Compra de dívida pelo BCE pode ser como uma “droga”, avisa o Bundesbank

Weidmann votou contra as últimas decisões de política monetária do BCE AFP/Eric Piermont

O presidente do banco central alemão, Jens Weidmann, voltou hoje a levantar reservas em relação a futuro programa de compra de obrigações do Banco Central Europeu. A aquisição de dívida pública no mercado por parte da instituição, avisou, irá tornar os países do euro dependentes do BCE “como uma droga”.

“Uma política desse tipo é para mim como o financiamento estatal através da máquina de impressão de dinheiro”, criticou Weidmann, em declarações à publicação alemã Der Spiegel, que a agência EFE cita.

Para o presidente do Bundesbank, que votou contra as últimas decisões de política monetária do BCE, se os bancos centrais da zona euro adquirirem dívida pública de determinados países, “os títulos acabarão no balanço do sistema do euro” e, “no final, deverão responder aos contribuintes dos restantes países”.

Da reunião de Agosto do Conselho de Governadores do BCE saiu o anúncio de que o BCE vai preparar um novo modelo de compras de dívida pública, potencialmente mais eficaz do que o anterior, mas que apenas será accionado se os países em dificuldades recorrerem aos fundos de resgate europeus.

Jens Weidmann volta agora a acentuar a oposição alemã à ideia de o BCE assumir um papel mais interventivo na resolução da crise das dívidas, que nos últimos meses colocou mais pressão sobre Espanha e Itália. “Nas democracias, devem decidir os parlamentos e não os bancos centrais sobre uma tão ampla combinação dos riscos”, afirmou, insistindo que este modelo não é a forma de resolver os problemas. “A chuva de dinheiro dos bancos centrais nada mais faria do que despertar ambições já existentes”.

“Não deveríamos desvalorizar o perigo de que o financiamento através dos bancos centrais pode criar dependência como uma droga”, ameaçando a independência do BCE, acrescentou.

Apesar de tudo, Weidmann entende que não existe um risco imediato de inflação, mas adverte que “se a política monetária for manipulada para converter-se na solução política dos problemas, acabará vendo os seus objectivos relegados para segundo plano”.

O presidente do banco central alemão opõe-se a que o BCE se veja comprometido a “garantir a qualquer preço a permanência dos Estados membros na zona euro”. Considera que na hora de se decidir se a Grécia deve permanecer ou não na zona euro, o BCE “deve ter uma intervenção que não comprometa a confiança na construção da união monetária e que permita manter a credibilidade das condições político-económicas dos programas de ajuda”.

As declarações de Jens Weidmann são conhecidas no mesmo dia em que, também na Der Spiegel, é avançado que a chanceler alemã, Angela Merkel, quer que os líderes da União Europeia (UE) cheguem a acordo ainda este ano sobre um grupo de trabalho para um novo tratado que reforce a integração dos 27 países-membros. A publicação avança que o assessor da chanceler para a política europeia, Nikolaus Mayer-Landrut, já deu a conhecer esta intenção aos parceiros europeus em conversações em Bruxelas.

Segundo a Der Spiegel, Merkel pretende que na cimeira da UE que se realiza em Dezembro se estabeleça uma data concreta para a convocatória do grupo de trabalho que irá redigir um novo tratado para a UE.

Merkel tem pressionado desde há algum tempo os seus parceiros europeus para completar o pacto orçamental acordado entre 25 países da UE para uma maior união política, de acordo com a mesma fonte.

A revista destaca que a iniciativa alemã não foi bem recebida por parte dos parceiros europeus e que num encontro do chamado ‘grupo do futuro’, uma reunião informal de trabalho de dez ministros dos Negócios Estrangeiros, a maioria recusou a proposta apresentada pelo ministro alemão, Guido Westerwelle.

O artigo refere também que países como a Irlanda querem evitar o risco de convocar um novo referendo, uma obrigação imposta em caso de um novo tratado, e outros países, como a Polónia, são contrários à iniciativa de Merkel por considerarem que são escassas as possibilidades de um compromisso entre os 27 países da UE.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues