Egípcios "quebraram o muro do medo" e prometem o maior protesto para hoje

Manifestantes tentam aproveitar dinâmica de contestação iniciada na Tunísia e que já chegou ao Iémen. ElBaradei regressa ao Cairo e pede a "reforma" do Presidente Hosni Mubarak

Nas ruas do Cairo os manifestantes pareciam guardar-se para os protestos marcados para hoje, mas ontem o dia teve uma grande surpresa no Egipto: o reformista Mohammed ElBaradei anunciou o seu regresso ao país para participar nos protestos, pediu a "reforma" do Presidente Hosni Mubarak e ofereceu-se mesmo para liderar uma transição pacífica do actual regime para uma democracia.

"Os egípcios quebraram a barreira do medo", declarou ElBaradei.

O número de mortos nos três dias de confrontos entre os manifestantes e as forças da ordem subiu ontem para seis e a situação continuava marcada por grande imprevisibilidade. O facto de os protestos, mesmo que esporádicos, conseguirem continuar por um terceiro dia, apesar da brutalidade da repressão policial, é considerado extraordinário.

Mas analistas sublinhavam que, ainda que seja notória a inspiração da revolta tunisina, a situação no Egipto é totalmente diferente. Embora os manifestantes tenham conseguido algo nunca visto em quase 30 anos do regime de Mubarak, "não atingiram, para já, um nível que ameace o Presidente", sublinhou o correspondente da emissora britânica BBC no Cairo, Jon Leyne.

Os organizadores do protesto têm expressado esperanças de que a manifestação de hoje seja a maior dos últimos dias - sendo que a magnitude do primeiro dia de protesto, com dezenas de milhares de pessoas nas ruas, foi já vista como notável.

O regresso de ElBaradei

Um desenvolvimento imprevisto foi a partida de Mohamed ElBaradei de Viena para o Cairo. ElBaradei, Nobel da Paz e antigo responsável da Agência Internacional de Energia Atómica, tinha começado por reagir aos protestos dizendo que preferia lutar contra o regime dentro das instituições do Estado, mas de seguida declarou o seu apoio às manifestações no Twitter. Um outro utilizador do site de microblogging respondeu-lhe desafiando-o a mostrar o seu apoio na rua e não só online. ElBaradei vinha a ser criticado por não viver no Egipto, e ontem defendeu-se dizendo que do exterior era mais ouvido do que quando estava no Cairo, onde os media o ignoravam.

Agora, ElBaradei declarou que Hosni Mubarak, de 82 anos, se deveria "reformar" depois dos longos anos de serviço à nação; disse que estaria no Egipto para as previstas grandes manifestações de hoje, mas sublinhou que o seu papel será mais político, oferecendo-se para, caso "o povo" pedisse, "liderar a transição".

ElBaradei tinha antes anunciado que se candidataria às eleições de Setembro se estas fossem livres, regressando ao Cairo em Fevereiro de 2010, mas recuou pouco depois, dizendo que isso não iria acontecer. A sua presença no Egipto, neste momento, poderá dar uma cara a um movimento maioritariamente de jovens cansados de não terem opções políticas.

"Temos o direito de escolher o nosso Governo", afirmou Mohamed Fahim, de 29 anos, trabalhador de uma fábrica de vidro. "Vivi toda a minha vida sem conseguir escolher um Presidente."

Confrontos no Suez e Sinai

Ontem, os confrontos entre manifestantes e polícia registaram-se sobretudo na cidade do Suez, no Sul do canal estratégico, com gás lacrimogéneo e balas de borracha a dispersar os protestos, e no Norte do Sinai, onde um jovem manifestante beduíno foi morto com um tiro na cabeça pela polícia.

Nos últimos dias, para além de cinco manifestantes mortos (a sexta vítima foi um polícia), as autoridades detiveram centenas de pessoas: fontes do Ministério do Interior falavam em mais de 800, uma organização de advogados apontava para 1200 detidos. A instabilidade teve um forte efeito na bolsa egípcia, que, depois de cair dez pontos percentuais, foi encerrada. Os jogos de futebol deste fim-de-semana (que no país é hoje e sábado) foram cancelados.

De Washington, o Presidente Barack Obama falou pela primeira vez da situação no país aliado dizendo que "a violência não é uma solução para os problemas do Egipto", pedindo quer ao Governo, quer aos manifestantes que não recorram à força.

O Presidente Hosni Mubarak tem estado silencioso. As palavras da autoridade vieram do ministro do Interior, que garantiu que o regime não estava ameaçado. "O sistema egípcio não é frágil", disse Habib el-Adli. "Os milhões vão decidir o futuro desta nação, não manifestações, mesmo que com milhares", concluiu. Nas ruas, os manifestantes pediam a saída de Mubarak, do seu filho Gamal e ainda de Adli, responsável pela repressão dos protestos.

O partido de Mubarak deu, entretanto, um aparente sinal de abertura: "Eles são livres de expressar as suas reivindicações e nós estamos aqui para ir ao encontro das suas necessidades", afirmou o secretário-geral do partido no poder, Safwat al-Sherif. Mas não deu qualquer indicação de compromisso.

Ontem, a imprensa egípcia mencionava reuniões governamentais de emergência para consideradar uma série de medidas como aumentos salariais, novos empregos, para aplacar a ira dos manifestantes. Mas os protestos, que começaram por ter como objectivo lutar contra o desemprego, pobreza, aumento de preços e a continuação do estado de emergência, acabaram com dezenas de milhares de pessoas a gritar contra Mubarak.

Que concessões?

Poderá assim ser demasiado tarde para que medidas económicas resolvam a situação, sublinha o correspondente da BBC Jon Leyne. Estas "podem aliviar a pressão dos mais pobres da sociedade, mas não irão satisfazer os jovens de classe média que estão a aparecer nas ruas".

A mesma opinião tem o jornalista egípcio Issandr El Amrani, do blogue The Arabist. Num e-mail de resposta a questões do PÚBLICO, Amrani considerou que os egípcios já não têm medo "e o Governo terá de fazer grandes concessões para acalmar a situação". Que concessões serão essas não é ainda claro. "É demasiado cedo para dizer se poderá incluir a partida de Hosni Mubarak, mas alguns ministros deverão cair", antevê. "E isto também torna mais improvável que Mubarak se candidate a outro mandato ou que o seu filho Gamal lhe suceda."

Como conclui o correspondente da BBC no Cairo, "no Médio Oriente a situação é agora tão imprevisível e os acontecimentos estão a ser tão rápidos que quase tudo pode acontecer". O comentador Rami Khouri apresentava, no Financial Times, um paralelo com a luta do movimento Solidariedade na Polónia: um impacto não imediato, mas inexorável, que irá enfraquecer os regimes.

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