Brasil acusa EUA de começar guerra cambial

Depois do Banco Central Europeu e da Reserva Federal americana, o Banco do Japão também injectou liquidez Ueslei Marcelino / Reuters

Programa de estímulo monetário norte-americano preocupa o Brasil, que teme perder mercado com a desvalorização do dólar. As acusações de proteccionismo surgem dos dois países, depois do embaixador norte-americano criticar impostos sobre as importações brasileiras.

Guido Mantega está convencido de que o novo programa da Reserva Federal norte-americana (Fed) vai afectar a quota de mercado externo do Brasil e alerta para o início de uma “guerra cambial”. O ministro brasileiro da Fazenda critica a decisão da Fed e diz que os EUA estão a assumir uma postura proteccionista.

Em entrevista ao Financial Times publicada nesta sexta-feira, Guido Mantega explica que não existe falta de liquidez no mercado dos EUA e que, à falta dessa razão, acredita que os norte-americanos querem apenas aumentar a produção de dólares para que a moeda desvalorize e as exportações do país aumentem.

Depois da entrevista ao diário britânico, Guido Mantega admitiu ainda, ao início da tarde de sexta-feira, em Londres, que o Brasil estaria disposto a comprar mais reservas em dólares e a actuar no mercado de derivativos de forma a proteger a sua moeda e as suas exportações, reporta a Lusa.

A 13 de Setembro, a Fed – que funciona como um banco central - anunciou um novo programa de compra de títulos do Tesouro, o QE3 (Quantative Easing 3). À semelhança do mecanismo anunciado pelo Banco Central Europeu no início do mês, o programa da Fed tem a particularidade de assegurar uma linha de crédito ilimitada, que, neste caso, se compromete a comprar 40 mil milhões de dólares em títulos do Tesouro todos os meses (30,78 mil milhões de euros à taxa actual).

Tal como os bens, as taxas de câmbio das moedas são influenciadas pela lei da oferta e da procura. Ao colocar mais dólares em circulação, a Fed está, essencialmente, a fazer desvalorizar a moeda, o que vai tornar as exportações norte-americanas mais baratas e os EUA mais competitivos aos olhos dos mercados internacionais.

Em contrapartida, o Brasil sai prejudicado, tornando-se o Real mais caro do que o dólar e as suas exportações menos competitivas.


Propagação da guerra cambial

Depois do Banco Central Europeu e da Fed norte-americana, também o Banco do Japão (BoJ) decidiu um pacote de estímulo monetário para a economia nipónica, uma quantia mais alta do que o próprio ministro das finanças japonês estava à espera: 10 biliões de ienes, segundo a BBC (cerca de 97 mil milhões de euros).

Tal como a Fed, também o BoJ decidiu manter as taxas de juro muito perto do zero.

Guido Montega alerta para o alastramento da guerra cambial, dizendo que “é natural que os países se defendam destas atitudes, que não trazem necessariamente benefícios directos nem vão recuperar os mercados locais, mas vão estimular as guerras cambiais”, escreve a Lusa.


Mal-estar nas relações comerciais entre Brasil e EUA

Ron Kirk, o embaixador norte-americano no Brasil, enviou uma carta ao Governo de Dilma Rouseff onde critica a postura “proteccionista” adoptada pelo executivo brasileiro, no seguimento de uma subida nas tarifas sobre as importações brasileiras, escreve hoje o Folha de São Paulo .

O ministro das Relações Exteriores do Brasil respondeu às acusações com outra carta. Nela, Antonio Patriota refere o problema da desvalorização manipulada do dólar e da subsequente valorização artificial do Real, resultados da decisão da Fed.

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