O vinho sofre também com a imagem de fraqueza que o país transmite para o exterior

O principal problema é a falta de conhecimento. O sucesso passa pelos vinhos de lote, diferenciados e com mais visibilidade externa

João Pires é uma estrela no mundo dos vinhos. O único Master Sommelier da Península Ibérica, que trabalha em Londres e coordenou os júris do Concurso Nacional de Vinhos, partilhou com o PÚBLICO a sua visão sobre os vinhos portugueses.

Que papel podem ter os vinhos portugueses no mundo?

A nossa posição no contexto internacional, devo confessar, não é famosa. Com a excepção do vinho do Porto e, possivelmente, do Mateus Rosé, não são conhecidos. Agora, devo também dizer que neste aspecto estamos melhor que nunca. As pessoas estão hoje muito mais abertas e os profissionais conhecem relativamente bem o vinho português. Mas nós sabemos que a imagem do vinho não se faz com profissionais, faz-se com o mercado, com o consumidor normal. E isso não tem nada a ver com a qualidade, que é hoje muito boa, mas antes com uma certa forma de posicionar a imagem. E eu penso que o vinho sofre também de alguma forma com a imagem de fraqueza do país. E não é só o vinho que sofre.

Que há a fazer para reverter este estado de coisas. Mudar o estilo de vinhos?

Não, não! Eu acho que Portugal está a trabalhar bem. Houve uma altura, aqui há uns anos, que se começou a fazer indiscriminadamente cabernets e chardonays porque se pensava que era a maneira mais fácil de entrar nos mercados internacionais. Foi um erro, toda a gente percebeu isso. Não quer dizer que não se façam vinhos bons, mas a ideia é Portugal reforçar a imagem do seu património, o que a meu ver não passa por um vinho varietal...

É contra vinhos de uma só casta?

A nossa tradição são os vinhos de lote. É claro que há excepções, temos o Alvarinho, o Arinto, mas a tradição portuguesa são os vinhos de lote. Tem a ver com uma cultura forte, gastronómica e em termos de tradição vitivinícola. As técnicas evoluíram mas os terrenos estão cá e há um conhecimento que é ancestral. Veja-se o que se passa com a França, ninguém conhece o Sauvignon Blanc, o Sancerre, ou o Chadonay da Borgonha. Exactamente porque nós somos também um país de cultura ancestral e gastronómica a todos os níveis, eu penso que o caminho não passa pelos varietais.

E em termos de imagem, deveremos privilegiar o país como um todo ou apostar mais na variedade e diversidade regional?

Eu acho que devemos apostar pela diferenciação, pelas regiões. Nalguns casos obviamente tem que ser pelas castas, pelos produtores, pela diferença no estilo de vinho, mas nunca pela generalização.

Costuma servir vinhos portugueses em Inglaterra?

Alguns, não muitos. E quase sempre por minha iniciativa, já que os clientes normalmente não pedem, se é essa a questão que me queria colocar.

E que tipo de reacções observa?

Geralmente gostam. Sobretudo porque é possível encontrar vinhos a bom preço e com boas características. Eu tento de alguma forma promover os nossos vinhos, mas é preciso lembrar que estou num negócio em que não é possível fazer só isso e a venda de vinhos portugueses é relativamente pequena em relação ao conjunto de vinhos do mundo.

Há algum vinho, casta ou região que mereçam maior atenção?

Nem por isso. No meu caso, vendo mais Douro. Não quer dizer que seja a região mais preparada ou aquela que está em mais cartas em Londres. Não penso que seja nem sei sequer se é. Eu vendo vinho de todas as regiões, mas quando sirvo um Alvarinho perguntam se a casta não é espanhola e eu brinco dizendo que Portugal perdeu com a Espanha em futebol mas que fazemos melhor vinho que eles. E depois ficam estupefactos com os alvarinhos portugueses. Mas não é fácil. De uma forma geral eles não compram vinhos portugueses, com a excepção, lá está, do Porto.

Apesar de tudo, os números indicam que há alguma exportação, mas mostram também que os ingleses não estão dispostos a pagar muito por vinhos portugueses.

Não conhecem. Não é uma questão de valorizar ou não. Até há muito pouco tempo para encontrar vinhos portugueses nos supermercados chegava a ir à secção de Espanha. E os vinhos que estavam disponíveis nesses sítios, que é onde toda a gente vai, eram em regra de baixíssima qualidade. Mas hoje em dia as coisas estão bastante melhor.

O consumo actual pede vinhos com maior frescura e álcool moderado. A tendência é para ficar ou haverá uma próxima?

As madeiras e os álcoois nos mercados europeus, e sei também que nos EUA, estão hoje em dia a decrescer e isso tem a ver com várias coisas. Obviamente com o apuramento do gosto, mas também com questões alimentares e preocupações com a saúde. De uma forma geral eu, como sommelier, não acho que os vinhos com exagerada madeira, e fundamentalmente com muito álcool, se entendam bem com a cozinha. Como se sabe, as tendências nunca são para ficar, mas esta é a tendência actual. Quanto à próxima, acho que ninguém sabe. Eu não faço a mínima ideia.

Que conselho deixaria a um português que queira vender vinhos de boa qualidade?

Que faça vinhos autênticos. Com personalidade e DNA português e não para imitar tendências internacionais que já ninguém quer isso. Vinhos naturais, não tecnológicos, e com forte identidade portuguesa. É por aí que o vinho passa no mundo. Ninguém quer um Cabernet português, as pessoas querem provar qualquer coisa de genuíno.

E até que ponto as centenas de castas autóctones podem funcionar como um trunfo ou uma complicação acrescida?

São um trunfo se tivermos em conta a enorme possibilidade de se criarem vinhos com características organolépticas completamente diferentes, mas para o mercado internacional há que ter algum cuidado. Nós sabemos que temos muitos nomes de castas que os próprios portugueses dificilmente reconhecem. Pelo menos para o mercado internacional é preciso restringir um pouco. Não sei o número, mas talvez pegar em seis, sete, dez castas com maior potencial para apostar o DNA, o terroir e a forma de fazer vinhos em Portugal e não ir em imitações.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues