político em geral e as sessões públicas parlamentares em particular são ferramentas de imagem e, infelizmente, não só não passam muito disso como têm sido ineficientes.
Chama-se crise a muitas coisas, interessa-me em particular a falta de dinheiro. As famílias não têm dinheiro, os bancos não têm dinheiro e os países não têm dinheiro. Tudo se evidenciou a partir de 2008 quando os mercados financeiros, esses a quem muitos chamam de responsáveis por quase todo o mal no mundo, se aperceberam que uma parte substancial das dívidas registadas não passavam de registos contabilísticos que mais tarde ou mais cedo se teriam que transferir para prejuízos efectivos. Muitos chamam-lhe a crise do sub-prime, em especial pela componente imobiliária, em resumo pelos financiamentos atribuídos a prédios que entretanto ninguém quer comprar e por isso passam a valer menos, menos do que o que custaram e menos que os financiamentos que permitiram a ultima compra.
Claro que o problema não é da volatilidade dos preços das coisas, é da forma de financiamento, todos nós nos habituamos a comprar carros que passados dois anos valem metade mas nem por isso esperamos dois anos para os comprar. Habituamo-nos há muito a considerar o crédito uma coisa normal. Se estamos a investir num curso na faculdade é porque acreditamos que num futuro teremos o respectivo retorno mas facilmente nos esquecemos que esse retorno é potencial e futuro. Não admira que este tipo de confiança em rendimentos futuros traga ao mercado instrumentos de antecipação de receitas, vulgo financiamentos. Alguém empresta e contabiliza como um activo, pois é mesmo disso que se trata, um activo na forma de crédito concedido, algo que manterá o valor se o tal estudante começar a produzir o suficiente para o amortizar com algum juro e que se perde em forma de prejuízo para um e consumo para outro se alguma coisa correr mal.
Voltemos ao problema da imagem, conseguimos crédito se convencermos quem tem o dinheiro que vale a pena investir no nosso percurso. Projectos de investimento, análise de risco, estudos de mercado, ideias visionárias e tantas outras coisas não passam de ferramentas que ajudam os investidores a perspectivar um negócio e os aforradores a permitir que ele se concretize. No final ganham todos, se tudo correr bem, ou só alguns se correr mal.
Particularidades à parte, o processo de crédito é sempre igual, seja um particular, uma empresa, um município ou um país. Mostramos que temos um projecto credível ou que somos boa gente, temos o dinheiro, falhamos numa ou noutra coisa, ninguém nos empresta. Voltamos ao mesmo, é uma questão de imagem.
Quando achamos que a Europa é grande e que os problemas e soluções virão de cada um de nós, vemos países com maior facilidade de crédito por razões (muitas vezes não técnicas) que me parecem evidentes. As taxas de juro proporcionadas pela divida pública a 10 anos em cada país são bem representativas destas diferenças. A Alemanha consegue taxas abaixo dos 2%, Espanha acima dos 5%, Portugal acima dos 6% e Grécia acima dos 11%. São taxas altas, as nossas, mas nenhum exagero disparatado. Há um ano as mesmas taxas portuguesas estavam no dobro, cerca de 13% e o que mudou? A imagem claro!
Mas sendo a imagem tão importante para a capacidade crédito, imaginemo-nos ricos algures numa praia agradável muito longe da Europa. Investíamos nós nestes países? Do que vou lendo na imprensa internacional, só se fossemos tolos ou puristas especuladores. Não digo que a imprensa internacional saiba mais que nós, longe disso, os nossos jornalistas mostram-nos bem melhor o que se passa por aqui mas o carácter mais superficial das noticias a nosso respeito que vêm de fora evidencia um problema terrível de imagem quanto aos políticos europeus, que nos tira a credibilidade que tanto precisávamos para que nos emprestem algum.
Vejamos os exemplos:
Em Espanha, o primeiro-ministro Mariano Rajoy foi acusado de receber uns euros de certos construtores para financiar o seu partido, três tesoureiros foram envolvidos na história e acusados de lavagens de dinheiro e de fraude. E que veio Rajoy dizer em sua defesa? Qualquer coisa como isto “repito o que já disse, o que têm dito de mim e dos meus colegas de partido é tudo mentira, ... bom, com excepção de algumas coisitas publicadas por alguns meios de comunicação social”. Em que ficamos? Péssima imagem.
