Entrevista

Se houvesse um Governo de iniciativa presidencial, seria muito mau para o país

Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social (CES) deseja que o executivo chegue ao fim do mandato, mas teme as consequências de uma eventual derrapagem na execução orçamental.

Enric Vives-Rubio

Na primeira entrevista após a aprovação do Orçamento do Estado, cuja primeira versão o CES chumbou, de forma polémica, Silva Peneda diz que há argumentos a favor e contra o envio para o Tribunal Constitucional. “Não queria estar na posição do Presidente da República”, afirma.

Que parecer daria a este orçamento depois das poucas correcções que foram introduzidas? Que consequências podemos esperar? Mudaria o parecer que fizeram em Setembro?
O essencial do parecer mantém-se. Foi votado sem nenhum voto contra, com abstenções fundamentadas da CGTP e do Governo. Estes pareceres são exercícios de compromisso, respeitando uma tradição do CES. Mas não são um somatório de reivindicações. E não foi por acaso que acrescentámos em anexo um histórico onde chamamos a atenção para as recomendações que o CES fez nos últimos dez anos. Se elas tivessem sido ouvidas, o país não estaria onde está hoje.

Que recomendações eram essas?
Estou a falar de Parcerias Público-Privadas, da dívida pública, da desorçamentação, os estádios de futebol.

E tem a certeza que, se tivessem sido ouvidos, não estaríamos nesta situação?
Seguramente que sim.

Que consequências podemos esperar deste orçamento?
Não acreditamos nalgumas projecções macroeconómicas. Entendemos que a recessão vai ser mais profunda do que o previsto. Este Orçamento é feito em circunstâncias muito especiais e tem elementos de rigidez muito importantes. Primeiro, é uma factura que temos de pagar por erros do passado. Segundo, é feito num clima de grande incerteza e por isso fala de análises de risco em algumas variáveis. Terceiro, é um orçamento de um país que está na zona euro. São três condicionantes em que não se pode mexer. E há uma quarta, que é o memorando da troika. De todas elas, é a única em que se pode mexer. Por isso fizemos algumas recomendações no sentido do que foi agora aprovado para a Grécia [pelo Eurogrupo] e que não imaginámos que ia acontecer. Quanto às projecções, são conhecidas as nossas posições, nas quais somos acompanhados por várias instituições. Nós entendemos que o memorando tem alguns vícios de concepção.

Que vícios são esses?
Aquele memorando era capaz de funcionar numa economia que não tivesse um tecido produtivo tão desequilibrado como o nosso. O memorando não leva em conta o peso muito grande das empresas muito pequenas na nossa economia. As empresas médias ou grandes ainda se aguentam quando vem uma aragem adversa. Uma pequenina fecha e acabou. Outro ponto tem a ver com o excessivo nível de endividamento das famílias e das empresas. Esses dois aspectos não foram tidos em conta por quem concebeu o memorando. Na última reunião com a troika disse que o memorando devia-se chamar memorando de entendimento evolutivo. As coisas têm de se adaptar a uma realidade concreta. No parecer do orçamento para 2012, dissemos com grande convicção que a taxa de desemprego ia disparar e isso verificou-se. Nós tínhamos consciência do peso do mercado interno. Quando a taxa de desemprego disparou, a UE, o FMI e o Governo ficaram surpreendidos. Nós não, porque quem se senta no CES são pessoas que vêm da economia real.

O ministro das Finanças diria que o modelo estava certo mas…
A economia não é uma ciência exacta, é uma ciência social. Os modelos são fundamentais mas têm de ser aplicados à realidade e a economia portuguesa tem características muito específicas. E aspectos que foram e continuam a ser considerados essenciais pelos parceiros sociais não estão vertidos naquilo que foi a lógica do memorando. Quando a troika veio cá pela primeira vez pedi a cada parceiro que só falasse dez minutos e deu-se a volta à mesa. No final, eles ficaram com a suspeita que os parceiros tinham sido ensaiados, o que naturalmente não é possível. Chamei a essa reunião, que foi durante a quinta avaliação, a sinfonia perfeita. Ninguém pediu reformas nas leis laborais. Os pontos focados foram os custos de contexto e o crédito, tanto da parte patronal como da sindical. Os parceiros acabam por compreender as realidades uns dos outros e muitas vezes conseguem deixar para segundo plano as suas prioridades próprias.

