É preciso acabar "com dependência do Estado" em matéria de inovação, diz director da Autoeuropa

O painel de opinião do Barómetro de Inovação da Cotec deu uma classificação negativa à inovação em Portugal.

Daniel Rocha

O director-geral da Autoeuropa afirmou nesta terça-feira que "há que acabar de uma vez por todas com a dependência do Estado" quando falava sobre políticas de inovação para Portugal, acrescentando que estas devem ser "geradas pelas empresas e pela sociedade".

António Melo Pires, que falava aos jornalistas sobre o resultado do painel de opinião do Barómetro de Inovação da Cotec Portugal – Associação Empresarial para a Inovação, disse que Portugal continua "a sofrer da dependência do Estado" e que tal situação "não nos vai levar a lado nenhum", acrescentando ter "uma visão muito crítica na gestão da inovação". Isto porque, segundo o responsável pela fábrica da Volkswagen em Portugal, "o Estado injecta dinheiro público e não o controla", pelo que é necessário "questionar os incentivos à inovação e saber se têm resultados práticos". Adiantou ainda ser inaceitável que "não existam metas nem métricas para ver se os fundos estão a ser bem aplicados", acrescentando, no entanto, não ver outra forma de a indústria portuguesa se impor "que não seja pela inovação".

Mais positivo foi Carlos Faro, presidente da Biocant, que entende que, "apesar do contexto macroeconómico e da inabilidade política para lidar com a inovação, Portugal tem ainda um pouco de talento". O responsável pelo centro de Inovação em Biotecnologia indicava que Portugal tem a geração mais bem preparada dos últimos anos", mas "existem debilidades em termos de gestão do sistema e isso tem a ver com a capacidade de avaliar". E deu um exemplo: "Um colega meu estrangeiro dizia que os portugueses são óptimos a lavar as mãos, mas esquecem-se de puxar o autoclismo".

Já segundo Francisco Veloso, director da Católica - Lisbon School of Business and Economics, Portugal tem o problema de poucas empresas "que criem valor acrescentado", em que a política da inovação "está centrada nas empresas existentes". Entendendo que "continua a haver uma impossibilidade do Governo pensar uma política de inovação – é um assunto tabu para o Governo" –, considera, no entanto, que "houve uma enorme evolução de toda a actividade empreendedora em tempo de crise".

Daniel Bessa, responsável pelo Barómetro de Inovação da Cotec, fez uma avaliação do Painel de Opinião, onde estão presentes 24 individualidades relevantes na sociedade portuguesa, desde empresários, gestores, académicos, jornalistas e agentes culturais.

O economista revelou que, no global, o painel deu uma classificação negativa à inovação em Portugal, já que com notas de 1 a 7, a média foi de 3,65, um valor menor em relação às últimas três edições. "É um resultado negativo. Não há aqui surpresa nenhuma e das respostas recolhidas há uma variável avassaladora que é o financiamento, consequência das dificuldades financeiras em matéria de inovação, muito do lado do Estado e das políticas públicas", sublinhou.

Anunciando que vai enviar os resultados do painel ao ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, e ao secretário de Estado da Inovação, Franquelim Alves, terminou dizendo que "ninguém está à espera de ter uma receita" e que "há muito trabalho a fazer".

O painel de opinião, do qual fazem parte também, por exemplo, a artista plástica Joana Vasconcelos, Luís Portela, da Bial, Paulo Azevedo, da Sonae, Paulo Pereira da Silva, da Renova, entre outros, pronuncia-se regularmente sobre um conjunto de questões fixas, susceptíveis de permitir uma comparação longitudinal de posições e avaliações, e questões variáveis, relativas a temas considerados de oportunidade relevante pela Cotec.
 
 

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