Ficou muito por conhecer da consola com que a Sony quer ultrapassar um momento de transformação da indústria, numa altura em que os jogos móveis e online se assumem cada vez mais como concorrentes
A PlayStation 4 chega numa altura difícil para a Sony e num momento de mudança no mercado dos videojogos. A multinacional japonesa tem prejuízos há três anos consecutivos e espera que a nova PlayStation ajude a reequilibrar as contas. Mas a indústria mudou muito desde que a lucrativa PlayStation 3 foi lançada, há mais de seis anos. Agora, a concorrência é diferente.
De acordo com a consultora PwC, este será o ano em que a facturação conjunta dos jogos em tablets e smartphones e dos jogos online (dos que se jogam dentro do Facebook aos que estão em sites a eles dedicados) vai ultrapassar a facturação dos jogos para consolas e PC. Estes estão em queda desde 2008, mas deverão agora voltar a crescer, graças às novidades que as três grandes fabricantes de consolas vão ter no mercado. Os dois segmentos terão uma evolução positiva até 2016 (o último ano das previsões), embora as consolas e os computadores fiquem cada vez mais longe das plataformas móveis e do online.
Globalmente, a indústria dos videojogos representará em 2013 cerca de 48 mil milhões de euros. Daqui a três anos, estará perto dos 60 mil milhões. Por comparação, a indústria dos filmes (das bilheteiras ao aluguer) vai facturar 76 mil milhões em 2016, segundo a PwC.
Com a PlayStation 4, a Sony entra na oitava geração de consolas. A geração anterior foi a mais longa: a PS3 e a Nintendo Wii foram lançadas em 2006, e a Xbox 360, da Microsoft, em 2005. Desde então, segundo dados dos próprios fabricantes, foram vendidos 99 milhões de Wii, 70 milhões de PS3 e 76 milhões de Xbox 360 (os números da consola da Sony não incluem as vendas do último trimestre de 2012). O ano de ouro, de acordo com a analista IDC, foi 2008: 55 milhões de vendas. Em 2012, este número caiu para 34 milhões.
Uma nova consola doméstica significa um grande investimento por parte dos fabricantes e é uma aposta para vários anos. Mas a conferência de apresentação da PS4, na quarta-feira, em Nova Iorque, foi uma desilusão: durou duas horas e a Sony revelou pormenores, mas não mostrou sequer fotografias da consola, exibindo apenas imagens de jogos, especificações técnicas e o novo comando. A revista americana PopSci descreveu-a como "a pior conferência de imprensa de sempre". O analista da Gartner Michael Gartenberg classificou-a, no Twitter, como "tédio puro". Ouvido pela Bloomberg, um analista da BGC Partners, afirmou que "a experiência melhorada da PlayStation simplesmente não é revolucionária para conseguir superar as grandes disrupções que a indústria enfrenta".
Para Nélson Zagalo, professor na Universidade do Minho e presidente da Associação Portuguesa de Ciências dos Videojogos, a ausência da PS4 na apresentação foi "um momento estranho" que ajudou a revelar o "vazio no lançamento desta nova geração" de consolas. O académico considera que o novo modelo, "em termos de qualidade técnica e gráfica, não vai trazer nada face à PS3". Na apresentação, a Sony frisou os 8GB de memória, o novo processador (semelhante ao dos computadores, para facilitar a criação de jogos) e a capacidade da placa gráfica. Porém, houve na imprensa especializada quem afirmasse que os jogos já têm gráficos sofisticados e que os jogadores não estão interessados em ter mais pixeis no ecrã, ideia que Zagalo também defende. Porém, observa, "as consolas vendem-se pelos jogos e a Sony tem as grandes editoras atrás".
Com este novo modelo, a PlayStation está a dar "o salto para o online", afirma Nélson Zagalo, observando que isto era algo que os fabricantes já tinham prometido na sétima geração, mas que não concretizaram inteiramente. A Sony anunciou que muitos jogos poderão ser experimentados em streaming antes de serem comprados e esta deverá ser a única opção para jogar títulos da PS3 no novo modelo. Também será possível começar jogos comprados online ainda antes de estes terem sido inteiramente descarregados e os jogadores poderão partilhar vídeos do que estão a jogar.
Mau começo
A oitava geração não teve um bom arranque. A Nintendo Wii U chegou em Novembro, tendo como grande novidade um comando com um ecrã integrado. A procura acabou por ficar abaixo do que a empresa esperava.
Até 31 de Dezembro, foram vendidas pouco mais de três milhões de unidades, o que levou a um corte nas previsões de vendas para o ano fiscal de 2013 (que termina em Março), de 5,5 para quatro milhões de unidades. A indústria está agora à espera que a Microsoft mostre a próxima Xbox em Junho, na feira E3, o maior evento do sector. A Sony disse que a PS4 chegará a tempo da época natalícia e é praticamente certo que acontecerá o mesmo com a Xbox.
Por revelar ficou também o preço da PS4, um factor importante, já que as consolas são habitualmente vendidas abaixo do preço de custo, com os fabricantes a fazerem dinheiro na venda de jogos - e vender consolas com prejuízo significa uma maior pressão imediata nas contas. No trimestre passado, a empresa teve prejuízos de 88 milhões de euros, 15 vezes menos do que no mesmo trimestre de 2011. Mas a Sony - que se tem ressentido com a valorização do iene e a crise mundial, entre outros factores - conta fechar o ano fiscal com lucros.

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