Agricultores exportam para ganhar mais

Vendas de fruta e legumes nos mercados externos podem atingir os mil milhões este ano. A crise está a acentuar a tensão entre fornecedores e distribuição

As exportações de frutas e legumes deverão atingir pela primeira vez este ano o valor recorde de mil milhões de euros, um aumento de 25% face a 2011. Para conseguir melhores preços e escoar produção, os produtores nacionais estão a apostar nos mercados externos, fugindo à crise do consumo em Portugal, que está a esmagar as margens do negócio.

Os números da Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (Fnop), que representa mais de 60% da produção organizada, mostram ainda que em 2010 as exportações do sector hortofrutícola somaram 600 milhões de euros. O ano passado cresceram para os 800 milhões. Há produtores que já vendem mais de metade da produção para o mercado externo. E outros que se dedicam quase em exclusivo ao comércio fora de portas.

As exportações de produtos alimentares têm vindo a subir, ao mesmo tempo que as importações recuam (ver páginas seguintes). O sector agrícola, diz João Machado, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), está a conseguir "substituir as importações e a conquistar mercados externos". De acordo com os indicadores mais recentes do INE, as vendas internacionais de carne, peixe, leite, frutas e legumes aumentaram 6% no primeiro trimestre, em comparação com o período homólogo de 2011.

No caso dos hortofrutícolas, há várias explicações para a subida. "Tem havido um investimento muito grande na produção agrícola e as empresas estão hoje a sofrer com a pressão e o esmagamento do preço no mercado nacional", diz Domingues dos Santos, presidente da direcção da Fnop. "Há muitos produtos vendidos abaixo do preço de produção e os produtores ou exportam ou morrem", acrescenta. Além disso, diz Domingues dos Santos, as exportações também servem para escoar excedentes de mercadoria.

Lá fora, os produtores nacionais vendem não só para as maiores cadeias de distribuição do mundo, da britânica Tesco à francesa Carrefour, mas também para os mercados abastecedores e tradicionais. Cá dentro, o cenário é de aperto económico: os consumidores reduzem os gastos com a alimentação, as maiores empresas do retalho alimentar registam quebras nas vendas face a anos anteriores e os "custos de contexto" (energia, combustível ou impostos) aumentam. "Em Portugal há uma busca pelo preço baixo para atrair consumidores ao ponto de venda e usa-se a produção nacional para captar clientes", resume o presidente da Fnop, sublinhando que os agricultores não conseguem repercutir a subida das despesas no seu preço.

As guerras entre a distribuição e os fornecedores são antigas mas agudizaram-se com a crise e as promoções cada vez mais agressivas das cadeias de retalho.

A campanha do Pingo Doce, que ofereceu quase todos os artigos a metade do preço no 1.º de Maio, fez levantar um coro de protestos e resultou num processo de venda com prejuízo, que está a ser analisado pela Autoridade da Concorrência (AdC). Nesta negociação, de que nenhuma das partes pode prescindir, uns querem vender ao melhor preço possível; outros lutam por comprar pelo menor valor.

Vender para fora é uma forma de contornar o problema. Na Póvoa de Varzim, a Horpozim tem apostado em parcerias internacionais para "o escoamento do produto face à degradação dos preços", diz Manuel António, desta associação de horticultores com 600 produtores. Metade da produção já tem como destino Espanha (Galiza) e França.

No zona oeste, 95% do negócio da Abrunhoeste, de José Paulo Duarte, é feito com clientes internacionais. "Além de conseguir melhores preços, tenho estabilidade, porque conseguimos ter um preço certo para quase toda a campanha. Aqui em Portugal faz-se o preço à semana", diz o presidente do Grupo Paulo Duarte, onde o sector da agricultura já pesa 10% da facturação. A Abrunhoeste tem receitas de mais de quatro milhões de euros e vende pêra-rocha ou maçãs para o Reino Unido e Brasil. "O mercado nacional tem o problema de qualquer outro sector: está concentrado em duas grandes cadeias e isso tem muito peso na força de compra", diz. Mas o empresário deixa uma ressalva: "Que ninguém ponha a culpa nos preços pagos ao produtor, porque só vende abaixo do preço de custo quem quer. Também há vendas com prejuízo na produção, não é só na distribuição."

Num relatório da AdC lê-se que em Portugal operam nove grandes grupos no retalho alimentar que, em 2008, tinham uma quota de 85% das vendas do sector. Os dois maiores, Continente (do grupo Sonae, dono do PÚBLICO) e Pingo Doce (da Jerónimo Martins), representam uma quota conjunta de 45% desse total.

A concentração do mercado - acentuada com a venda dos hipermercados detidos pelo Carrefour à Sonae e da lojas Plus à Jerónimo Martins - faz com que produtores e indústria alimentar dependam, em média, em cerca de 30% de um único cliente, diz Pedro Queiroz, director-geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares. João Paulo Girbal, presidente da Centromarca (associação de empresas de produtos de marca), lembra que este cenário "não surgiu de um dia para o outro". "Foi um processo natural e agora é preciso adicionar legislação que reequilibre o jogo", defende. O tema está a ser discutido no âmbito da PARCA, a Plataforma de Acompanhamento das Relações na Cadeia Agro-Alimentar que junta todos os intervenientes na mesma mesa.

No congresso da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), em Janeiro, Assunção Cristas, ministra da Agricultura, defendeu maior transparência na formação dos preços a que os produtos chegam às prateleiras e admitiu que a relação entre produtores e distribuição é "desequilibrada". "É com alguma tristeza que se ouve dizer que é mais fácil exportar do que conseguir entrar na distribuição nacional", disse. Na altura, e reagindo a estas declarações, Paulo Azevedo, CEO da Sonae, afirmou que o facto de ser mais fácil exportar do que vender no mercado doméstico "é uma boa notícia". "Quer dizer que já conseguimos abastecer a distribuição com fornecedores portugueses."

Ana Isabel Morais, directora-geral da APED, lembra que a crise tem colocado "muita pressão sobre o preço" e isso "obriga a que toda a cadeia tenha de criar uma proposta de valor ajustada ao contexto". O sector da distribuição alimentar modernizou-se e é "obcecado pela eficiência" para oferecer ao cliente o preço mais baixo. E "num momento de crise como este, as tensões [entre distribuição e fornecedores] tendem a ter mais expressão", admite.

Para a directora-geral da APED, o crescimento das exportações dos hortofrutícolas é motivo de "orgulho" para o país. Quanto aos preços conseguidos no estrangeiro, "são ajustados ao que os mercados estão dispostos a pagar". "Temos países com um poder de compra bastante diferenciado do de Portugal", diz. com José Manuel Rocha

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