Opinião

Sir Alex Ferguson, a longevidade do senhor manager

Alex Ferguson é um ícone do sucesso no futebol profissional e acaba de anunciar o terminus da sua longa e profícua carreira. “Fergie”, como é carinhosamente tratado pelos adeptos, ao longo de todo o seu percurso enquanto treinador do Manchester United, tem sido alvo dos mais merecidos e variados tributos, mas também de olhares profundos ao seu trabalho e análise às suas técnicas de gestão. David Gill, o diretor executivo dos red devils, reforçou a importância deste, quando afirmou que se “Steve Jobs era a Apple, Sir Alex Ferguson é o Manchester United”. E Richard Greenbury, antigo presidente da Marks & Spencer chegou a dizer que “Alex Ferguson era o melhor gestor da indústria britânica”. De facto, ao longo de todos estes anos, o escocês foi o rosto do sucesso e deixa um legado neste poderoso clube de futebol que é uma marca global.

Há uns anos atrás li uma entrevista do holandês Arie de Geus, um guru da Aprendizagem Organizacional, que fez toda a sua carreira numa só empresa, onde delineava algumas lições de gestão e fazia um paralelismo entre o treinador de futebol e os gestores no mundo empresarial. O anúncio do seu abandono levou-me a recuperar a analogia. Ferguson encarna o arquétipo do treinador/gestor! O estatuto e a dimensão do que este alcançou levam-me a refletir sobre o trabalho desenvolvido por ele numa organização desportiva como o Manchester United e a mencionar alguns traços caraterizadores do seu trabalho de excelência, que vão muito além da operacionalização das suas ideias no treino, da definição do “onze” ou das substituições nos jogos.

Creio que o ponto de partida para este treinador/gestor foi uma intervenção direta na organização e na estrutura, criando valores e uma visão de longo prazo. A este propósito o mítico manager escocês afirmou: “O primeiro pensamento de 99% dos treinadores é assegurar-se que ganham para poder sobreviver... Eu penso que é importante construir uma estrutura para um clube de futebol e não apenas uma equipa. Precisamos de fundações.” Enquanto o treinador tradicional recebe uma equipa e tira o melhor rendimento imediato da mesma, Ferguson desenvolveu uma organização, rodeou-se de recursos e criou as circunstâncias para almejar um sucesso duradouro e estável.

O futuro ex-treinador do Manchester United é muito conhecido pela sua ética e capacidade de trabalho. Às sete da manhã já está no clube e criou um ambiente de trabalho à sua imagem. Encoraja o talento e o brilhantismo individual, mas não tolera quem pensa estar acima dos colegas e da equipa e já houve alguns jogadores que perceberam isso ao longo dos tempos, quando lhes foi mostrada a porta de saída. Para Ferguson “trabalho árduo também é talento”, promove a superação e prefere “jogadores que, como eu, não gostem de perder”.

Fomenta relações de proximidade com os jogadores, que não critica em público, mas quando as coisas correm mal não deixa nada por dizer e estes já conhecem o famoso hair dryer, por causa dos gritos deste na cara deles. Vê as sessões de treino como oportunidades de aprendizagem e aperfeiçoamento. Aprecia a inovação para evoluir e, como exemplo disso, mandou instalar cabines de bronzeamento, com o objetivo de aumentar os níveis de vitamina D e fortalecer os ossos dos jogadores. A mensagem que passa é clara: “Neste clube, não podemos ficar parados”. Assume o controlo de tudo e “as coisas são feitas à sua maneira ou então... rua”!

Podíamos referir que Alex Ferguson esteve 26 anos no clube porque ganhou inúmeros títulos individuais e troféus coletivos importantes, no entanto, não é bem assim. Ele é de facto um ganhador, mas só à sétima época é que conseguiu o primeiro título... Isto deve ser suficiente para percebermos que noutro contexto, leia-se clube e timing, o desfecho poderia não ter sido este.

* Artigo publicado respeitando a norma ortográfica escolhida pelo autor

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