Em Itália temos Silvio Berlusconi, que desde 1994 tantas vezes deu a cara pelo país onde já foi primeiro-ministro três vezes. As acusações que já lhe fizeram são do mais variado, eu diria que é homem verdadeiramente todo o terreno. Desde alegadas más condutas sexuais a fuga de impostos passando por conluios com a máfia temos de tudo. Talvez o ponto mais “alto” tenha sido quando o acusaram de subornar um senador a mudar de lado político. Pior que isso só mesmo a sua resposta “o suborno é uma parte necessária do negócio”. Foi também este homem, que evidentemente tanto representa a Itália, que um dia disse “a evasão fiscal é um “direito” divino” .
Temos também a França, onde paradoxalmente o principal responsável por impedir a fraude fiscal, o ministro do orçamento, é envolvido directamente num escândalo fiscal por ter escondido e mentido sobre uma alegada conta onde escondia uns euros fora do seu país. Jérôme Cahuzac, que enriqueceu como cirurgião plástico a fazer transplantes capilares a gente com dinheiro, acabou por confessar que mentiu repetidamente ao Presidente, ao parlamento e ao povo francês. Não admira que este “caso” ameace o que resta de credibilidade a François Hollande. Voltemo-nos a colocar na pele do tal milionário na praia longe daqui. Emprestávamos dinheiro a França depois de ouvir isto?
E na Alemanha, o país com a maior economia na Europa, o ministro da defesa Karl-Theodor zu Guttenberg, a quem foi retirado o título de doutorado por alegadamente ter plagiado na sua tese? Passou a ser conhecido como o Barão do “copy-paste” ou o Barão von Googleberg e evidentemente motivo de diversas chacotas políticas. Mais recentemente e muito irónico, a ministra de educação Annete Schavan, que muito criticou na altura o caso de Guttenberg, aconteceu-lhe quase o mesmo e viu o seu doutoramento ser “revogado”. Evidentemente que nem num caso nem no outro estão em causa as capacidades das pessoas para os casos políticos que ocupavam, a verdade é que certos telhados de vidro não são sustentáveis para o exercício de cargos públicos, mais uma vez um problema de imagem.
Em Portugal também não nos faltam casos de políticos onde no mínimo as suspeitas mais que beliscam a nossa credibilidade, uns graus académicos de mérito duvidoso, casos de corrupção evidentes, gente que aparece rica do nada ao ponto de fazerem umas fundações com o seu nome e indícios de favorecimento a quem é mais “amigo” do poder. Enfim, somos pequenos mas temos de tudo!
Dizer-se mal dos políticos é recorrente e naturalmente injusto para alguns (não enumero por falta de conhecimento mas acredito que existam) mas, mais uma vez, nem é isso que está em causa, a questão é da imagem. Vejamos:
Nos últimos tempos soubemos de líderes políticos:
1. que se suspeita terem-se abarbatado com algumas “comissões” no bom tempo que depois escondem por esquemas de fiscalidade evasiva;
2. que no tempo de crise se esquecem dos conceitos de direitos elementares das pessoas e até da democracia que os elegeu;
3. que são corruptos ao ponto, muitas vezes, de nem negarem os seus crimes;
4. que não hesitam em retirar aos que têm pouco para dar aos que nem deviam de precisar, como alguns Bancos.
E volto à imagem, e alguém nos empresta dinheiro?
Uma frase retirada de uma apresentação de um consultor financeiro a um grupo de investidores: “Não há literalmente nenhuma razão para investir um cêntimo na Europa. Os Bancos mentem acerca dos seus balanços, os políticos mentem acerca dos direitos das pessoas e o Banco Central Europeu mente sobre tudo.....”
Se serve de algum consolo eu estou optimista. Dinheiro para projectos credíveis, dos que criam valor, continua a existir, aqui ou lá fora. Sou testemunha disso em diversas situações. O Estado, mais tarde ou mais cedo, será mais sensato a passar cheques pela razão óbvia que não tem para gastar o que estava habituado. Políticos sérios e sensatos precisaremos sempre, como de pão para a boca, mas fazemos parte do processo de escolha pelo que não virá grande mal por aí. Empreendedores vamos tendo e será cada vez mais uma saída para muitos e num qualquer futuro uma solução para todos. Só pode!
Consultor em projetos de investimento e seguros de crédito

Comentários