Eurogrupo encosta Grécia à parede e quer cedência já esta semana

Parceiros europeus dizem que Grécia tem de pedir uma extensão do programa da troika até sexta. Varoufakis garante que um acordo será assinado nos próximos dias, mas mantém recusa da proposta do Eurogrupo.

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Jeroen Dijsselbloem diz que a decisão está do lado da Grécia EMMANUEL DUNAND/AFP
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Yanis Varoufakis, ministro das Finanças grego, confia num acordo Emmanuel Dunand/AFP
Jeroen Dijsselbloem e Wolfgang Schäuble esta segunda-feira no Eurogrupo
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Jeroen Dijsselbloem e Wolfgang Schäuble esta segunda-feira no Eurogrupo REUTERS/Francois Lenoir

Ninguém quer chamar-lhe um ultimato, mas a verdade é que é o que parece: os outros 18 membros do Eurogrupo deram quatro dias à Grécia para ceder e acabar por aceitar uma extensão do actual programa da troika, algo que o Governo de Alexis Tsipras desde o início recusou. Caso contrário não há outra forma de continuar as negociações.

Depois do fracasso da reunião de seis horas da passada quarta-feira, os ministros das Finanças da zona euro voltaram a reunir-se nesta segunda e, após apenas 30 minutos de discussão sobre a Grécia, o resultado final foi mais uma vez o mesmo: a incapacidade para chegar a um comunicado conjunto que exprimisse a existência de um acordo político sobre a forma como será gerida a situação grega durante os próximos meses. A diferença é que, para os parceiros da Grécia da zona euro, ficou estabelecido que só há uma solução: a continuação das negociações no âmbito do actual programa da troika, sendo dada como oferta “alguma flexibilidade” na sua aplicação.

Como defendeu o presidente do Eurogrupo no final da reunião, a bola está agora do lado da Grécia e o tempo está a esgotar-se. Para que o pedido de extensão do programa por parte da Grécia possa chegar a tempo de todos os países o aprovarem (alguns nos seus respectivos parlamentos) tem de ser apresentado “até ao final desta semana, mas não mais do que isso”, afirmou Jeroen Dijsselbloem. A possibilidade de realização de uma nova reunião extraordinária do Eurogrupo na sexta-feira ficou em aberto, “mas apenas se a Grécia entretanto fizer o pedido de extensão do programa”.

O que fará então a Grécia? Yanis Varoufakis, na conferência de imprensa a seguir à reunião do Eurogrupo, recusou as ideias de que Atenas esteja perante um ultimato e de que foi a Grécia que ficou com a bola do seu lado. “A história da UE mostra que nada de bom sai de ultimatos. Tenho a certeza de que qualquer ideia de um ultimato vai desaparecer nos próximos dias”, afirmou o ministro das Finanças grego, acrescentando que “falar sobre quem tem a bola na mão faz com que isto pareça um jogo”. “Nós não temos o direito de fazer jogos com o futuro da Europa”, disse.

Sobre se irá pedir ou não uma extensão do actual programa da troika nos próximos dias, a resposta não foi conclusiva. Varoufakis disse não ter dúvidas de que um acordo vai ser assinado nos próximos dias, mas ao mesmo tempo reafirmou que seria simplesmente errado para o Governo grego aceitar uma extensão inalterada do programa depois de ter ganho umas eleições baseado na sua completa reforma.

O ministro grego aumentou ainda mais o mistério, ao dizer que tinha recebido do comissário europeu Pierre Moscovici no início do dia uma proposta de acordo que estava preparado para assinar de imediato, mas que esta foi retirada por Dijsselbloem e substituída por outra, que acabou por não ser aceite pela Grécia. Não ficou claro, contudo, qual a diferença entre as duas propostas.

O que se sabe, para já, é que o que está em causa neste momento nas negociações não é a definição em concreto de um programa para a Grécia. Os que os ministros das Finanças estiveram a discutir foi como é que nos próximos quatro meses a Grécia vai conseguir assegurar o financiamento de que precisa, enquanto discute com os parceiros europeus um eventual novo programa para o médio prazo.

Os membros do Eurogrupo ficaram descontentes com o facto de, após alguns dias de trabalho entre a troika e o Governo grego, não ter ficado estabelecido que diferenças existiam realmente entre o actual programa e aquilo que são os novos planos de Atenas. E depois, numa posição que foi defendida também por Pierre Moscovici, concordaram (excluindo obviamente a Grécia) que, para continuarem a discutir o que é que pode ou não ser alterado no programa, a única forma de o fazer é estender o seu prazo de validade, o que implica que a Grécia vai ter, de uma forma ou de outra, de voltar a cumprir algumas condições. “É uma necessidade, nós funcionamos com regras e elas têm de ser respeitadas”, disse o comissário europeu.

Segundo Jeroen Dijsselbloem, com o pedido de extensão tem de vir um compromisso da Grécia de que tem vontade de cumprir as condições incluídas no programa, incluindo as metas orçamentais, sendo oferecida contudo “alguma flexibilidade”.

E o que é o Eurogrupo quer dizer com “alguma flexibilidade”? É a possibilidade que é dada a um país para negociar com a troika a substituição de determinadas medidas por outras que produzam o mesmo tipo de efeito, nomeadamente a nível orçamental. É uma flexibilidade que sempre foi dada nos programas da troika, incluindo em Portugal.

O Governo grego não gostou da oferta. O que recebemos foram “palavras nebulosas sobre alguma flexibilidade”, disse Yanis Varoufakis, que defendeu que os parceiros europeus têm de explicar em concreto o que é que pode ser mudado no programa. “Podemos repor as pensões, por exemplo?”, perguntou na conferência de imprensa.

Ainda assim, do lado de Varoufakis, foi notória a existência de alterações de discurso com vista à obtenção de algum tipo de acordo com os parceiros europeus. O ministro disse que está pronto para assinar um entendimento em que a Grécia se comprometa a continuar a cumprir todos os pagamentos da dívida, a não adoptar medidas não negociadas com os parceiros e, mesmo, a aceitar novas condições que seja exigidas pelos seus parceiros. O que não quer, aparentemente, é que o ponto de partida sejam as condições que estão estabelecidas no actual programa.

Pelo meio de mais um dia de impasse, fica o ambiente cada vez mais crispado entre os responsáveis das Finanças da Alemanha e da Grécia. De manhã, numa entrevista a uma rádio alemã, Wolfgang Schäuble fez um comentário bastante crítico ao Governo grego: “Tenho pena dos cidadãos gregos. Elegeram um Governo que, de momento, se comporta de uma forma bastante irresponsável”.

Ao fim do dia, Yanis Varoufakis respondeu. “Apresentarem o crescimento real do PIB em 2014 (com variação negativa em termos nominais) como um grande sucesso e dizerem que o problema é um governo que é irresponsável é um atentado à verdade e à democracia”, disse.

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