“Se as condições forem favoráveis, vamos participar na privatização”

Germán Efromovich, que viu a oferta pela TAP rejeitada em Dezembro, critica o facto de o Governo ainda não ter relançado a venda da companhia.

Efromovich garante que não teve novos contactos com o Governo português DR

O único candidato à primeira ronda de privatização da TAP diz que ainda está disponível para reatar o que sempre considerou um “casamento perfeito”. Mas diz que a janela de oportunidade “vai fechar-se muito rápido”.

Sem especificar as condições que mais lhe interessariam neste negócio, Germán Efromovich adianta que a retirada da unidade de manutenção do perímetro da venda “não é uma decisão acertada”. O milionário colombo-brasileiro critica ainda as conclusões do relatório da comissão de acompanhamento da privatização, que detectou riscos financeiros e estratégicos na sua proposta.

O seu interesse na TAP efectivamente mantém-se?
O interesse em oportunidades de negócio por parte da Avianca e do grupo Synergy sempre existe. Interesse em algum negócio particular, mesmo que seja o da TAP, só se manterá dependendo das condições que o Governo apresente num novo processo de privatização, se é que vai ocorrer. Só acho que está a demorar mais do que necessário e se há verdadeiro interesse e necessidade em privatizar, o tempo que se está a perder está a causar um grande prejuízo estratégico à companhia. Nós vamos olhar [para o dossier], como continuamos a olhar para várias alternativas no mundo inteiro para o nosso crescimento. Se as condições forem favoráveis e nós tivermos oportunidade de participar, vamos participar. Se as condições mudarem e concluirmos que as novas condições não são interessantes, não vamos participar.

Que condições têm de estar reunidas para participarem?
Não sou eu que tenho de estipular as condições. O Estado português, proprietário da companhia, é soberano para determinar as condições. Condições essas que, quando determinadas, analisaremos para ver se estamos interessados ou não. Não tenho uma bola de cristal.

Mas interessa-lhe mais uma privatização a 100% ou incluindo uma parte do capital disperso em bolsa, como está a ser analisado pelo Governo?
Depende de como for feita a dispersão. Não se dispersa o capital de uma companhia em bolsa em dois dias. É um processo que demora seis, sete meses. Uma coisa é certa: nós não estamos a aguardar somente por uma decisão do Estado português para planear o nosso futuro e decidir qual a porta de entrada na Europa que precisamos de procurar. Para nós o tempo é muito importante.

Que outras opções tem em cima da mesa na Europa?
Não posso dizer. É um movimento estratégico da companhia e não vamos anunciar com quem estamos a negociar antes de concretizar o negócio.

Mas dessas opções, é verdade que a TAP seria o casamento perfeito?
Nunca negámos que as sinergias coincidem com a nossa estratégia. São inegáveis. E, pelo que os jornalistas escrevem, há também um reconhecimento disso por parte do Estado português. Talvez sejamos a única alternativa totalmente transparente, não havendo dúvida da necessidade de conservar e de fazer crescer o hub [placa giratória] de Lisboa, aumentando a quantidade de empregos. E sem querer ser arrogante, com a maior modéstia possível, nós conhecemos o negócio, sabemos fazer e temos uma história de sucesso. Não é uma aventura. Mas tudo na vida tem um tempo, tem o seu momento.

Por que diz que o tempo que está a passar desde a suspensão da venda prejudica a TAP?
Existe uma boa janela para poder crescer se se investir numa companhia europeia hoje, até por causa da crise. É na crise que há oportunidades. E essa janela, que espero que não dure muito até para benefício do povo europeu, vai-se fechar muito rápido. E qualquer companhia que não aproveite essa janela para fazer os seus investimentos, as suas renovações, para criar novas oportunidades que o Estado português não pode criar, não porque não seja competente mas porque está proibido de injectar dinheiro, está a prejudicar-se. Isso não é benéfico para ninguém e muito menos para a TAP.

Mas nestes últimos meses a companhia tem vindo a melhorar os resultados. O negócio da aviação deu lucro e os prejuízos do Brasil diminuíram.
Não tenho visto os números. Mas os valores reais do balanço do ano passado mostram que a TAP deu prejuízo.

Isso em termos de grupo. O negócio da aviação teve resultados positivos.
Fico muito satisfeito que isso seja verdade.

Estaria disposto a pagar mais pela TAP?
Acha que eu vou dizer o que estou disposto a fazer?

A estes meses de distância da decisão do Governo, como se sente em relação à rejeição da sua oferta?
Digo o mesmo que disse no dia seguinte: o Estado português é totalmente soberano e autónomo para decidir a vida da companhia que controla. Houve um curto-circuito e a coisa não se deu. Mas o Estado não me deve explicações. Se entendeu na ocasião que a nossa oferta tinha uma falha, faltava alguma coisa. Eu respeito isso.

