"O que é da ribeira, a ribeira virá buscar"

Especialistas pedem uma mudança substancial de atitudes, das autoridades e da população, para evitar novas catástrofes de grande dimensão

As bacias hidrográficas do Funchal, compostas pelas ribeiras de São João, de Santa Luzia e de João Gomes, não ajudam só a que a cidade tenha um desenho a fazer lembrar um anfiteatro, a orografia pela qual é tão reconhecida e afamada. Obriga-a, também, a estar inscrita como muito susceptível em qualquer análise de risco que deva ser feito naquele território. Ao longo da história da ilha, são muitas as ocorrências de aluviões, e de chuvas torrenciais que se transformam em ribeiras a transbordar e em marés de detritos, que os desprendimentos das montanhas ajudam a engrossar.

"Uma chuvada muito forte no pico do Areeiro, a montanha situada logo atrás do Funchal, tem efeitos visíveis na cidade duas horas depois. São ribeiras de regime torrencial", explica o presidente da Quercus, Hélder Spínola. Morador no Funchal, Spínola recorda que o povo diz com frequência que "O que é da ribeira, a ribeira virá buscar". Mas isso não significa que as catástrofes sejam evitadas. Pelo contrário, são quase que provocadas.

Depois do temporal de 1803, o Plano Oudinot desenhou o reencaminhamento das ribeiras, construiu-lhe muros. Entretanto, foram surgindo coberturas à superfície dessas ribeiras, algumas de escassos metros (para permitir atravessamentos de peões e automóveis) enquanto outros troços foram enterrados, para dar lugar, à superfície, a rotundas, depósitos de combustível e até centros comerciais. "Alguns destes cursos seguem quase vazios durante todo o ano, e vão sendo aprisionados e amuralhados. Até que as tragédias acontecem, como aconteceu em 1993, e há dois dias", analisa Spínola, acrescentando que esta situação não acontece só nas três ribeiras já citadas, mas nos pequenos cursos de água que para elas afluem, em cotas já bem mais altas, acima, até, dos 500 metros a que está a via rápida que circunda a cidade.

"Sei que não podemos naturalizar todas estas zonas, em que se construiu cidade. Mas temos de ter a humildade de reconhecer que a reabilitação das ribeiras que foi feita não foi a mais adequada. Os muros destas ribeiras têm de ser redimensionados, espero que a desconstrução não se limite a repetir estes percursos e estes erros", apela Hélder Spínola. O presidente da Quercus está, porém, pouco crédulo quanto à aprendizagem que pode ser feita com a tragédia do passado fim-de-semana. "Em 1993 houve 11 mortes e nem por isso ocorreu uma mudança substancial. Seguiu-se a reabilitação das ribeiras, repetiu-se o seu aprisionamento", recorda. E continuou-se a tapar esses cursos de água. Em Agosto de 2007, a TV Quercus exibia uma reportagem de Hélder Spínola a alertar para a forma como a ribeira de S. João estava a ser ocupada, e como a mão humana se somava aos factores naturais fazendo aumentar as dimensões de uma possível catástrofe.

Domingos Rodrigues, autor da tese de doutoramento Análise de Risco, Movimento de Vertentes e Ordenamento do Território da Madeira, considera que a maior vulnerabilidade "do arquipélago, e do país, é a vulnerabilidade social", aquela que, diz o geólogo, "dota a população de resiliência para superar os desastres naturais, minimizando o seu impacto". "A menina inglesa que foi capaz de identificar um tsunami conseguiu pôr-se a salvo na Tailândia. E um terramoto como houve no Haiti teria muitos menos danos se, com a mesma intensidade, atingisse o Japão. A educação das pessoas, nomeadamente uma cultura de prevenção, é importante para a minimização de riscos naturais. As pessoas não podem resistir a ser evacuadas, ou correr riscos para tirar uma fotografia", argumenta. Este especialista defende, ainda, que seja montado "um sistema de alerta precoce de desastres naturais". Acrescenta que "a monitorização em tempo real das ribeiras tem um papel relevante no incremento da resiliência dos indivíduos e comunidades e optimiza as operações de emergência e de socorro".

Rui Pereira diz que fundos europeus serão pedidos assim que exista uma estimativa dos danos causados pelo temporal

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues