Relvas nega ter feito pressões PÚBLICO mantém que existiram

Ministro admitiu que deixaria de falar ao jornal, mas nega ter falado na vida privada de jornalista. Presidente da ERC conta ter relatório aprovado em 15 dias, mas ainda pode haver questões por escrito

Ter apenas 32 minutos para responder a uma questão da jornalista do PÚBLICO sobre uma incongruência que deixara, no dia anterior, no seu depoimento no Parlamento no caso das secretas fez com que o ministro Miguel Relvas se sentisse "pressionado". Foi nessa pele que o governante se apresentou ontem na ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação Social, onde negou ter ameaçado divulgar informações sobre a vida privada da jornalista. Mas admitiu ter dito que iria recorrer à ERC e aos tribunais e que ele próprio deixaria de falar com o jornal.

"Devo exigir que me seja esclarecido porque me eram dados 32 minutos para responder a uma questão sobre a qual não existe urgência, não é de actualidade. Foi porque me senti pressionado que me insurgi junto da editora de Política e da directora do PÚBLICO", contou ontem Relvas depois de ser ouvido pela ERC, dizendo-se "de consciência tranquila".

"Liguei e disse: continuando a haver comportamentos como este, tenho o direito de apresentar uma queixa na ERC, nos tribunais e de eu, pessoalmente, deixar de falar com o PÚBLICO." Nas palavras do ministro, quando a directora do jornal, Bárbara Reis, lhe ligou a protestar "sobre o tom com que falara com a editora", respondeu: "Se tinha sido indelicado, pediria desculpa, como fiz, sobre o tom e não sobre a matéria."

A versão da editora, Leonete Botelho, tem sido mais alargada: à directora contou, segundo Bárbara Reis havia de descrever aos jornalistas, após a direcção ter sido ouvida, que o ministro ameaçou "dizer aos membros do Governo para não falarem com o PÚBLICO e revelar dados da vida privada da jornalista". Ouvida ontem, a editora não quis prestar declarações, tal como o conselho de redacção, que também foi ouvido.

A direcção protestou "formalmente junto do ministro [dizendo-lhe] que o telefonema e a pressão tinham sido inaceitáveis". "O ministro respondeu a uma série de coisas e disse que tinha humildade suficiente para pedir desculpa à Leonete Botelho" - mas sem especificar de que se desculpava, contou a directora.

O ministro garantiu nunca ter feito "pressões políticas": "Não conheço a jornalista em causa, nunca falei com a jornalista em causa e não houve acusações sobre a sua vida pessoal, que é algo que repudio, em democracia não seria tolerável." Realçou que "de um lado há factos, do outro não existem factos". Bárbara Reis, em resposta, disse: "O ministro sabe o que disse; nós sabemos o que o ministro disse." E acrescentou: "Que ninguém tenha dúvidas sobre o que se passou: houve pressão e nós não cedemos à pressão."

O ministro reafirmou que só conheceu o ex-director das "secretas" Jorge Silva Carvalho depois de Abril de 2010. "É a minha palavra, quem tiver outra prova que apresente." Relvas disse ontem que no Parlamento usou a notícia de uma visita de George W. Bush ao México "apenas como exemplo do que era o clipping (resenha de imprensa)". No Parlamento, Miguel Relvas disse lembrar-se que a primeira mensagem que recebera de Silva Carvalho fora essa notícia sobre George W. Bush, que visitou pela última vez o México como Presidente em 2007.

Questionado sobre se está disponível para ir à Assembleia da República, Relvas respondeu que "um membro do Governo está sempre disponível para ir ao Parlamento". Mas esquivou-se a responder se considera que, depois de ter sido citado neste caso e nos episódios da crónica de Pedro Rosa Mendes na Antena 1 e do telefonema para o presidente da RTP sobre a contratação de Paulo Futre, mantém condições para continuar no Governo.

No final da tarde, o presidente da ERC disse contar ter o relatório pronto em duas semanas. Até lá é possível que os intervenientes sejam questionados novamente, desta vez por escrito. "Temos matéria suficiente e condições para, num prazo de dez a 15 dias ter isto pronto e aprovado. A não ser que surjam factos novos", afirmou Carlos Magno, acrescentando ter "narrativas suficientes para permitir construir uma tese".

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