Os salários dos bancários devem ficar estagnados este ano pelo segundo ano consecutivo, disse em entrevista à agência Lusa o presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), que tem dúvidas sobre a forma como foi conduzido o processo BPN.
“Ainda não está discutido, mas são expectáveis valores muito próximos de zero ou mesmo zero, como no ano passado”, disse António de Sousa quanto aos aumentos salariais para o sector, que deverão começar a ser negociados em breve entre bancos e sindicatos.
Ainda assim, o responsável pela associação que representa os principais bancos a operar em Portugal afirmou que, mesmo sem aumentos, “em média os salários [dos bancários] aumentam quase dois por cento” anualmente em função de factores definidos no Acordo Colectivo de Trabalho do sector bancário, como as promoções automáticas ou as diuturnidades (uma remuneração acessória ao salário do trabalhadores).
Risco de “mais evasão fiscal”
Na entrevista à Lusa o presidente da APB abordou ainda outros temas, como a recente decisão de obrigar a banca a denunciar os pagamentos com cartões, que pode fazer aumentar a recorrente polémica entre a banca e os impostos.
Recentemente foi publicada a Portaria que irá fazer com que a banca passe, obrigatoriamente, a comunicar ao fisco todos os anos os pagamentos realizados nos terminais de pagamento automático, através de cartões de crédito e débito, independentemente do valor.
“Temo que sendo uma medida bem-intencionada crie mais evasão fiscal, passando a haver mais pagamentos a dinheiro”, alerta António de Sousa. Ainda assim, António de Sousa diz que, pelo menos para já, a APB não irá tomar qualquer iniciativa sobre esta medida.
O presidente da APB lembra que “Portugal era tradicionalmente dos países que tinha menos pagamentos a dinheiro”, e alerta para a possibilidade de esta medida levar a que se “faça cada vez mais pagamentos com dinheiro, como acontece em Espanha” de forma a “não deixar rasto em termos fiscais”.
“Demorou-se tempo de mais para tomar decisões” sobre o BPN
Em 2008, a intervenção pública no banco foi defendida por António de Sousa, posição que o presidente da APB continua a reiterar face à necessidade de evitar o “risco sistémico”, mas sem deixar de criticar o arrastar no tempo de um processo que ainda não foi concluído.
“A intervenção pública no BPN foi indiscutível, era fundamental que acontecesse em termos de credibilidade do sistema [bancário]. Como tudo demorou tanto tempo, não sei explicar”, disse António de Sousa, que considera “insuportável” manter os custos de ter o banco a funcionar “sem rentabilidade, sem qualquer actividade”.
Mais de três anos passados sobre a decisão de nacionalizar o BPN, o presidente da APB considera que “é tempo demais para tomar decisões” e que o processo “devia ter sido resolvido em 2009, como anunciado inicialmente”.
Em 2011, o Governo decidiu vender o BPN ao banco de capitais luso-angolanos BIC por 40 milhões de euros, negócio que deverá ser concretizado nas próximas semanas.
bancos não podem financiar mais a economia
António de Sousa diz ainda que não há necessidade de os bancos aumentarem o crédito às empresas, considerando que a melhor forma de financiar a economia é o pagamento a horas pelo Estado.
“Penso que não podemos financiar mais a economia. Uma das críticas à nossa situação é que estamos demasiado endividados, tanto as famílias como as empresas, que têm dos maiores endividamentos de toda a zona euro”, disse quando questionado sobre a necessidade de os bancos aumentarem o financiamento à economia para que esta tenha meios para retomar o crescimento.
E acredita que Portugal vai atingir as metas propostas no acordo com a troika, já que o Governo está a cumprir o “fundamental” ainda que o país dependa de factores que não controla.
Com “tudo o resto constante, as probabilidades de conseguirmos atingir os objectivos são muito elevadas”, disse na mesma entrevista, destacando, no entanto, que há factores externos que o país não controla e que podem vir a ser determinantes no evoluir da situação, como o caso da Grécia.

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