Dois países com mais do que o título em jogo no Euro 2012

A Polónia e a Ucrânia têm uma oportunidade única para provar que estão à altura do desafio. O primeiro adversário será o fantasma da insegurança e da instabilidade

Em condições normais, 8 de Junho de 2012 seria o dia em que a UEFA respiraria de alívio. Seria o dia em que Michel Platini diria para si mesmo: "Saiu-me um peso dos ombros". Não é o caso. O dia que marca o arranque do 14.º Campeonato da Europa de Futebol é o dia em que todas as dúvidas começam a ser esclarecidas. Sim, é verdade que os estádios estão prontos e correspondem às expectativas, mas quase tudo o resto é uma incógnita. Sobretudo na Ucrânia.

Vamos rebobinar. A 18 de Abril de 2007, a candidatura da Polónia e da Ucrânia à organização do Euro 2012 bateu as propostas da Itália e da Croácia/Hungria. A decisão vinha de encontro à política de descentralização do futebol. Depois da aposta da FIFA na África do Sul para o Mundial 2010 (e do aval à Rússia para 2018 e ao Qatar para 2022), a UEFA respondeu abrindo as fronteiras a Leste.

"A primeira fase final de um Europeu disputada na Europa de Leste é um marco para a história da UEFA", regozijou-se o presidente do organismo, Michel Platini, que não teve problemas em alargar os critérios de avaliação e aliviar o caderno de encargos dos organizadores, quando percebeu que não podia exigir-lhes o mesmo que aos países que desde 1960 já tinham acolhido o torneio.

As dores de cabeça começaram cedo. Em finais de 2008, as obras no Estádio Olímpico de Kiev derrapavam e as dificuldades de financiamento, impostas pela crise económica, agravavam o cenário. Platini mostrava-se preocupado mas não disposto a ceder, admitindo a hipótese de a Ucrânia manter o estatuto de anfitriã com a maioria dos jogos a ser disputada na Polónia.

De então em diante, o trajecto foi feito de curvas e contracurvas. Em Setembro de 2009, o dirigente francês anotou "o franco progresso" feito pelos ucranianos e confirmou que as quatro cidades-sede do país fariam parte do calendário. Em Maio de 2010, ameaçou com a transferência do torneio para a Alemanha e Hungria para, três meses depois, revelar que "o ultimato" deixara de fazer sentido. Um ano mais tarde, a Ucrânia já estava "virtualmente pronta".

A Polónia também não tinha começado com o pé direito. Em Setembro de 2008, a federação foi suspensa por envolvimento num caso de corrupção e Platini não apreciou a intromissão do Governo no caso. Mas aceitou. Como aceitaria abdicar da maioria dos acessos viários previstos nos dossiers de candidatura.

Para Martin Kallen, director operacional da UEFA, essa é uma questão menor: "Há alguns troços [de estradas] incompletos. A viagem de uma cidade para outra levará mais tempo. Isso não é assim tão importante". Tomando como exemplo o calendário de Portugal, a viagem de Opalenica até Lviv demorará de carro cerca de 9h50: num trajecto de 737km, só 244 são cobertos por auto-estrada.

Mas esse, de facto, não é o maior dos problemas que a dinâmica campanha de marketing em torno do Euro 2012 esconde. Nas últimas semanas, especialmente depois de dois engenhos explosivos terem detonado em Uzhgorod e Dnipropetrovsk, têm chovido reservas e receios face ao nível de segurança que as autoridades ucranianas conseguirão garantir.

O currículo de alguns grupos de adeptos polacos e ucranianos, ligados a movimentos extremistas e anti-semitas, adensa ainda mais as preocupações. Os responsáveis do departamento de segurança da Ucrânia reconhecem que os "hooligans podem criar problemas de ordem pública passíveis de degenerar em xenofobia", mas ressalvam que não há razões para alarme.

"Durante cada partida, cerca de 20 especialistas vão acompanhar a situação a partir de uma sala de controlo", explica à AFP Markian Lubkivsky, director do comité organizador ucraniano, acrescentando que haverá 22.000 polícias destacados para os dias de jogo. "Temos um número suficiente de agentes para todas as situações", vinca Serhiy Pohotov, em nome do Ministério da Administração Interna e de um Governo enredado num clima de instabilidade política, de que o caso Yulia Tymochenko é o espelho mais fiel. Muitos políticos europeus já anunciaram um boicote em protesto contra a detenção da líder da oposição. A UEFA passou ao lado da questão. "Não estou preocupado. O meu papel não é fazer política ou interferir em tudo", atalhou Platini.

Durante largos meses, o líder da UEFA também assobiou para o lado quando se falou na escassez e má qualidade do alojamento na Ucrânia. Acabaria por intervir já muito depois de a escalada de preços ter atingido valores estratosféricos: em alguns casos, as tarifas dos hotéis chegaram a custar 80 vezes mais que o normal. Só em Abril deste ano apertou o cerco aos proprietários, que rotulou de "bandidos e viagaristas". Só em Abril deste ano é que o Governo ucraniano prometeu regular os preços.

Em matéria de risco global, Polónia e Ucrânia estão separadas por uma distância maior do que a fronteira que as divide. O ponto de interrogação que começa hoje a desfazer-se está inteiramente do lado ucraniano. Markiyan Lubkivsky, esse, não tem dúvidas: "Cumprimos um longo período de preparação. Estamos prontos".

Michel Platini não poderia estar mais de acordo. No discurso que fez em Varsóvia, anteontem, deixou repetidas palavras de agradecimento aos anfitriões. "Tem sido um projecto imenso, nenhum dos países tinha organizado um torneio desta dimensão. Estamos nos metros finais de uma longa corrida", afirmou. Longa e dispendiosa. Entre Polónia e Ucrânia, foram gastos cerca de 38 mil milhões de euros em obras. "Estamos prontos", reitera o presidente da UEFA. Hoje arranca o mês de todos os exames.

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