Opinião

A nomeação de alguém experiente

Gostaria de perceber melhor o desconforto de tantos na escolha para o Governo de alguém que foi gestor de topo do grupo SLN/BPN. Entenderia melhor que não o tivessem convidado e mais ainda que ele tivesse recusado, mas o tom de todas as criticas é para mim muito mais revelador e preocupante do que a própria nomeação.

Como gestor, acompanho com interesse a organização do Governo, comparo-a, por deformação profissional, com o modelo utilizado nesta ou naquela empresa e interessa-me fundamentalmente se lhe assiste a bondade de conseguir ser eficaz nos objectivos que se propõe, mesmo que não sejam os que mais gostaria. A escolha das pessoas será ainda mais determinante do que o modelo de Governo. Este homem foi escolhido para secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação, uma nova secretaria criada por este Governo, a que reconheço o interesse, até pelo título, mas que, como em tudo, depende muito de quem assume a sua liderança.

Esta secretaria de Estado, que foi conduzida até agora pelo eng. Carlos Nuno Oliveira, dos mais jovens membros do Governo de sempre, que tinha como principal feito, na sua curta experiencia profissional, a participação na criação da empresa MobiComp, que, a partir de um capital mínimo de €5.000, conseguiu um tremendo sucesso na produção de software para telemóveis, acabando por ser vendida, oito anos depois, à gigante Microsoft, diz-se que por um valor na ordem das dezenas de milhões de euros. Não estou a menosprezar o sucesso deste empresário, os números atestam bem a mais-valia deste seu projecto, foi até condecorado por isso em 2006, pelo Presidente da Republica, com a Ordem do Mérito, e o facto de os projectos em que se envolveu desde então não se revelarem em nada extraordinários assiste-lhe o merecimento do invulgar sucesso económico que já produziu.

O que está em causa é se esta experiência profissional de alguém com preparação académica em Engenharia de Sistemas e Informática seria a melhor escolha para uma recém-criada Secretaria de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação. Sabemos que foi convidado a sair passado menos que dois anos, o que ilustra a avaliação que terão feito à sua obra. Pessoalmente, reconheço-lhe alguma capacidade para o que fez, nomeadamente em missões de promoção como a que fez em Silicon Valley e em inúmeras visitas que fez pelo país, em especial a empresas e empreendedores nas áreas tecnológicas e também à comunidade académica e científica. Parece-me evidente alguma concentração numa determinada área económica, mas perfeitamente coerente com a sua formação e a sua experiência.

Na renovação do Governo é então nomeado para substituir o eng. Carlos Oliveira o dr. Franquelim Alves, e é, na minha opinião, inevitável que se compare o que os distingue, em particular o seu percurso e a sua formação, de forma que se consiga antever as diferenças na condução das políticas no âmbito do funcionamento desta secretaria de Estado.

As opiniões dos políticos surgiram de imediato: foi gestor da Sociedade Lusa de Negócios, principal accionista do Banco Português de Negócios, durante nove meses, e, como tal, não tem credibilidade, confiança nem as condições políticas para exercer o cargo de secretário de Estado. Bem ou mal, são eles que decidem, e, por isso, é bem natural que não venha mesmo a ter condições políticas de exercer o que lhe foi pedido, mas, mesmo assim, acho ridículo como pode uma coisa destas definir por si o perfil de alguém, ao ponto de chegar a ter mais peso do que a capacidade técnica para o cargo em questão.

Há uma coisa que me faz uma enorme confusão: será que esta gente que tanto critica o passado deste homem achava que quando ele foi convidado para a área não-financeira da SLN já sabia do emaranhado dos buracos que lá iria encontrar? Que eu me lembre, estamos a falar da época pós- Oliveira Costa, e que tipo de perfil diferente do que tinha o dr. Franquelim Alves deveria ter sido escolhido? Ou achará esta boa gente que foram os nove meses que foram exagerados? Que ele deveria, no dia que entrou, ter a capacidade de analisar e denunciar o que a casa gastava? Tenham paciência, isto é discurso típico de quem nunca fez nada. Poucos ou nenhum dos que o criticam teriam a capacidade e a experiência para poderem ter sido convidados para esse lugar e, mesmo que, por absurdo, o tivessem sido, alguém teria feito mais naqueles nove meses?

Eu entendo e comungo da frustração que muitos sentem de todo o processo da SLN e do BPN, em que milhares de pessoas foram efectivamente roubadas em esquemas que, independentemente do aspecto jurídico, eram efectivamente fraudulentos. Custa reconhecer que vivemos numa sociedade que permitiu tudo isto e que não tem, por certo, meios ou capacidade de repor o que de tão mal foi feito, mas, daí a caracterizarmos alguém como o novo secretário de Estado de falta de credibilidade e inabilidade política vai toda a distância.

O dr. Franquelim Alves tem uma vida profissional de mais de 40 anos e só uma capacidade invulgar lhe permitiu ocupar os lugares que já ocupou e produzir a obra que já fez. Teria, na minha opinião, todas as características e habilidade técnica para um excelente lugar em prol do empreendedorismo, da competitividade e da inovação, que tanto precisamos, mas não, passou na SLN, passou desgraçadamente a não ter condições para fazer parte de um Governo que o escolheu, dizem aqueles que se devem achar melhor do que ele. Tristes, e como o dizem convictos, tristes mesmo.

Não conheço pessoalmente nem o eng. Carlos Nuno Oliveira nem o dr. Franquelim Alves, tenho uma opinião dos dois pelos percursos públicos das suas vidas. Dos políticos que os criticam tenho também o mesmo tipo de conhecimento e não lhes reconheço qualquer exemplo de vida que lhes assista a capacidade de maldizerem quem já fez por este país muito mais do que eles um dia farão se continuarem com o percurso que têm escolhido. Francamente, não sei o que nos ficará mais caro: o que perdemos e continuamos a perder com o BPN, de que nos obrigaram a ser accionistas, ou com este destino insólito de podermos apenas ser governados por quem nunca tenha feito nada.

Consultor em projetos de investimento e seguros de crédito
 

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