Ryszard Hoppe, um polaco afastado da família para o bem de Portugal

A medalha de prata conquistada ontem pertence a Fernando Pimenta e Emanuel Silva, mas cumpre o plano traçado por Mário Santos e pelo seleccionador Ryszard Hoppe quando os dois se reuniram para assinarem contrato, em 2005.

O antigo responsável da canoagem polaca, um dos técnicos mais conceituados da Europa, nunca se coibiu de dizer, ainda antes dos Jogos Olímpicos de Pequim, que o objectivo de Portugal era subir ao pódio em Londres 2012. Acertou em cheio e uma boa parte da responsabilidade é dele, que tem no adjunto Rui Fernandes um grande aliado.

O polaco, que já tinha somado títulos olímpicos como seleccionador do seu país, ajudou a revolucionar a modalidade, que tem a sua base no Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-velho. "Sem sistema não se consegue nada. É preciso um mínimo de 200 dias de estágio juntos. Queria a equipa em selecção, não cada um em casa com o seu treinador. É assim que funciona nos países que ganham", explicou ontem Hoppe em Eton Dorney, cerca de uma hora depois do segundo lugar obtido pela dupla portuguesa.

O técnico admitiu que, quando chegou a Portugal, estava preocupado com o nível da modalidade, mas rapidamente mudou de ideias. "Pensei: "quatro anos não dá com este grupo". Mas para mim estes anos têm sido melhores do que 30 e tal na Polónia", revelou, acrescentando que os atletas portugueses têm mais vontade do que os seus compatriotas.

O nível da canoagem subiu com uma velocidade surpreendente, com várias dezenas de medalhas conquistadas em campeonatos europeus, mundiais, Taças do Mundo e, agora, até nos Jogos Olímpicos. Os bons resultados começaram a aparecer a partir de 2007. "Depois foi abrir o saco e deitar as medalhas lá para dentro".

Hoppe, que ontem estava com uma unha pintada com as cores da bandeira portuguesa, é um exemplo de compromisso com Portugal, que diz ser o melhor país do mundo. "Vive em Montemor e começa a trabalhar às sete da manhã e acaba às oito da noite. E com ele não há casos", referiu Mário Santos. O polaco está sozinho em Portugal há vários anos, apesar de ter a esposa e as filhas na Polónia, onde só vai nas férias. Como a federação tem pouco dinheiro - este ano vai receber 377 mil euros do Instituto de Desporto de Portugal e 124 mil do Comité Olímpico de Portugal -, Hoppe tem que treinar todas as tripulações da canoagem de velocidade dos diferentes escalões etários.

Na hora de optar por um seleccionador, há sete anos, Mário Santos escolheu um técnico de "uma escola de grande referência" e que "já falava português", depois de a meio da década de 1990 ter treinado a Associação Desportiva de Amarante. O líder da federação sublinhou que mais de 80% das medalhas de Portugal na modalidade foram conquistadas depois de Hoppe, que nasceu há 60 anos em Bydgoszcz e é licenciado em Educação Física, assumir o comando técnico da selecção. E o polaco já pensa em múltiplas medalhas nos Jogos de 2016: "Temos equipa para isso".

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