Sobre este orçamento, disse que havia o risco de continuarmos na via da dor sem ajustamento.
Não há um automatismo entre austeridade e crescimento. A austeridade é necessária mas é preciso que valha a pena. Esta frase foi dita por Sá Carneiro em 1975. E o receio dos parceiros é o risco do ciclo recessivo.

Que não haja luz ao fundo do túnel?
É um pouco essa ideia. É muito difícil conciliar dois objectivos, especialmente num país que está na zona euro. Pretende-se ao mesmo tempo equilibrar o défice com o exterior e reduzir o défice público. Em condições normais, desvaloriza-se a moeda, exporta-se mais e importa-se menos e a parte da dívida externa vai-se resolvendo. Mas não podemos fazer isso. Então, através da redução do poder de compra passou-se a importar menos.

E a consumir menos.
Deixa-se de consumir e de pagar impostos. Há uma contradição entre estes dois objectivos e conciliá-los não é fácil. Um está a ser feito à custa de algum aumento das exportações – e  temos de ver o que vai acontecer na nossa vizinha Espanha – mas sobretudo à custa da diminuição das  importações. E a diminuição do poder de compra foi tão grande que a componente da carga fiscal começou a ficar exaurida. A economia é como alguém que está nos cuidados intensivos: o médico tem de ir pondo a dose adequada à evolução do doente. Não pode haver grande rigidez na medicação. Mas não se pode dizer que o memorando não tenha sido evolutivo, porque têm existido adaptações.

Jean-Claude Juncker disse que Portugal e a Irlanda beneficiarão de condições idênticas às da Grécia. Isso vai mudar as condições de aplicação do programa de forma significativa?
Vamos beneficiar alguma coisa, mas a repercussão financeira não será grande. Não é todo o empréstimo, é só uma componente. Não vamos respirar muito melhor por causa disso.

Defendeu sempre a necessidade de uma renegociação dos juros e dos prazos. O Eurogrupo acabou por atalhar um caminho que o governo português insistiu que não queria trilhar?
No CES nunca falámos em renegociação da dívida. Falámos de juros, de prazos e de medidas que favoreçam o crescimento económico. O papel do Estado nas políticas públicas é fundamental quanto ao crescimento económico. O Governo nunca quis trilhar esse caminho, mas vai beneficiar. Isso tem a ver com o posicionamento negocial [do Governo] junto das instituições europeias. Qualquer negociação, para mim, pressupõe tensão. Nunca estive presente nas negociações do governo com a troika e portanto ignoro qual é o nível de tensão que existe. Mas não se pode dizer que não tenha havido adaptações. A nível da União Europeia, as coisas são diferentes.

O Governo tem defendido os interesses portugueses de forma adequada?
O problema é mais de fundo. Estamos numa crise federal mas não temos instrumentos nem instituições federais para a resolver. E também temos uma crise global sem instituições globais. O que está a acontecer é que os Estados passaram a funcionar como companhias de seguro das instituições financeiras, para as salvar. E não tem outro recurso se não ir buscar dinheiro aos cidadãos. Nós estamos, justa ou injustamente, mas acho que mais injustamente, a pagar os desvarios cometidos pelas instituições financeiras em geral. O euro e sobretudo a Alemanha recusaram-se a ver isto como uma crise sistémica. A zona euro vem tomando as medidas correctas, mas acordou tarde. E deixou a semente nas opiniões públicas de alguns países. Hoje, na Alemanha, a maior parte já não acredita na Europa. Mais perigoso: houve uma fase em que a percepção era que a Europa já não era um desígnio da Alemanha e que esta queria ser uma potência mundial.

A ideia de que a Alemanha é demasiado grande para a Europa mas demasiado pequena para ser global.
Sim, mas a Alemanha nunca será ninguém sem a Europa. Não tem o poderio militar necessário nem autonomia energética. Esta hesitação da Alemanha teve consequências políticas que se estão a pagar. O orçamento europeu que se está a discutir, as Perspectivas Financeiras, revela uma coisa triste. Temos de um lado os países que querem mais dinheiro mas não se importam quanto a como ele pode ser arranjado. E do outro os países que querem fazer restrições orçamentais que estão a fazer internamente. Isto tem a ver com o modo como a Europa é financiada. Ora o modelo de financiamento da UE está esgotado, porque é feito na base da quota de cada um dos sócios, quando a UE devia ter recursos próprios. Quando as últimas Perspectivas Financeiras foram negociadas, e eu estive muito activo nisso, ao nível do Parlamento Europeu, ficou inscrito no acordo entre Comissão, Parlamento e Conselho que ia ser feita uma reforma do financiamento da Comissão, com base em recursos próprios. Isto foi há sete anos. Abandonou-se a ideia de um imposto europeu e andou-se à volta de ideias como a taxa Tobin e impostos sobre energia, entre outros cenários. Mas não houve decisão e continuamos a ter o mesmo modelo de funcionamento.

