Um ano depois do resgate espanhol continua turbulência no sistema financeiro

No final ficarão apenas cinco a seis bancos em Espanha, diz economista.

Quem pagará o empréstimo à banca espanhola? Susana Vera/Reuters

Um ano depois do resgate bancário espanhol aprovado pelo Eurogrupo e apesar das provisões de milhares de milhões realizadas e dos processos de fusões, aquisições e integrações, o sector financeiro em Espanha contínua envolto em alguma turbulência.

Longe parecem estar os meses de 2011 e 2012 marcados pelo difícil contexto de acesso à liquidez, pela pressão dos mercados da dívida soberana e pelas dificuldades de cumprimento das exigências de capital tanto europeias como espanholas.

O risco da dívida caiu acentuadamente, as entidades corrigiram muitos dos seus problemas e a fuga de capitais desacelerou – depois do recorde de 179 mil milhões de euros que, em 2012, saíram do país.

Mas isso não implica, como alertou recentemente o Banco de Espanha (BE) e a própria troika, na sua última avaliação, que o sistema tenha afastado todos os riscos.

“O sistema vai necessitar de mais dinheiro, que algumas entidades conseguirão gerar por si próprias, mas que outras terão que ir buscar de novo à Europa”, disse à Lusa o economista do ESADE, Robert Tornabell.

“É mais que certo que será necessário mais dinheiro. E que haverá ainda mais fusões e integrações. Terminaremos com apenas cinco ou seis bancos em Espanha”, sublinhou.

O resgate foi formalmente anunciado há um ano, na tarde de sábado de 9 de Junho. “O Governo espanhol declara a intenção de solicitar ajuda europeia para refinanciar o sistema financeiro espanhol”, disse na altura o ministro da Economia Luis de Guindos, mas o dinheiro só chegou no final de 2012.

Em meados de Dezembro chegaram ao Fundo de Reestruturação Ordenada Bancária (FROB), para distribuição pelas quatro entidades nacionalizadas, 36.968 milhões de euros a que se somam mais 2.500 milhões para a constituição da Sociedade de Gestão de Ativos provenientes da Reestruturação Financeira (SAREB), conhecida como ‘banco mau’.

Um pedido final muito abaixo do montante disponível aprovado pelo Eurogrupo – 100 mil milhões de euros – o que, para o Governo, demonstrou a fortaleza da maior parte do sistema financeiro espanhol.

Um ano depois, porém, regressam os alertas sobre problemas nas contas do sector, sobre créditos em risco e sobre a eventualidade de mais processos de capitalização.

Em Maio de 2013, o BE alertou sobre a possibilidade de que a banca espanhola tenha maiores necessidades de provisões este ano, num cenário “ainda difícil” que, devido à evolução da actividade económica, fará mais pressão sobre os resultados.

Tornabell recorda que o BE considera haver no sistema financeiro até 200 mil milhões de euros de créditos duvidosos que define como “substandard” para os quais quer provisões de 15%.

“A banca diz que não, resiste a mais provisões, mas os relatórios dos inspectores do BE demonstram isso”, comentou.

Já este mês a troika destacou a crescente solvência do sector financeiro espanhol, na sequência de melhorias verificadas no último ano, mas considerou que Espanha tem que manter a “vigilância” sobre os activos da banca.

Esta foi aliás uma das conclusões centrais da avaliação sobre o estado da economia espanhola dado a conhecer pela troika, formada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pela Comissão Europeia (CE) e pelo Banco Central Europeu (BCE).

A própria SAREB, elemento central da reforma do sector, por servir como banco de absorção de activos problemáticos ou tóxicos, está a dar sinais preocupantes tendo anunciado este mês que no seu primeiro trimestre de funcionamento vendeu 550 casas.

Caso a tendência de vendas se mantenha até ao final do ano as vendas poderão ascender a apenas 2200 unidades, muito abaixo das quase 8000 que era o objectivo inicial, o que poderá implicar perdas que a imprensa espanhola estima possam ascender a 500 milhões de euros.

Para o Governo permanecem ainda outros problemas como a nacionalizada Catalunya Caixa, “que ninguém quer comprar e que só em 2012 acumulou perdas de 12 mil milhões de euros”, como recorda Tornabell.

Ainda é cedo para a conta final: quem pagará o empréstimo à banca.

“Há uma parte que os bancos poderão pagar, mas o grosso ficará a cargo dos contribuintes. Talvez por isso o Governo não pediu a totalidade dos 100 mil milhões de euros, para não alarmar mais”, sugere Tornabell.

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