Escândalo Goldman Sachs acelera novas regras para o sector financeiro

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Sede do Goldman Sachs em Londres LEON NEAL/AFP

Legislação pendente no Congresso pode conhecer avanço mais rápido; Reino Unido e Alemanha vão investigar impactos de produtos tóxicos nos seus principais bancos

A acusação de fraude que o regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) formulou ao banco Goldman Sachs poderá acelerar a aprovação, no Congresso, de legislação que impeça que o sistema bancário assuma riscos como os que estiveram na base da crise financeira que abalou a economia global.

A convicção foi ontem expressa por Barney Frank, congressista democrata. Frank é o líder da poderosa comissão para os serviços financeiros, que tem em mãos o pacote de legislação que visa impor novas regras no mercado de capitais e que a Casa Branca gostaria de ver aprovado até ao final de Maio. "As notícias sobre o caso Goldman reforçam a necessidade de fazer ainda mais do que tencionávamos fazer", afirmou ontem Barney Frank, para acrescentar que não acredita que os 41 senadores republicanos votem contra a legislação.

O banco Goldman Sachs foi acusado, na sexta-feira passada, de não ter informado com rigor os seus investidores acerca de um novo produto que colocou no mercado, antes de a crise eclodir. Associado ao chamado crédito de alto risco, este novo produto acabou por determinar perdas de mil milhões de dólares para quem nele arriscou o seu dinheiro. Neste negócio, o banco surgia associado à firma de investimento de risco Paulson & Co (ver caixa).

Ontem, as apostas em Wall Street iam no sentido de saber se o Goldman é o único que enganou os investidores com produtos ligados ao subprime. Ou se estarão na calha outras deduções de acusação aos grandes tubarões do mercado financeiro norte-americano.

Os impactos deste processo não se ficam, todavia, pelos Estados Unidos. Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico que se encontra em campanha eleitoral para tentar renovar o mandato, afirmou no domingo que se está perante um caso de "bancarrota moral" e anunciou que irá pedir uma investigação à actuação do Goldman no Reino Unido. Brown tem em mente o dinheiro que os contribuintes tiveram que despender para salvar o RBS, um banco comercial que se afundou com a crise do subprime e esteve envolvido no caso do fundo Abacus criado pelo Goldman. Também na Alemanha, o governo federal vai investigar até que ponto a falência do banco IKB teve a ver com aplicações em produtos do banco norte-americano.

As suspeitas de que os reguladores poderão ir mais adiante resultam essencialmente de uma frase do responsável da SEC: "O produto era novo e complexo, mas o logro e o conflito são velhos e simples", afirmou Robert Khuzami. "O Goldman permitiu erradamente que um cliente que estava a apostar contra o mercado do crédito imobiliário influenciasse que activos eram incluídos num portfolio de investimento, enquanto dizia a outros investidores que os activos eram seleccionados por uma terceira parte independente e objectiva", acrescentou Khuzami.

O banco de investimento, nas alegações que deduziu junto da SEC, defende que a acusação não faz qualquer sentido "à luz dos factos e das leis" e acrescentou que irá defender a sua "reputação" junto do regulador e do mercado.

Bolsas reagem em baixa

O caso Goldman Sachs provocou ontem fortes ondas de choque nas principais praças financieras. As bolsas europeias fecharam todas no vermelho. Os principais índices do Velho Continente registaram quedas entre 0,30 por cento (Londres) e 0,97 por cento (Milão). Da madrugada, vinham as quebras de 1,74 por cento em Tóquio e 2,1 por cento em Hong Kong.

À tarde, Nova Iorque abriu a recuar ligeiramente, mas rapidamente recuperou para terreno positivo. O facto de o Citigroup anunciar resultados positivos de que ninguém estava à espera acabou por determinar a reviravolta em Wall Street.

Foi, todavia, de forma moderada. O índice Dow Jones fechou a subir 0,63 por cento e o tecnológico Nasdaq teve um recuo de 0,05 por cento.

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