Mas o orçamento europeu pode acabar por ser tão insignificante que põe em causa o poder da UE enquanto instituição?
Acho que a Europa a várias velocidades vai ser inevitável. É a minha leitura. Há quem fale num orçamento para a zona euro e outra para a UE, por exemplo. Caminhamos para um problema. A integração económica de espaços diferentes começa pelos mercados e a moeda é a cereja no fim do bolo. Aqui fez-se ao contrário para tornar irreversíveis os passos federais. Mas será possível a existência de uma moeda única num espaço com tantas diferenças do ponto de vista de competitividade, das empresas, das características dos tecidos produtivos e das sensibilidades? Se a resposta for sim, então temos de saber que instrumentos e políticas podem conciliar estas diferenças, em vez da aplicar um modelo de um só.

Não podemos germanizar o sul.
Exactamente. Este debate está por fazer. Está-se a tentar criar um firewall, para não haver especulação dos mercados. Mas há receios dos países do norte em relação aos do sul e tem de haver regras diferentes das do pacto de estabilidade. O pacto assenta em critérios nominativos, que não têm a ver com a economia real. Há três anos, Espanha cumpria magnificamente todos os critérios do pacto. Mas todos sabíamos que havia uma bolha especulativa no imobiliário que ia rebentar. E isso não é medido. Depois, Mario Monti diz uma coisa, com toda a razão: faz sentido que uma despesa sumptuária do Estado seja equiparada a uma despesa de investimento? O bom senso diz que não faz sentido.

Mas se não há flexibilidade, como vamos defender o nosso ponto de vista?
É o debate que é necessário fazer, mesmo estando-se numa situação de urgência. Estamos a pagar um custo muito elevado por termos uma moeda muito valorizada em relação ao potencial da nossa economia.

Já disse por diversas vezes que na Europa tudo é negociável, desde que se fale com as pessoas certas. Com quem é que Portugal tem de falar para conseguir um pacote de fundos mais generoso?
Começou bem, porque falou com a senhora Merkel sobre o Banco de Fomento e isso significa muito trabalho por parte do Ministério das Finanças. Muita coisa vai mudar na regulamentação dos fundos. Há um consenso que é preciso animar a economia e que a tónica seja a aplicação dos fundos em medidas que levem ao crescimento. Se calhar as componentes de fundo perdido vão perder espaço para aos empréstimos reembolsáveis, daí a ideia do banco, que me é muito cara e de que fui um dos impulsionadores, com o Banco de Portugal e o Ministério das Finanças. É uma instituição a nível nacional que pode fazer face a esta nova realidade que é a aplicação dos fundos.

Mas faz sentido criar uma estrutura nova?
Faz, porque isto tem de ser negociado com as instituições europeias, no primeiro semestre do próximo ano. E na negociação também há uma componente institucional. A minha experiência mostra que é muito importante quando se aparece com uma ideia que já foi soprada de cima – e a senhora Merkel apoiou o Banco de Fomento. Falou-se com a pessoa certa no momento certo.

É um organismo para gerir os fundos?
Não é para gerir os fundos todos, mas sim os fundos que serão reembolsáveis. E não sei se o BEI se poderá associar a isso. A ideia nasceu no Verão. Tive uma conversa com o governador do Banco de Portugal, em 25 de Junho, e ele já há muito tempo que defendia uma instituição assim, mas não havia dinheiro. A 8 de Agosto, expus a ideia ao ministro das Finanças, que achou muito bem e criou-se um grupo de trabalho que funcionou logo em Agosto. Chamou-se Banco de Fomento porque na altura dos fundos EFTA, o Banco de Fomento da altura teve um papel muito importante.

O secretário-geral do PS também reivindica a paternidade do banco.
Mais tarde. Não foi por acaso que falei nessas datas. Quando as ideias são boas, quanto mais pessoas concordarem é bom. Aliás, nós precisamos de reformar o nosso modo de governar. As expectativas dos cidadãos estão muito focadas no curto prazo e os problemas do século XXI só podem ser resolvidos com visões de médio prazo e com entendimentos que vão para além de uma legislatura. Precisamos de uma política fiscal para dez anos, por exemplo. É fundamental para atrair investimento. E quem fala nisso fala em compromissos na justiça ou na famosa reforma da administração pública.

Já houve tentativas de pactos a esse nível, mas falharam.
Há uma debilidade do nosso sistema político que é não se fomentar estas visões de médio prazo, que deixam muito espaço para a luta partidária.

É possível com os políticos que temos?
Dou esta opinião até com base no que se passa no CES. Num clima de recessão terrível, conseguiram-se entendimentos para reformar a legislação laboral e fazer um papel com medidas concretas. Porque não há-de ser possível estabelecer um compromisso em questões vitais? Depois, há a coerência das políticas sectoriais. Nesta altura, percebe-se a ditadura das finanças, mas uma decisão que pode ser muito interessante no curtíssimo prazo pode implicar custos incomportáveis no médio prazo. A coerência entre as políticas também só se pode resolver com o médio e o longo prazo. É preciso reformar o modo de governar, introduzindo uma cultura de compromisso em vez de uma cultura de divisionismo permanente. Vejo que a sociedade portuguesa, que é cada vez mais complexa e fragmentada – veja-se as redes sociais - cada vez mais reclama isso. Depois há a interdependência: tudo influencia tudo, mesmo internamente. E há a capacidade que o poder político terá para prever os acontecimentos, porque quando apenas reage a eles a margem de manobra é estreita e normalmente a resposta é atabalhoada. E, quarta, meter na cabeça que o poder político é apenas um centro de poder no meio de outros centros de poder. E a legitimidade política que existe através do voto só pode ser reforçada se tiver capacidade de se articular com outros centros de poder. Um poder político pode ter maioria absoluta, mas se não tiver capacidade para articular com outros centros de poder, eu não diria que a legitimidade política desaparece, mas acaba por ser ferida.

Vê sinais no actual governo de se seguir por esse caminho?
Quando falo em nova forma de governar, ponho o diálogo estruturado e institucionalizado como uma característica da governação. Um poder político que, nas actuais circunstâncias e face ao que se avizinha para o futuro, governe sem esta capacidade de articular com os outros centros de poder é um governo condenado ao fracasso.

Mas este governo nem com a oposição estabelece pontos de diálogo.
Estou a falar do ponto de vista teórico. Este governo com o acordo de concertação social deu mostras disso, mas tem dias… Gostaria que a classe política conseguisse acordar pactos de regime e visões de médio prazo para as questões fundamentais e que houvesse mecanismos de diálogo com múltiplos sectores da sociedade portuguesa para que as reformas depois sejam monitorizadas.

Mas vê alguma vontade no governo, na oposição e na sociedade para que haja esses entendimentos de médio prazo?
Em termos gerais essa preocupação de médio prazo não é dominante. Os partidos estão preocupados com o telejornal de hoje e com as eleições de amanhã. Os cidadãos estão preocupados com o dia de hoje. Há medo, o problema do desemprego gera uma grande falta de confiança. Neste momento vivemos um clima de grande desconfiança. Um ambiente político que se oriente para o médio prazo e em que haja diálogo estruturado pode atenuar esse clima de desconfiança.

Na polémica da redução da TSU, o governo não negociou nem com parceiros nem com a oposição. A própria exigência de aplicação do memorando, com os custos sociais que tem, obrigaria a esses consensos.
Aí o governo claramente falhou. E depois houve aqueles comentários de que as entidades patronais não tinham percebido. É tão simples de perceber: um empregador, perante os eventuais benefícios de uma medida e instabilidade dentro da empresa, renuncia aos benefícios para garantir a estabilidade. A reacção das entidades patronais foi o mais racional possível.

Voltamos ao debate entre a economia real e a teoria.
Exactamente. Compreendi perfeitamente a reacção da parte patronal quando rejeitou essa medida.

Como é que, enquanto presidente do CES, que de certa forma patrocinou o acordo de concertação, viu o governo apresentar essa medida da TSU sem qualquer diálogo?
Não foi dos melhores momentos.

