Nova Iorque, uma década depois dos atentados: a América insegura

Uma década não quer dizer fim. A América alguma vez se sentirá segura? O décimo aniversário dos atentados do 11 de Setembro visto de Nova Iorque, em seis perspectivas, ao longo de um dia, do barco para Staten Island ao topo do Empire State Building

1. A bordo do barco para Staten Island, 10h30

Quase ninguém está aqui porque queira realmente ir para Staten Island. Mas uma coisa é ver os arranha-céus de perto, outra é vê-los de longe. Apanhar o barco é o mesmo que recuar vários passos diante de um grande quadro.

Visto daqui percebe-se até que ponto as Torres Gémeas definiam o skyline da baixa de Manhattan: eram os edifícios mais altos e eram dois. Até que deixaram de ser. "As pessoas que trabalham na zona dizem que se sentiram perdidas porque já não podiam olhar para cima e saber onde estavam", diz Ron Nemeth, 72 anos. Ron e o filho, Alex, estão de caras para a baixa de Manhattan, e Ron está a dizer que não tem saudades das torres - "eram zeros em termos arquitectónicos" - antes de interrompermos. "Quando eu era jovem, o meu ponto de referência era o Empire State Building. E depois puseram aqueles dois obeliscos ali. Pessoalmente, penso que eram básicos e insípidos."

"Eu acho mais interessante quando estás a ver um filme antigo e vês as torres", intervém o filho, Alex, 39. "Porque sabes que elas já lá não estão."

Há uma nova torre em ascensão em Ground Zero, que, com mais de 70 andares, já é ligeiramente maior do que os arranha-céus envolventes, meta que os construtores queriam atingir a tempo do 10º aniversário. "Há ano e meio estive lá e era preciso subir a um edifício ao lado para ver a torre. Foram precisos oito anos até que se visse alguma coisa", diz Ron.

Quando ficar concluído, em 2013, será o maior arranha-céus do país. E toda a gente sabe o que isso quer dizer: "Não nos vamos deixar intimidar por terroristas", resume Ralph Molinari, residente em Staten Island, advogado, 70 anos, 50 dos quais a vir para a cidade de barco.

2. Broadway, perto de Wall Street, 12h20

Mas Nova Iorque acordou inquieta, depois da notícia, na noite anterior, sobre um possível atentado terrorista no 10º aniversário. Os tablóides foram fiéis a si próprios - na sexta-feira, a manchete do New York Daily News, sobre fundo negro, era: "Bomb Threat Terror".

A polícia montou check-points nalguns pontos da cidade, para revistar veículos. Helicópteros sobrevoam a baixa de Manhattan. Polícias com cães examinam mochilas nos terminais de transportes. Polícias no metro.

"Era de esperar nesta altura", diz Keith Viscuse, 25, que tem uma grande gravata preta com um desenho das Torres Gémeas e da Estátua da Liberdade na ponta.

Keith comprou a gravata depois dos ataques e usa-a nesta altura para "mostrar algum patriotismo".

"Espero que daqui a 10 anos nos sintamos mais seguros", diz Keith. Até lá, vai continuar a apanhar o metro todos os dias, mesmo supondo que é o "mais vulnerável" em caso de ataque. "Se não continuarmos a viver a nossa vida normal, os terroristas vencem. Ter medo e não ir a lado nenhum significa que eles venceram."

3. Marriott Downtown Hotel, junto ao Ground Zero, 13h25

Conferência de imprensa da Voices of September 11th, um dos vários grupos fundados por famílias das vítimas dos ataques - mas onde estão os jornalistas?

Bonnie McEneaney, uma viúva, diz que "nunca fala do 11 de Setembro" com os seus quatro filhos. "Falo-lhes do pai deles."

4. Washington Square Park, 15h40

Portanto: Nova Iorque em estado de alerta, aperto securitário. Onde é que, indiferente a tudo isso, Nova Iorque continua a ser Nova Iorque? Por exemplo, aqui: rapazes em tronco nu estendidos na relva, uma festa de calças arregaçadas dentro do repuxo, músicos de rua tocando a troco de trocos. Temos a impressão de que vamos incomodar uma parte da cidade que não quer ser incomodada com o 11 de Setembro.

