Sergio Ramos atirou o foguete e Casillas apanhou a cana

Portugal empatou Espanha até onde pôde. Nas grandes penalidades, a defesa do guarda-redes do Real Madrid valeu mais do que a do Sporting porque os postes voltaram a fazer das suas. O campeão da Europa está a um jogo de renovar o título

Os ferros da baliza escolheram Espanha e a campeã da Europa vai ter oportunidade de renovar o título, em Kiev. Portugal, que durante o torneio nunca contou com a ajuda dos postes, voltou a ver a sorte devolvida ao remetente. Bruno Alves foi contrariado pela trave, Fàbregas abençoado pelo poste direito (4-2 nos penáltis). Foram os dois últimos remates da primeira meia-final e, cada um à sua maneira, contribuiu para resolver um duelo que prometia durar até ao amanhecer.

Como se esperava, a Espanha teve mais posse de bola (57% contra 43%, segundo a estatística oficial da UEFA), fazendo uso da sua arte na circulação: o famoso (e agora, às vezes, contestado) tiki-taka. Portugal jogou mais na expectativa. Paulo Bento foi capaz de povoar o meio-campo, de coordenar as peças com precisão cirúrgica e, desse modo, anular os pés de Iniesta ou as fissuras que Xavi costuma infligir nas defesas adversárias. Neste particular, João Moutinho funcionava como um boomerang, capaz de ir e vir num piscar de olhos.

Durante os 90 minutos da praxe, raras vezes o jogo passou de um exercício de controlo de danos, de tal forma que algumas das saídas para o ataque foram impulsionadas pela necessidade de fugir ao pressing atacante. As excepções foram um remate de Arbeloa por cima da trave, aos 9", um disparo de Iniesta na mesma direcção (depois do único lance em que Negredo, a surpresa de Del Bosque, se fez notar) aos 29" e um pontapé rasteiro de Ronaldo, junto ao poste, aos 31".

O jogo estava morno, sem chama e começava a fazer lembrar aquele episódio dos Simpsons, em que, durante um Portugal-México, Homer se levanta da cadeira, no estádio, para gritar o clássico "Booooring". A dada altura, parecia que os elementos mais proactivos da selecção portuguesa estavam no banco de suplentes. A cada decisão a desfavor tomada pelo turco Cuneit Çakir, era como se um choque eléctrico impelisse Paulo Bento e a respectiva comitiva a saltarem em direcção ao quarto árbitro.

Demasiado meio-campo, pouco interesse pelas balizas. Hugo Almeida era incapaz de segurar uma bola, Nani estava mais preocupado (e com razão) em suster as subidas do insaciável Jordi Alba e Ronaldo raramente recebeu uma bola em condições de desequilibrar. Os remates, um bem de primeira necessidade, eram quase um elemento estranho ao jogo e os poucos que se viam não queriam nada com a baliza.

Na saída para os balneários, percebeu-se que João Pereira e Jordi Alba não são os melhores amigos e que Espanha estaria menos satisfeita com o desenrolar do jogo do que Portugal. Del Bosque confirmou-o pouco depois, ao trocar Negredo por Cesc Fàbregas, voltando à fórmula inicial. Em teoria, Pepe e companhia teriam mais razões de preocupação, face à maior mobilidade e inteligência de movimentos do médio ofensivo do Barcelona. Pouco depois, nova mexida: sai David Silva, entra Navas.

Paulo Bento respondeu com uma alteração ligeira, deslocando Almeida para a esquerda e Ronaldo para o eixo do ataque. Foi por esse lado que o avançado do Besiktas conseguiu os seus dois primeiros remates, que não chegaram sequer a merecer a atenção de Casillas. Com efeito, para aquilo que fizeram durante os 90 minutos, bem que o guarda-redes do Real Madrid e Rui Patrício podiam ter assistido ao jogo nas bancadas.

Casillas terá sofrido o maior susto praticamente no último lance do tempo regulamentar, quando um contra-ataque de Portugal que passou pelos pés de Veloso e Meireles terminou com um remate despropositado de Ronaldo. Foi a melhor oportunidade da equipa portuguesa e uma das raras vezes em que apanhou o adversário em contrapé. Veio o prolongamento, já com Nelson Oliveira no lugar de Almeida, e com ele a quebra física. Espanha, mais lúcida, apertou com um remate de Iniesta, outro de Sergio Ramos, mais um de Navas. Patrício, finalmente chamado a intervir, esteve à altura.

Assim como estaria momentos depois, quando Xabi Alonso foi chamado a bater o primeiro dos 10 penáltis da praxe. 0-0, manda Patrício, 0-0 impõe Casillas, ao defender o remate de Moutinho. Depois vieram cinco golos seguidos, com uma finalização à Panenka de Sergio Ramos. A fasquia estava muito elevada. Bruno Alves apontou para cima e esqueceu-se que o ferro é inclemente para uns e misericordioso com outros. Espanha tornava-se o quarto campeão mundial em título a atingir a final de um Europeu.

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