Eduardo Lourenço espera que as actuais dificuldades sejam resolvidas em democracia

Eduardo Lourenço: “Enquanto se está vivo, tem-se sempre projectos” Nélson Garrido

Eduardo Lourenço afirmou nesta quarta-feira que a actual situação de Portugal “preocupa todos” e espera que “todas as dificuldades sejam resolvidas em função” da democracia, que “é ainda recente no nosso país”.

O ensaísta, que completou recentemente 90 anos, falava à Lusa à entrada da Biblioteca Nacional, em Lisboa, onde orientou uma visita à exposição sobre a sua obra, patente na sala de referência desta instituição.

“Todo o país está preocupado, mas nós vivemos desde o 25 de Abril [de 1974] num sistema democrático e o que é de esperar é que todas as dificuldades sejam resolvidas em função dessa novidade para nós, que ainda não tem muitos anos de passado, chamada democracia”, disse.

Questionado sobre se temia que este respeito pela democracia não venha a acontecer no futuro, Eduardo Lourenço respondeu: “Há sempre essa possibilidade. A nossa História ensina-nos isso. É um aviso à navegação”.

Eduardo Lourenço chegou pontualmente de táxi, sem se fazer anunciar, e dirigiu-se ao grupo de cerca de 50 pessoas, entre as quais a directora da biblioteca, Maria Inês Cordeiro, que o esperavam no átrio da biblioteca.

Em seguida, percorreu a exposição, tecendo comentários e fazendo algumas revelações, a propósito dos livros expostos ou de outros documentos, como cartas, dactilo-escritos e apontamentos de projectos como o do conto, que nunca acabou, Jesus Cristo fugiu de automóvel, de 1951. Perante o esboço de Nous Poetikos, de 1948, exclamou: “Quanto descaramento, um segredo, uma petulância!”


Durante a conversa, contou que Bordéus “foi a primeira cidade fora de Portugal que conheceu”, isto a propósito de um texto que publicou sobre Michel de Montaigne, o pensador francês ao qual se referiu como “uma espécie de Voltaire do século XVI”. “Mas depois descobri que era muito mais que isso e tinha outra faceta”, rematou.

Durante a visita, que contou com a presença de dois antigos directores da Biblioteca Nacional, Carlos Reis e Jorge Couto, o autor de Labirinto da Saudade revelou a sua “paixão, até à cova”, pela pintura de Paul Klee, que qualificou como “um pintor puramente intelectual, o mais abstracto possível”.

Outra pintora de que gosta é “a nossa [Helena] Vieira Silva”, que confessou que não conhecia e com a qual se cruzou algumas vezes, uma delas num avião, em que a pintora ia acompanhada de Amália Rodrigues.

“A D.ª Amália era uma cantora, ouvia-se, a Vieira da Silva estava em silêncio. Mesmo quando aparecia na televisão, via-se-lhe aquele olhar – eu chamo-lhe a 'Nossa Senhora do Silêncio'”, contou.

A propósito de um texto seu sobre André Malraux, Lourenço disse que o influenciou muito “na reflexão de ordem estilística e pictoral, mas não tanto como Vergílio Ferreira”.

A exposição, intitulada Eduardo Lourenço: Um Tempo e as Suas Cinzas, está patente até 13 de Julho e celebra o 90.º aniversário do autor de Heterodoxias, completado no passado dia 29 de Maio.

Eduardo Lourenço afirmou que “fazer anos é uma coisa que não podemos impedir que nos aconteça se tivermos um bocado de sorte” e acrescentou: “Deve ser o meu caso, e com uma vitalidade que me surpreende a mim próprio”.

“É um contentamento egoísta e egotista e, ao mesmo tempo, quase uma espécie de remorso, por ter sobrevivido tantos anos aos meus pais, tantos anos”, disse. “Tenho mais do dobro da idade que os meus pais tinham quando morreram”, disse.

Quanto a projectos, afirmou que “obras há sempre”. “Enquanto se está vivo, tem-se sempre projectos”. “O mais difícil é surpreender-me a mim próprio”, rematou.
 
 
 

Comentários

Comentar

Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários.

Caracteres restantes:

Nos Blogues