"O país está em pior forma do que estava há dez anos", diz Robert Klein, 70 anos, professor do ensino especial. "Em termos económicos, as últimas duas guerras deram cabo de nós. Não pensámos muito nisso na altura, mas agora estamos a sofrer as consequências em casa. Chegou a altura de pagar."

Há dez anos, os Estados Unidos eram "os donos do mundo". "Esse foi o nosso erro - pensar que a guerra tinha acabado, quando uma guerra mais perigosa estava prestes a começar. Ao menos, quando eram os comunistas, estávamos a lidar com gente racional. Agora, estamos a lidar com fanáticos."

Robert pensa que a América está a lutar "contra um inimigo que não podemos vencer". "Eles não podem vencer e nós não podemos vencer." E acredita que um novo ataque vai acontecer, mais tarde ou mais cedo. "Temos tido sorte nos últimos dez anos. Claro que sabemos mais sobre segurança hoje, tornámo-nos mais espertos. Mas acho que em grande parte é sorte."

Sente-se mais seguro? "Não. Na verdade, quando vejo polícias nas ruas com armas automáticas, sinto-me menos seguro. Mas, quer dizer, apanhei o metro hoje. Como se costuma dizer, se vivermos com medo, os terroristas vencem." Essa expressão outra vez.

"Oiça, eu penso que o 11 de Setembro é a 19ª coisa mais importante na América neste momento." Peter Unger, 69 anos, é professor de Filosofia na New York University, mas está com pouca paciência para discutir a metafísica do 11 de Setembro. A opinião dele, numa casca de noz: nenhum ataque muito sério ocorreu nos últimos dez anos; os tempos não são diferentes, a América começou duas guerras porque a América não consegue evitá-lo; o estado da economia é "mil vezes mais importante" do que o 11 de Setembro. "Quarenta por cento das pessoas neste país basicamente não têm nada." E a única razão porque estamos a falar do 11 de Setembro é porque "temos um sistema decimal". "Daqui a um ano, quando for o 11º aniversário, ninguém vai querer saber. Da mesma forma que no 8º aniversário ninguém quis saber."

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5. Central Park, 17h15

A ambivalência de opiniões em relação ao 11 de Setembro reflecte-se na imprensa. No New York Times, Ross Douthat, o mais jovem colunista do jornal, escreveu que "ainda vivemos na era do 11 de Setembro". Enquanto isso, um ex-colunista do Times, Frank Rich, escreve esta semana na revista New York que, para a maioria dos americanos, "a nuvem do 11 de Setembro dissipou-se".

"O 10º aniversário traz tudo ao de cima outra vez", diz um leitor em Central Park que prefere manter-se anónimo. "Uma pessoa liga a televisão por estes dias e é só o que vê. Eu costumo mudar logo de canal."

Ainda por cima, ele tinha planos para sair da cidade hoje, mas isso foi provavelmente antes de notar a data: 11 de Setembro. "Estou a pensar cancelar a viagem, porque teria de passar pela Penn Station."

Não se sente mais seguro do que há dez anos? "Não, muito menos seguro."

6. No topo do Empire State Building, 18h20

"Vai subir?"

John e Bev Berthoty estão de visita a Nova Iorque, a cidade dele, e estando aqui, o 11 de Setembro está muito mais presente do que na Califórnia. Questão de distância. "Estás mais isolado."

Ainda assim, na véspera, houve um imenso apagão na Califórnia e Bev pensou que poderia ter sido um acto terrorista. Eis um efeito que dura há dez anos: sempre que acontece um incidente, o primeiro pensamento é que se tratou de terrorismo. Em Agosto, quando um sismo moderado abalou Washington, a cidade reagiu como se fosse um ataque.

A irmã de John Berthoty não quis sair de Queens e vir para Manhattan com eles por causa da suposta ameaça terrorista.

"Sabe se os helicópteros têm a ver com a segurança por causa do 11 de Setembro?" pergunta John.

No 86º andar do Empire State Building, a vista para a baixa de Manhattan é a mais disputada. A grua no topo da Torre Um de Ground Zero tem o formato de um V (de vitória?).

"Eu não sabia que a torre existia. Até o John me chamar a atenção", diz Bev, como se se desculpasse.

Uma vez concluída, terá 541 metros de altura. O tamanho conta?

John: "Eu não sou do género de cantar hossanas ao país e tudo isso, mas se faz as pessoas sentirem-se melhor é positivo."

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