Hollande pressiona Merkel para aceitar eurobonds

O Presidente francês levantou a questão das euro-obrigações na cimeira do G8 e vai voltar a fazê-lo amanhã em Bruxelas, na mini-cimeira de líderes da União Europeia. Um confronto com Angela Merkel, que tem vindo a dar sinais de maior flexibilidade

François Hollande prepara-se para abrir amanhã um confronto directo com Angela Merkel, chanceler alemã, ao recolocar na mesa da mini-cimeira de líderes da União Europeia (UE) a ideia de emissão de dívida pública em comum entre os países do euro através de euro-obrigações, ou eurobonds.

A pressão sobre a chanceler deverá ser igualmente acentuada pelo presidente francês numa outra frente considerada bem mais urgente, a de permitir que os mecanismos de socorro do euro possam ser usados para recapitalizar os bancos espanhóis - submersos em quase 200 mil milhões de euros de crédito mal parado - sem que o respectivo governo tenha de assumir um programa de ajustamento económico e financeiro (como em Portugal, Grécia e Irlanda).

Hollande que afirmou que levantou a questão dos eurobonds durante a cimeira de líderes do G8 do fim de semana passado, garantiu que voltará a fazer o mesmo amanhã durante o debate programado para o jantar informal dos líderes dos 27, o primeiro a que assiste enquanto presidente francês, centrado em formas de estimular o crescimento e o emprego na Europa.

Segundo grande parte da imprensa americana e europeia, Merkel viu-se aliás isolada no G8 face aos apelos dos líderes dos países mais industrializados do mundo, incluindo os europeus (França, Reino Unido e Itália) sobre a necessidade de temperar a austeridade europeia com medidas de estímulo ao crescimento.

Para a chanceler, os problemas dos países da zona euro só poderão ser resolvidos através de uma rigorosa consolidação orçamental e reformas estruturais destinadas a eliminar os obstáculos ao crescimento económico, sobretudo no mercado de trabalho.

Hollande, que fez do crescimento da economia europeia uma das suas grandes prioridades, contará no debate de amanhã com o apoio de vários líderes socialistas, incluindo o belga Elio Di Rupo, mas igualmente de direita, como o italiano Mario Monti e o espanhol Mariano Rajoy.

Para estes países, como para muitos analistas, a emissão de eurobonds, que torna cada país solidariamente co-responsável pela dívida pública de todos os outros, é vista como uma poderosa medida em favor do crescimento económico pelo facto de baixar os juros dos países mais frágeis mas, sobretudo, enquanto sinal de confiança dos países do euro na sua moeda.

Merkel teme, pelo contrário, que os eurobonds resultem num aumento dos juros da dívida alemã que, ao nível de 1,44% a 10 anos, atingiram o nível mais baixo de sempre. Para Berlim, estas taxas são a prova mais evidente dos benefícios da virtude orçamental. A chanceler, que recusa assumir a dívida dos países indisciplinados se não puder controlar as suas decisões, considera que a emissão de eurobonds só poderá ser concebível no final de um longo processo de convergência das economias e das políticas orçamentais dos membros do euro. Avançar com eurobonds será "um remédio errado, no momento errado com efeitos secundários errados", reiterou ontem Steffen Kampeter, secretário de estado alemão das finanças. "Para nós é uma ideia forte, mas não a podemos impor aos alemães", reconheceu Pierre Moscovici, o novo ministro francês das finanças, depois de um encontro em Berlim com o seu homólogo alemão, Wolfgang Schäuble.

Maior flexibilidade alemã

Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu que convocou o encontro de amanhã, pediu no entanto aos 27 para abordarem os temas do crescimento económico "sem tabus", sobretudo no que se refere "às perspectivas de longo prazo". Segundo o texto da carta-convite que ontem enviou aos líderes, "não é cedo demais para olhar para a frente e reflectir sobre alterações mais fundamentais" da União Económica e Monetária europeia. "A perspectiva de avançar para um sistema mais integrado aumentará a confiança no euro e na economia europeia em geral", sublinha.

Van Rompuy lembrou, igualmente, que o encontro não será conclusivo e permitirá sobretudo abrir o caminho para as decisões concretas que serão tomadas pelos 27 na cimeira formal trimestral de 28 e 29 de Junho. Até lá, os governos esperam ter ultrapassado a verdadeira corrida de obstáculos que têm pela frente: referendo sobre o novo Tratado orçamental a 31 de Maio na Irlanda e eleições legislativas de alto risco na Grécia a 17 de Junho, o mesmo dia em que a França elege um novo parlamento. Como não há pressão para a tomada de decisões, "encorajo-vos a manter uma troca de pontos de vista o mais aberta e franca possível", escreve ainda o presidente do Conselho Europeu.

Apesar da retórica, não é claro o que Hollande tem verdadeiramente em mente quando fala de eurobonds: uma mutualização pura e dura da dívida dos países do euro, ou o modelo bem mais modesto de "obrigações para projectos" que já está em negociação entre os Vinte e Sete? Neste caso, a ideia em debate pretende usar 230 milhões de euros do orçamento comunitário para garantir empréstimos no mercado e financiar grandes projectos de infraestruturas.

Merkel, que resiste por princípio a qualquer aumento do endividamento, tem vindo a dar sinais de alguma flexibilidade nesta frente no quadro do debate europeu sobre o crescimento económico.

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