Numa viragem surpreendente, Strauss-Kahn foi ontem libertado

Dúvidas sobre a credibilidade da alegada vítima põem em causa o processo. DSK, libertado sem fiança, sorria, ontem, ao deixar o tribunal

Dominique Strauss-Kahn sorria, ao sair do tribunal criminal de Nova Iorque ontem de manhã, depois de ser libertado sem fiança. Mês e meio depois de o ex-chefe do FMI ter sido acusado de tentativa de violação de uma empregada de limpeza de um hotel em Nova Iorque, o seu processo teve ontem uma reviravolta surpreendente quando os procuradores revelaram numa audiência extraordinária em tribunal ter descoberto elementos que põem em causa a credibilidade da alegada vítima, uma imigrante guineense de 32 anos.

O processo não foi anulado e as acusações contra DSK mantêm-se por agora, mas o caso pode estar à beira do colapso, noticiava ontem o New York Times, que revelou em primeira mão as descobertas feitas pelo gabinete da procurador-geral de Nova Iorque. Na breve audiência de dez minutos que teve lugar ontem, o juiz decidiu, face às novas circunstâncias do caso apresentadas pelos procuradores, libertar Strauss-Kahn sem fiança. O ex-director do FMI deixará de estar em prisão domiciliária e sob vigilância permanente, e poderá viajar dentro dos EUA. O seu passaporte ficou à guarda das autoridades, pelo que não poderá viajar para fora do país, pelo menos até regressar a tribunal, no próximo dia 18.

Contradições

A carta que os procuradores juntaram ontem ao processo revela que a alegada vítima terá mentido em repetidas entrevistas sobre a sua história pessoal e o seu pedido de asilo nos EUA, e assinala inconsistências no seu relato sobre a presumível tentativa de violação no Hotel Sofitel a 14 de Maio. Segundo o documento, nos seus relatos iniciais à polícia e aos procuradores, a empregada de hotel afirmou que, depois de ter sido atacada por Strauss-Kahn, na suite 2806 do Sofitel, esperou no corredor do 28.º piso até ver o ex-chefe do FMI abandonar o quarto e entrar no elevador e a seguir avisou imediatamente o seu supervisor sobre o ocorrido. Mas, desde então, a alegada vítima admitiu que esse relato inicial era falso e que, depois do presumível ataque, limpou um quarto vizinho, voltou à suite 2806 e começou a limpá-la antes de alertar o supervisor.

A mesma carta sustenta que a alegada vítima admitiu ter fabricado informações falsas para obter o seu pedido de asilo nos EUA, onde se encontra desde 2002. Questionada pelos investigadores do gabinete da procuradoria de Nova Iorque, ela afirmou inicialmente que tinha sido violada na Guiné por um grupo de soldados, mas posteriormente admitiu que o incidente não ocorreu e que fez parte de um relato falso que memorizou para obter o asilo. Actualmente, a empregada de hotel diz que o incidente ocorreu, mas em circunstâncias diferentes. Por fim, a carta de três páginas indica que a alegada vítima tem feito declarações falsas sobre os seus rendimentos nos últimos dois anos - em particular, declarou o filho de uma pessoa amiga como seu próprio filho para beneficiar de maiores deduções fiscais.

Citando investigadores do gabinete da procuradoria de Nova Iorque, o NYT noticiava ontem que a alegada vítima terá ligações a pessoas envolvidas em actividades criminais, incluindo tráfico de droga e lavagem de dinheiro, mas o documento arquivado ontem não faz referência a esses factores. Segundo o Times, a mulher teve uma conversa por telefone com um homem que está detido por posse de marijuana um dia depois da alegada tentativa de violação, em que terá discutido os potenciais benefícios de apresentar queixa contra Strauss-Kahn. A conversa foi gravada, diz o jornal.

A viragem no processo é tanto mais surpreendente por as novas informações terem sido apresentadas pela acusação, pondo em causa a solidez do seu caso. Os advogados de defesa de DSK disseram praticamente desde o primeiro dia que iriam expor a falta de credibilidade da alegada vítima, mas foram os procuradores que acabaram por fazê-lo. A visibilidade do caso e a notoriedade de DSK levaram ontem o procurador de Nova Iorque, Cyrus Vance Jr., a fazer uma breve declaração aos jornalistas a seguir à audiência, sublinhando que as acusações não foram retiradas e que "a investigação vai continuar" até "todos os factos relevantes" serem "revelados".

Nos primeiros dias após a alegada tentativa de violação, testes médico-legais confirmaram que Strauss-Kahn, de 62 anos, e a empregada de hotel tiveram relações sexuais, mas a defesa do acusado argumentou que foi um acto consentido pelas duas partes. "Dominique Strauss-Kahn disse que foi voluntário. É mentira. Eu vou mostrar-vos os factos que provam que é mentira", disse o advogado da mulher, Kenneth Thompson, numa conferência de imprensa à porta do tribunal após a audiência. Thompson afirmou que existem provas médicas de que o acto foi forçado. DSK, disse, "agarrou a vagina" da sua cliente com tanta violência que provocou lesões e atirou-a para o chão causando uma ruptura de ligamentos num dos ombros. O advogado também acusou os procuradores de maltratarem a mulher durante as entrevistas que mantiveram com ela.

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