Ronaldo dividiu com a Alemanha o custo do voo para Varsóvia

Portugal fez o trabalho de casa e obrigou a Holanda a deixar o torneio pela porta dos fundos. O primeiro objectivo do Euro 2012 foi atingido. A República Checa é o cliente que se segue, agora na Polónia

Paulo Bento não podia pedir mais. Na mesma noite, com os astros devidamente alinhados, resolveu dois problemas de uma assentada: o apuramento para os quartos-de-final do Euro 2012 (2-1) e a alergia de Cristiano Ronaldo aos golos. Com a Holanda, absolutamente irreconhecível, a funcionar como anti-histamínico, Portugal foi eliminando sintomas e ficando imune à má sorte. E nem o empate no Alemanha-Dinamarca ao intervalo terá chegado a provocar falta de ar.

Quando, aos 11", Rafael van der Vaart arrancou aquele remate de gente grande de fora da área, a tradição pareceu tremer. A tradição que dizia que Portugal entrava no jogo com um total de seis vitórias, três empates e apenas uma derrota frente à Holanda no seu historial. O adversário, que tanto se queixara da falta de eficácia, marcava no primeiro pontapé que fazia à baliza e ficava a um golo apenas do apuramento.

Nos minutos seguintes, porém, percebeu-se que esse golo estava tão distante como os dois estádios onde se decidia o destino do Grupo B. Em vez de aproveitarem a onda de entusiasmo, os holandeses deixaram de circular a bola, deixaram que Portugal entrasse no meio-campo e começasse a pressionar na primeira fase de construção. Resultado: demasiados erros e muitos calafrios. Hélder Postiga não aproveitou o maior deles (na sequência de um brinde da defesa atirou ao lado). Tudo normal.

Chegou o minuto 27 e, com ele, quebrou-se o gelo e derreteu uma das dúvidas laterais deste Europeu, que consistia em saber quando é que Cristiano Ronaldo ia encontrar a baliza. Assistência magistral de João Pereira e conclusão fácil do capitão, que se tornou no primeiro jogador português a marcar em cinco torneios consecutivos (Euro 2004, Mundial 2006, Euro 2008, Mundial 2010 e Euro 2012). Como se não bastasse, aquele remate na cara de Stekelenburg permitiu-lhe ultrapassar Figo no terceiro lugar da galeria dos melhores marcadores de Portugal, agora com 33 golos.

Nesse momento, não foi só Ronaldo que respirou de alívio, foi todo o banco de Portugal, que percebeu que tinha todas as condições para comandar o jogo de ponta a ponta. A Holanda chegaria à mesma conclusão nos minutos seguintes, ao sentir-se estrangulada pelo ataque do adversário e pelo pressing alto que Postiga, Moutinho e Meireles faziam na zona central. Não conseguia sair a jogar e esperneava para manter a bola longe da baliza.

Deveria ter esperneado mais, se não queria sair de Kharkiv com a pior prestação do currículo em Campeonatos da Europa (a Holanda nunca tinha dito adeus à prova sem pontuar na fase de grupos). Sem mexidas no segundo tempo, voltou exactamente como tinha ido para o intervalo: desorganizada, sem fio condutor, um somatório irrelevante de individualidades. E aquele remate, meio com a cabeça, meio com o ombro, de Ron Vlaar, aos 53", nem serviu para amostra.

Portugal, cada vez mais confortável na pele de carrasco holandês, voltou a agitar as redes aos 59", mas Postiga estava em posição irregular. Aos 66", Ronaldo rompeu pela esquerda e proporcionou um belo remate a Coentrão. Aos 74", resolveu o jogo. João Moutinho viu Nani a fugir pela direita, quase sem oposição, num lance de contra-ataque, o extremo do Manchester fez uma assistência brilhante para o lado contrário e o capitão português completou a pintura. Recepção e remate. 2-1.

Ronaldo, o quarto jogador português a bisar num Europeu (os outros foram Jordão, Sérgio Conceição e Nuno Gomes), ainda haveria de compor o lote de tentativas de fazer um hat-trick com um remate ao poste, de pé esquerdo, depois de uma diagonal. Foi um dos 12 com os quais se tornou no recordista de remates num só jogo na história da competição.

Paulo Bento tinha o jogo ganho em Kharkiv. A Alemanha tinha o jogo ganho em Lviv, o que significava que Paulo Bento tinha vencido nos dois tabuleiros e atingido o primeiro objectivo do torneio. Os dirigentes da federação já podiam reservar os bilhetes de avião para Varsóvia, onde uma surpreendente República Checa estará à espera da comitiva portuguesa para um remake dos quartos-de-final do Euro 1996. Desta vez sem Karel Poborsky.

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