Mas a decisão teve um impacto negativo para a Avianca?
Não houve impacto negativo. Aliás, a sobrevivência da Avianca e do grupo Synergy não depende da compra da TAP e a sobrevivência da TAP não depende de nós a comprarmos.

Depende de uma aquisição e da entrada de dinheiro fresco.
Sim, mas não necessariamente da nossa aquisição. Se acontecer, vai ser bom para a Synergy e seria bom para os portugueses, mas não é essencial à sobrevivência de nenhuma das partes.

Mas não foi difícil digerir o facto de o negócio não ter avançado por questões financeiras?
Em negócios não se digere, vive-se. Em 40 anos de carreira, já tivemos boas e más decisões. O que é uma boa decisão para uns é má para outros. Mas vocês querem criar um elemento de causa que não existe. Estão à procura de chifres em cabeça de cavalo. O processo foi normal, simplesmente não ocorreu e ponto. Simples.

O motivo apresentado é um pouco mais complexo do que isso.
Eu não apresentei o motivo. Se o Governo apresentou esse motivo, o Governo tem de dizer exactamente porque tomou a decisão. Nós apresentámos as nossas condições. Não satisfizeram o Governo e o negócio não se fez. É business.

Foi divulgado recentemente um relatório, da comissão de acompanhamento da privatização da TAP, que detectava riscos na sua proposta.
Não li o relatório.

O relatório referia que os riscos não eram apenas financeiros, mas também estratégicos.
Quem disse que havia riscos na estratégia estava equivocado. Não deve entender o negócio da indústria da aviação. É como quando se chama um banco para falar de negócios. Banco não entende de negócios. Entende de emprestar dinheiro para quem não precisa.

Para si seria mais conveniente comprar apenas o negócio da aviação da TAP, sem a unidade de manutenção no Brasil?
Não quero julgar, mas não vejo como é que separar a aviação da parte da manutenção vai gerar valor, porque, a não ser que se tenha alguém sólido e sério para assumir [a unidade no Brasil], a partir do momento que se separa está-se a ficar com a parte podre, que não se sabe que consequências pode trazer. Isso de fatiar para conseguir mais um de um lado e correr o risco de perder no outro não é uma decisão acertada.

Mas parece haver investidores interessados na manutenção no Brasil.
Óptimo.

A Avianca não está nesta corrida?
Não posso responder porque não sei se estão a vender.

Não é bem vender. O Estado está a desfazer-se da empresa.
Eles não estão dando de presente, imagino. Deveriam até dar, mas… o facto é que há muita especulação. Neste momento, e desde Dezembro até hoje, o Estado português não está oficialmente a vender nada no que diz respeito à TAP. Podem estar a analisar e a comunicação social pode estar a especular, mas na realidade não há nada à venda. Pode ser que amanhã coloquem algo à venda. Separado, junto, rateado. Não sei.

Mas tem tido contactos informais com o Governo.
Não, nem formais nem informais.

Até esteve em Lisboa há pouco tempo.
Lisboa é uma cidade bonita. Mas também tive em Espanha, em Barcelona. Vou para a Áustria agora.

Não contactou já com escritórios de advogados, nomeadamente com a Abreu, por causa da privatização da TAP?
Não contactei ninguém sobre a TAP.

Como avalia o facto de a PGR ter considerado ilegal o acordo que dava 20% do capital da TAP aos pilotos?
Não temos nada contra o facto de os pilotos ou de qualquer outro cidadão terem parte da companhia, mas depende das condições. Quem tiver uma percentagem vai ter de pagar por ela e assumir os riscos dos investimentos. A decisão legal desconheço, assim como o acordo que foi feito. Mas não tenho nada contra.

Desde que paguem…
Exactamente. Eu sempre disse que o caminho para a TAP numa segunda etapa seria colocar uma parte das acções na bolsa de valores. É uma maneira inteligente e eficiente de conseguir capital para fazer a companhia crescer. E não é nenhum pecado se os sócios forem os pilotos, desde que ponham dinheiro.

A venda da ANA ao grupo Vinci foi uma boa decisão?
Foi uma excelente decisão em favor do Estado português. Agora a Vinci, para poder recuperar o investimento, vai precisar que o hub de Lisboa cresça, que o volume tenha um considerável aumento porque senão vai ser muito difícil recuperar o investimento. São gente que sabe o que faz, que tem capital e experiência, mas sem passageiros não adianta.

 

 

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