Um clube que venceu o campeonato mas vai descer de divisão? Outro que obteve a manutenção e a despromoção ao mesmo tempo? Outro ainda que foi terceiro e antepenúltimo classificado em simultâneo? Parece impossível, mas tudo isto aconteceu no Uganda. A temporada 2012-13 vai ficar para a história do futebol local como a mais caótica de que há memória. Não estamos a falar de manipulação de resultados nem de corrupção, mas sim de divergências administrativas, que estiveram na base da existência de dois campeonatos paralelos. Com todas as peripécias que isso implicou.
Na época que terminou houve dois campeonatos do Uganda. Um organizado pela Federação de futebol do Uganda (FUFA, na sigla original), designado FSL e que não atraiu nenhum patrocinador, e outro levado a cabo por um grupo de clubes, sob a égide da Super Liga do Uganda, conhecido como USL e que contou com o apoio da Uganda Breweries e da Supersport. A situação arrastou-se durante todo o ano, sem que as autoridades conseguissem convencer os dois lados a fundir os campeonatos, para que houvesse apenas um escalão principal.
“Os 16 clubes e a FUFA criaram a USL, e posteriormente formaram a FSL sem dissolverem a USL e sem venderem as suas participações. Isto significa que a USL ainda é detida, enquanto empresa, pelos mesmos clubes – incluindo a FUFA – que promoveram e são accionistas da FSL. Eis a génese da confusão das duas ligas”, podia ler-se num despacho da ministra da Educação e Desporto do Uganda, Jessica Alupo.
A fusão das duas ligas chegou a estar prevista logo no início da temporada, com a ministra a estabelecer um prazo indicativo até 31 de Janeiro. Mas nada aconteceu. O prazo foi prolongado, a FIFA interveio, mas continuou sem acontecer nada. Até que, finalmente, se decidiu deixar os dois campeonatos chegar ao fim.
Tanto a FSL (constituída por 16 equipas), como a USL (formada por 11) se disputaram até ao final como previsto. E os adeptos ugandeses tiveram uma pequena overdose de futebol. Porque muitas das equipas acabaram por se inscrever em ambas as competições. Foi o caso, por exemplo, do Victors FC - 14.º classificado (em 16) na FSL e 10.º (em 11) na USL. Ou do Bunamwaya SC, que foi nono na USL mas fez um brilharete na FSL (onde competiu sob o nome Vipers SC) ao terminar em terceiro lugar.
Esta situação fez com que a época 2012-13 seja recordada no Uganda como o ano dos dois campeões. O Kampala City Council FC impôs-se na FSL, terminando com uma vantagem de sete pontos. Foi o nono título de campeão para o emblema da capital, que vai disputar a Liga dos Campeões africanos. Como a FSL não tinha patrocinador, foi o próprio presidente da FUFA a entregar um prémio monetário ao plantel: 15 milhões de xelins ugandeses, ou pouco mais de 4500 euros.
Mas a festa não durou muito para os jogadores do KCC, porque a equipa foi desclassificada da Taça do Uganda por ter abandonado a partida dos quartos-de-final frente ao Vipers FC. O encontro foi marcado por arremesso de pedras e ameaças à equipa de arbitragem, e o clube será multado pelos incidentes.
O campeão da USL não se pode ficar a rir. Apesar de ter vencido a competição em que participou, o Maroons FC vai jogar num escalão inferior em 2013-14. “Só retomará o seu lugar no escalão principal depois de se inscrever na segunda divisão para a época 2013-14 e se terminar num lugar que dê a promoção”, decidiu a ministra Jessica Alupo. Isto porque, em 2012-13, o Maroons FC não se inscreveu na competição organizada pela FUFA, ou seja, a FSL.
Na próxima época o Uganda voltará (em princípio...) a ter um só campeonato: a Uganda Premier League, com 16 equipas. Mas só se a FUFA pagar os 78 mil euros de dívidas que remontam a 2012, quando organizou a Taça do Conselho das Federações de Futebol do Leste e Centro Africano (CECAFA).
* Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos

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