É verdade que ameaçou demitir-se?
Fiz alguns desabafos entre portas. É uma situação desagradável, ligar a televisão e ver uma coisa dessas. Foi um momento mau. Mas o governo já recuou noutras coisas, a questão da meia-hora foi retirada e já estava na Assembleia da República. Temos conseguido algum diálogo e algum entendimento e isso é um activo muito importante. Temos de preservar esse activo.

Não é o próprio governo a desprezar esse activo?
É isso… mas a posição dos parceiros socias foi exemplar, dada a crispação que se criou na altura.

O governo parece estar a abusar da paciência da UGT…
Tem dias. Para a UGT teria sido mais fácil ficar de fora. Mas também compreendo a posição da CGTP, que não concorda com o memorando da troika, ora o acordo era consequência do memorando. Foi uma posição política, coerente e que há que respeitar e que se passou com grande elegância. Costumo dizer que temos sorte com os dirigentes dos parceiros sociais que temos.

E temos a mesma sorte com os membros do Governo que vêm à Concertação e que, como disse recentemente, não têm um documento para sustentar as suas posições..
A qualidade da Administração Pública baixou muito. No meu tempo havia directores-gerais que tinham um peso específico e quando se tomava uma decisão a posição dele tinha peso. Quando estive no governo não me passava pela cabeça vir à concertação e não distribuir um papel a explicar o quê e porque vamos fazer isto ou aquilo. Gostaria que determinadas posições não fossem tomadas sem ouvir os parceiros e sem uma justificação. Há um tempo para ouvir e um tempo para decidir. De vez em quando há uma surpresa e não há sequer audição, como foi o caso da TSU.

Com a mudança de liderança da UGT poderá haver uma postura diferente na concertação?
Veremos. O que se ganha em rasgar o acordo? Rasgar o acordo é a desistência, em vez de os parceiros se sentarem à messa das negociações e lutarem para que o acordo seja cumprido.

Mas uma grande parte do que está cumprido tem a ver com a legislação laboral. E o resto?
Temos uma monitorização. O acordo está a ser cumprido, mas não ao ritmo que desejaria.

A reforma do estado é outro dos temas lançados para a praça pública sem audição dos parceiros.
Tenho dificuldade em perceber a concepção. Da necessidade de reduzir quatro mil milhões de euros na despesa à reforma da Administração Pública vai uma grande distância. Dizer que o país está a arder e é preciso combater o fogo eu percebo. Percebo o que é cortar quatro mil milhões de euros. O tema foi discutido com a troika, que não comentou e não respondeu se foi ela que exigiu esse corte.

Há quem defenda que, em determinadas matérias, o Governo deve falar com os representantes da troika a um nível mais elevado. Isso é importante?
Ninguém está à espera que um alto funcionário da Comissão Europeia tenha uma atitude inovadora. É preciso ir lá acima. A Sra. Lagarde abriu a porta a várias situações, não sei se o governo as explorou ou não. Há matérias que não vale a pena perder tempo a falar com técnicos, tem de se ir a nível superior.

O Governo tem sido muito criticado por ter tido uma posição muito encontada à parte alemã…
Já disse que a prioridade em Portugal devia ser a política europeia, porque os problemas que temos pela frente não podem ser resolvidos apenas com decisões tomadas ao nível nacional só num enquadramento europeu. Portugal só tem a ganhar se apresentar uma ideia que é boa para a europa no seu conjunto. Devemos ter um debate com os países do sul e com alguns amigos. O Jean Claude Junker pode juntar-se a esse debate para propor ideias para a Europa no seu todo.

Estes 60 anos de Europa foram uma excepção do que foi o passado. Soluções mais radicais e nacionalistas facilitam o aparecimento do populismo e podemos voltar para trás num projecto que foi das coisas mais bonitas que se construiu. Talvez a solução seja a Europa a várias velocidades e a federalização da zona euro. Se a moeda única é irreversível, é inevitável que se tenha de caminhar para o federalismo na zona da moeda única. Se ficarmos a meio da ponte, esta vai ruir e acaba a zona euro. E acabando a zona euro, acaba o projecto europeu.

