Retrato de um país que envia pintura para o Reino Unido

71% das peças que em 2012 saíram do país eram anteriores à década de 1960. Reino Unido foi o principal destino das expedições e exportações portuguesas.

Da leitura cruzada dos dados da Direcção-Geral do Património Cultural nasce o retrato de um país de onde estão a sair sobretudo obras com mais de 50 anos Carlos Lopes/Arquivo

Que tipo de obra de arte mais saiu do país em 2012? Pintura datada da década de 1960 ou posterior. Com apenas esta informação, parecerá que das fronteiras portuguesas sai sobretudo arte contemporânea. Não é assim. Na verdade, as obras de arte datadas da década de 1960 em diante representam uma fatia minoritária das peças de todos os tipos que no ano passado deixaram definitivamente Portugal.

Da leitura cruzada dos dados da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) nasce o retrato de um país de onde estão a sair sobretudo obras com mais de 50 anos.

Do total de 692 obras de todos os tipos autorizadas a sair definitivamente do país no ano passado, mais de 71% correspondem a obras anteriores à década de 1960. Foram 494, fazendo com que menos de duas centenas das saídas - 198 - correspondessem a obras datadas das décadas seguintes. Destas, 93,4% foram pinturas.

Ao abrigo das políticas de livre circulação de pessoas e bens dentro do espaço Schengen, as saídas de obras de arte de Portugal para outros Estados-membros são consideradas expedições. Apenas as saídas para destinos terceiros são vistas como exportações. Nesse enquadramento, Portugal perfilou-se mais como expedidor do que como exportador. Mas a balança não ficou longe do equilíbrio: em 2012, 358 das obras que deixaram definitivamente o país ficaram na Europa; 334 tiveram outros destinos.

Através dos dados da DGPC, é possível também fazer um retrato tanto das expedições como das exportações. A expedição de obras com mais de 50 anos é a fatia mais significativa das saídas de Portugal (338). Depois vem a exportação de obras com menos de 50 anos (178) e a exportação de obras com mais de 50 anos (156). A expedição de obras de arte contemporânea é residual (20).

Ou seja, expedimos 17 vezes mais obras anteriores à década de 1960 do que posteriores. E expedimos mais do dobro de obras de arte com mais de 50 anos do que exportamos. Mas exportamos quase o mesmo número de obras com mais de 50 anos e menos.

Em termos absolutos, o Reino Unido é o principal destino das obras de arte (205 obras) que saíram de Portugal em 2012, seguido dos EUA (120 obras), França (102) e Holanda (35). No campo mais estrito das exportações dos bens com mais de 50 anos, Estados Unidos e Brasil empataram como dois principais destinos (38 peças cada). Em seguida, nessa lista, vêm a China (27 obras), o Líbano (11) e a Suíça (10). Os Emirados Árabes Unidos, Singapura, o Cazaquistão (todos com cinco peças) e a Colômbia (quatro) foram alguns dos outros destinos de 2012.

Atentando-se no perfil de obras enviadas para cada um destes países, percebe-se, por exemplo, que para os Estados Unidos foi enviado mais do dobro de obras com menos de 50 anos (a relação é de 82 para 38). E que países como França, Holanda e a China receberam de Portugal exclusivamente peças com mais de 50 anos.

Espanha fora deste retrato

Na Europa, os principais destinos para obras com mais de 50 anos foram o Reino Unido (193) e a França (102), seguidos da Holanda (35).

Foi para fora da UE a esmagadora maioria das apenas 198 obras de arte contemporânea que no ano passado saíram do país: 178 peças.

Também no domínio da exportação de obras de arte contemporânea, os Estados Unidos surgem no topo da lista como principal destino (82 peças). Em vez do Brasil, porém, surgem acompanhados pelo Dubai como segundo principal destino (21 peças). O Brasil surge apenas como quarto destino (12 peças) - antes dele está a Coreia do Sul (16 peças). O México foi o quinto destino, seguido, com o mesmo número de exportações, por Hong Kong, Líbano, Canadá e Suíça (7 peças).

É possível traçar também um perfil do tipo de obra a sair de Portugal. Entre as peças com mais de 50 anos, em 2012, foi a cerâmica a deixar o país em maior número (123 peças), seguida da escultura (62), da pintura (42), do mobiliário (36) e ourivesaria (25) - a DGPC autorizou a saída de 206 obras de outras tipologias.

A realidade é distinta entre as obras com menos de 50 anos, com a pintura (185 peças) a encabeçar uma lista que domina quase por completo, com a joalharia em segundo lugar (nove peças). A escultura (duas), o desenho (uma) e a instalação (uma) surgem em números residuais, sempre para fora da UE.

É um retrato distinto do do Portugal de outras áreas da economia, onde Espanha é o principal destino dentro da União Europeia, seguida pela Alemanha e a França. É em 4.º lugar que surge o primeiro destino extra-europeu: Angola. Só depois vêm o Reino Unido, a Holanda e, de novo fora da UE, os Estados Unidos. China e Brasil ocupam, respectivamente, o 10.º e 11.º lugar como principais destinos.

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