Grécia afunda-se na crise e eleitores não sabem o que votar

Os maiores partidos esperam a maioria; a oposição é contra a austeridade; há os que defendem a saída do euro. A Grécia parece ruir e as pessoas não sabem o que escolher nas eleições

Numa pequena taverna em Atenas, as mesas enchem-se para ouvir rebetiko, música de fusão entre o tradicional e o moderno. Uma mulher canta, acompanhada pelo instrumento local, o bouzouki, e uma guitarra. As letras são trágicas: o drama da emigração, amores mal resolvidos. A cantora ergue as sobrancelhas a meio da testa num trejeito triste, mas sorri sempre.

Numa das mesas, Maria Terzaqi e Stella Cuedi, trinta e tal anos, falam de tudo: de como tinham trabalhos frequentes (Maria, actriz e cantora) e um bom emprego (Stella, terapeuta da fala) e têm hoje uma vida de insegurança: alugam os apartamentos através de sites para viajantes (nessa altura vão viver para casas de amigos), cozinham com encomendas de comida dos pais, trocam serviços (aulas de inglês por pilates, por exemplo). Mas estão optimistas. "Vamos sobreviver", garantem.

As eleições de domingo entram na conversa. É a primeira vez, sublinha Maria, que nenhum dos dois principais partidos terá uma maioria. Na verdade, o apoio conjunto dos dois deverá baixar de 77% nas eleições de 2009 para 34-39%, segundo as últimas sondagens, o que lhes daria uma estreita maioria parlamentar.

Maria não é analista política, mas acha que Pasok e Nova Democracia (ND), que têm convivido no Governo tecnocrata, terão dificuldades em continuar a trabalhar juntos. Em algumas localidades da Grécia há o café do Pasok, pintado de verde, e o do Nova Democracia, pintado de azul, conta. Alguém do partido azul nunca entrará no café do verde.

Se o quadro já parece difícil, a entrada de um terceiro partido, que alguns analistas chegaram a evocar, seria ainda mais problemática. Pasok e Nova Democracia jogam esta carta para convencer os indecisos.

Os dois grandes partidos não arriscam campanha nas ruas em Atenas: não querem ser apanhados em protestos. A cautela é extrema: Antonis Samaras, do conservador ND, que deverá ser o mais votado (21,9 a 25% nas sondagens), não aceitou sequer ainda o desafio para um debate televisivo do socialista Evangelos Venizelos (17,8 a 19%). Ambos dizem que exigirão o cargo de primeiro-ministro num governo de coligação. A quase metade do Parlamento que ficará nas mãos da oposição opõe-se, na sua esmagadora maioria, às medidas de austeridade e ao memorando da troika. Prevê-se um hemiciclo turbulento.

A extrema-direita

Atenas mudou. O desemprego é de 50% entre os jovens. Muitas pessoas não têm acesso a médicos ou medicamentos. Já não são só os imigrantes quem vai às sopas dos pobres e ficou sem abrigo. São muitos e muitos gregos.

Os protestos aqui são violentos. Uma pessoa que nos aconselhou um hotel alertou que era melhor pedir um quarto no terceiro andar. "Assim não há problemas com o gás lacrimogéneo, se houver manifestações."

Se a polícia não usa parcimónia no gás, os cocktails molotov também não são raros. Maria conta como recentemente quase ficou sem carro. "Tive de o estacionar ao pé de um banco", diz. O banco foi incendiado e dois carros ao lado do de Maria ficaram queimados. Não estacionar perto de bancos é um cuidado básico em Atenas, mas Maria não tem noção da singularidade. "Também não convém fazer isso noutros sítios", comenta, um pouco defensiva.

As ruas estão mais violentas. Praças do centro são palco de tráfico de droga a céu aberto, muitas vezes por grupos de imigrantes. Há assaltos. Este sentimento de insegurança está a alimentar o que já é o segundo fenómeno das eleições: a provável entrada do partido neonazi Chrysi Avyi (Aurora Dourada) no Parlamento, com cerca de 5%, ainda mais do que a extrema-direita "tradicional" do LAOS (4%).

O Chrysi Avyi tem uma milícia que "protege" as pessoas (ou seja, agride imigrantes). Recentemente os seus membros levaram, num bairro com criminalidade alta, uma velhinha a levantar dinheiro ao multibanco "em segurança" - em frente às câmaras.

Este é um dos dez partidos que podem entrar no Parlamento de 300 lugares, o dobro dos que elegeram deputados em 2009. Há 32 formações a concorrer.

A esquerda fragmentada em vários partidos (há ainda os que saíram do Pasok, expulsos após votarem contra o memorando) chegaria a uns 34%, mas está minada por divisões ideológicas (sair ou não do euro? A maioria defende a saída) e rivalidades pessoais.

Maria vai votar Syriza, um dos partidos da esquerda radical. Stella indigna-se com a opção da amiga, mas confessa que ainda não escolheu. "Vou votar num pequeno partido da esquerda, ainda não sei qual."

Muitas das pessoas com quem falámos em Atenas estão indecisas, e não só são os jovens. Pode ser o responsável de uma equipa do Ministério do Interior, Panagiotis Karkatsoulis, a dizer que está a ponderar entre Nova Democracia e Pasok. Há pessoas que se vão abster, mas não serão muitas. Até Areti, uma anarquista que conhecemos numa associação no bairro de Exarchia, decidiu ir votar: "É contra o que defendemos, mas vou fazê-lo, para contrariar a extrema-direita." E em quem? "Ainda não sei."

Há quem diga que a crise pode ter uma faceta positiva: mudar o sistema político, abanar partidos minados por clãs e clientelismo. Barbara Papadopoulou, artista e outra eleitora indecisa, que interrompe, com gosto, a leitura do jornal num café no centro da cidade para falar sobre política, não acredita nisto: "Acho que os cortes são demasiado brutais para conseguirem fazer isso. Não se conseguem mudanças destas com as pessoas numa situação tão má."

Há pessoas a morrer. Um farmacêutico de 77 anos suicidou-se, com um tiro de pistola, na praça Syntagma, e desde então os media começaram a noticiar estas mortes. Esta semana um professor de 38 anos, nomeado para um lugar na Faculdade de Geologia de Atenas, matou-se. Há dois anos que esperava ser colocado.

Isto é algo que está na cabeça das pessoas. Na taverna, no intervalo entre duas músicas, Maria abre novamente muito os olhos para perguntar: "Já ouviste do último suicídio?"

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