O banco britânico e António Horta Osório negoceiam o seu regresso à presidência do Lloyds, com os accionistas a imporem acompanhamento no dia-a-dia para o aliviar do stress.
O CEO do Lloyds, António Horta Osório, que suspendeu as funções no final de Outubro, por motivos de saúde, vai ter de entregar ao conselho de administração “provas médicas” de que está em condições de regressar ao trabalho. A informação está a ser divulgada pela BBC, e reproduzida pelo site do Jornal de Negócios, e vem em linha com uma notícia do PÚBLICO publicada terça-feira.
A BBC informa que Horta Osório, que há cerca de um ano saiu do grupo Santander para ingressar no Lloyds, quer voltar ao grupo britânico, mas para que isso aconteça a administração quer provas de que está em condições de exercer as suas funções e de resistir à pressão. Os 11 membros do conselho de administração querem entrevistar Horta Osório, de 47 anos, de modo a assegurar que este goza de boa saúde e que não voltará a “colapsar física e mentalmente”.
O maior grupo britânico, que foi intervencionado na sequência da crise de 2008, solicitou um relatório médico independente, para atestar que Horta Osório está em condições de regressar ao trabalho. Ao decidirem tornar pública esta intenção, os accionistas deixam avolumar as dúvidas sobre a sua real vontade de manter o gestor no grupo britânico.
Na edição de 6 de Dezembro, o PÚBLICO noticiou que o Lloyds está a negociar o regresso, logo a seguir ao Natal de António Horta Osório à liderança do banco britânico (que poderá ocorrer a 27 de Dezembro), mas em termos distintos dos acordados inicialmente, nomeadamente no que respeita às condições em que vai exercer as funções e à sua remuneração.
O banco já comunicou que quer nomear um quadro de topo para acompanhar Horta Osório, com a finalidade de o "aliviar" da pressão do dia-a-dia. Na semana passada, o Financial Times noticiou que o Lloyds estava a estudar uma forma de reduzir a carga de trabalho do CEO, isto para garantir "um regresso tranquilo" e estava a equacionar criar a figura "de chefe de operações" com responsabilidades perante a administração. O Lloyds aproveitou para informar que embora Osório esteja a recuperar bem, "é evidente que não poderá voltar nas mesmas condições."
Banco quer gestor a tempo inteiro
Recorde-se que no último fim-de-semana de Outubro, Horta Osório colapsou e foi internado em Londres numa clínica de recuperação do sono. A 2 de Novembro, o banco anunciou que o seu CEO estaria fora durante oito semanas para recuperar de um esgotamento. O gestor, que se mantém ainda de baixa, voltou para a sua casa na capital inglesa e deslocou-se recentemente a Itália, a Florença, para descansar. O quadro negocial que está a decorrer é complexo com o Lloyds a querer repensar a estratégia remuneratória acordada em Março com Horta Osório.
Na altura, o banco revelou que o CEO iria receber um total de 4,6 milhões de libras (5,22 milhões de euros) por ano, entre salário, prémios e planos de reforma. Um pacote onde se incluem 3,6 milhões de libras em acções e 516 mil libras a receber em dinheiro entre 2011 e 2013. O salário anual será de 1,06 milhões de libras (1,20 milhões de euros), e o bónus máximo anual de 2,4 milhões de libras.
Segundo a instituição londrina, os prémios serão pagos em função do cumprimento de objectivos previamente fixados e que não estarão a ser cumpridos. Os termos de uma indemnização de saída estarão também em cima da mesa.
Outra questão em discussão está relacionada com uma exigência que o banco faz de que a partir de agora o presidente se dedique a tempo inteiro às suas funções. Esta "imposição" pode implicar a saída do gestor português da Fundação Champalimaud, onde é administrador não executivo.
Contestação interna
De acordo com o que tem circulado na imprensa, a liderança de Horta Osório estava a ser alvo de contestação interna, nomeadamente, pelas dificuldades que estava a sentir para pôr em prática o seu plano de reestruturação, que prevê o despedimento de 15 mil colaboradores. A meio de Outubro, a Fitch avançou com o corte do rating do Lloyds.
Os seus métodos "agressivos" de dispensa de pessoal estavam também a gerar controvérsia dentro do Lloyds. Uma das decisões mais polémicas e que transpirou para fora, prendeu-se com o despedimento do director financeiro, Tim Tookey, o homem a quem o Lloyds recorreu, ainda que a título temporário, para substituir Osório quando este entrou de baixa médica.
A iniciativa levantou logo dúvidas sobre se os accionistas apoiariam a estratégia seguida por Horta Osório, ideia que se consolidou quando a edição online do Financial Times, citando fontes anónimas, mencionou quebras por stress "devido ao excesso de trabalho".
Uma declaração que pode ser vista como uma avaliação negativa da capacidade de um gestor para resistir à pressão. Segundo o editor de Economia da BBC, Robert Peston, Osório estava "exausto física e mentalmente" e "a grande questão" é saber se "vai alguma vez voltar", pois talvez não haja possibilidades de poder "fazer o trabalho no Lloyds de uma forma que reduza o stress e as pressões sobre ele próprio"

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