Disse que para refundar as funções do Estado é preciso ter crescimento. Como é possível ter crescimento económico numa altura como a que atravessamos?
Essa é a parte fundamental. Não podemos estar condenados à penúria. Estamos perante um Estado falido neste momento, mas a solução passa pelo crescimento económico. Para isso tem de haver um conjunto de pressupostos: pôr as contas em ordem é fundamental, mas tem de ser conciliado com as tais medidas de crescimento. 2013 não vai ser um ano de crescimento económico. Em 2014 tudo depende, temos uma janela aberta que são os fundos estruturais. Mas depois há componentes que não medimos: o investimento só aparece se houver confiança. As pessoas estão dispostas a apostar se não tiverem uma noção de estabilidade fiscal? Há componentes que têm a ver com a credibilidade política. Um ambiente amigo do investimento não se decreta, é preciso toda uma envolvente que leve as pessoas a sentir que vale a pena apostar.

Surpreendeu-o que neste orçamento houvesse um manifesto mal-estar do CDS e a retirada de uma declaração de voto por parte de um grupo de deputados do PSD? Dentro da maioria há pouca coesão em relação a este orçamento?
Enquanto presidente do CES, acho que não devo comentar. 

O PS fez bem em não defender a fiscalização preventiva?
O PS se não o faz está à espera que alguém o faça. Sou capaz de elencar uma série de argumentos a favor de enviar o OE para o Tribunal Constitucional e ao lado uma lista contra. Há argumentos com peso de um lado e do outro. É uma decisão muito difícil, eu não queria estar na posição do Presidente da República.

Acha que o PR deve enviar?
É uma decisão muito difícil. É fundamentalmente uma decisão política. Não me atrevo. Há nuances complexas, qualquer dia corremos o risco de vermos o Tribunal Constitucional a decidir os nossos orçamentos e não é o povo pelos seus representantes a fazê-lo.

A solução poderia ser o veto político?
Acho muito complicado não promulgar o orçamento. Não sei como é que o país viveria sem orçamento perante as instituições internacionais.

Francisco Louçã falou recentemente de uma brigada cavaquista, ou seja, um grupo de pessoas do PSD que critica o Governo e que está à espera de um lugar no Governo. Enquadra-se nesse grupo?
Não. Mantenho relações com o Presidente da República desde 1980, quando o conheci. Sentava-me ao lado dele nos Conselhos de Ministros. Desde aí criou-se uma relação muito boa que se mantém até hoje. Se isso é ser cavaquista… agora brigada cavaquista não.

Se Passos Coelho o convidasse para integrar o Governo aceitaria?
Já fiz 60 anos. Não.

É por uma questão de idade ou porque não lhe inspira confiança?
Há tempo para tudo. Estive muitos anos no Governo, depois fui para o privado, estive no Parlamento Europeu.

O país precisaria de um governo de iniciativa presidencial?
Se isso acontecesse seria sinal de uma crise política gravíssima. Seria muito mau para o país.

Esta maioria está em condições de levar o seu mandato até ao fim?
Gostaria que fizessem o mandato até ao fim. A estabilidade política é muito importante e qualquer solução que leve a uma queda do Governo seria negativo.

Mas há condições para que o Governo vá até ao fim?
Três meses em política é uma eternidade. Sei lá como é que vai correr a execução orçamental. Se houver uma grande diferença entre o orçamento e a execução a situação vai ser complicada. Não significa que haja uma crise política associada a isto. Vamos ver. A forma como o orçamento for executado pode cimentar a ideia de haver uma crise política mais cedo do que se imaginava. Não gostaria que acontecesse.

Em 2012 estamos a derrapar. O que é que o faz acreditar que em 2013 será diferente?
No nosso parecer dizemos que há riscos. Podemos estar enganados, mas até agora o CES tem sido o track record do passado. O parecer do CES não deve ser visto como um ataque ao Governo, mas como um conjunto de recomendações até para o Governo negociar com outras instâncias.

Se o desemprego continuar a aumentar, assim como os níveis de pobreza, não haverá outras motivações que possam levar à queda do Governo?
No parecer falamos em ruptura social. Há limites. Quando se fala num corte de quatro mil milhões de euros há limites. Cuidado que podemos estar a tocar em questões sensíveis. Os mercados financeiros são instantâneos, os sociais podem ser muito violentos. Muita cautela quando se mexe em coisas que podem pôr em causa a dignidade humana.

O CES aponta caminhos para que haja uma inversão neste tipo de situação. Se não houver uma inversão, há o risco de uma ruptura social. 

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